Uma educadora revolucionária presente hoje e sempre

“O exemplo de Salete Strozake ilumina o caminho para as novas gerações que, como ela, querem e irão cambiar o mundo”, escreve Janaina Strozake

 

Por Wesley Lima*
Da Página do MST

 
 
Nesta última quarta-feira, 21 de novembro, completaram-se 21 anos que a militante Sem Terra, educadora popular, dirigente e mãe, Iraci Salete Strozake, veio a falecer num grave acidente de carro, quando voltava de Laranjeiras de Sul, no Paraná, após ter realizado uma prova para ingressar na universidade.

Salete, como era conhecida por todos, iniciou a sua militância muito cedo e é lembrada pela coerência, sentimento de pertença, dedicação e compromisso com as tarefas que lhe eram atribuídas. Com atuação em diferentes espaços do MST, nunca deixou de exercitar o seu carisma de educadora, contribuindo de maneira direta na educação de turmas multiseriadas e na alfabetização de crianças, jovens e adultos nos acampamentos e assentamentos do MST. 

“Era uma companheira que não tinha preguiça de ir onde as famílias estavam, de ir de escola em escola, conversar com os professores, com os pais e ajudar a implementar a proposta de educação do MST. Quando as construções ainda eram de lona preta e as camas eram de tarimbas e a sala de aula era um barracão de lona preta com mesas de bancos improvisados”, lembra Maria Izabel Greim, da coordenação estadual do MST no Rio Grande do Sul. 

Participante ativa da luta pela terra no Sul do país, Salete foi uma das delegadas do 1º Encontro Nacional do MST, em 1984, em Cascavel, onde legitimou e fundou o Movimento. Em 1985 participou de diversas ocupações de terra e nos muitos acampamentos que viveu, assumiu a bandeira da educação ao receber a responsabilidade de ser professora da Escola de Emergência Camélia II, no Assentamento Imbauzinho, que foi rebatizada de Escola Rosa Luxemburgo.

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Salete iniciou sua militância muito cedo e é lembrada pela coerência, sentimento de pertença, dedicação e compromisso.

Considerada uma revolucionária pela sua dedicação, ousadia e pelo desejo de lutar por dias melhores, sua irmã, Janaina Strozake, em texto titulado “Salete Strozake, revolucionária em todos os espaços”, porém, não datado, pontua:  “Sua sensibilidade, seu compromisso com a revolução, sua capacidade organizativa, sua dedicação ao estudo e ao aprimoramento constante, fizeram dela [Salete Strozake] uma referência em vários âmbitos. Nos deixou muito jovem, aos 27 anos. Seu impacto como revolucionária a mantém viva, na memória e na luta cotidiana mundo a fora. Seu exemplo ilumina o caminho para as novas gerações que, como ela, querem e irão cambiar o mundo”.

Numa entrevista concedida à Bernardo Mançano Fernandes, em 1997, que na época era um doutorando pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Salete falou sobre o processo de organização da educação do campo e a importância da luta como uma ferramenta que forma as gerações. Além disso, contextualiza como se dá o processo educativo nos acampamentos e assentamentos do MST há 21 anos atrás. 

Leia alguns fragmentos dessa entrevista.

BERNARDO: Salete, fale um pouco sobre sua atuação no debate da educação do campo no Paraná?

SALETE: Nesse período, quando nós fomos assentados, eu comecei a atuar como professora dentro do assentamento, então no ano de 1987, dentro da Direção Estadual foi discutido que se precisava de umas pessoas pra discutir a situação da educação no Estado, começar a fazer alguma coisa, que era uma discussão que vinha da Direção Nacional e justamente nesse ano teve o I Encontro Nacional de Educação do Movimento Sem Terra e daqui do Estado do Paraná fui eu e uma companheira aqui dessa região que é a Iria, do assentamento Xagú, eu era professora em Ortigueira e ela daqui do Xagú, só que naquele período eu tinha quatro meses de sala de aula e tinha pouco tempo também de Movimento Sem Terra, aí nós fomos para o Encontro Nacional e lá assim foi tudo muito difícil de entender que proposta que é que servimos, a única coisa que a gente tinha claro é que queria uma educação diferente, nova, melhor, não tínhamos interesse em continuar com a educação que a gente tinha recebido e que a gente vinha desenvolvendo. Depois desse Encontro Nacional, nós nos reunimos com algumas pessoas e fomos conversando assim de, enfim o que fazer, aí eu não lembro direito, mas se eu não me engano, no coletivo nacional do setor de educação foi discutido pra Lúcia Catânio vir aqui para o Paraná. Em 1988 então realizamos o I Encontro Estadual dos professores dos assentamentos que, não lembro exatamente quantas pessoas foram reunidas, mas foi mais ou menos uns 60 professores, foi trabalhada a questão de o que é educação popular, inclusive eu me lembro o nome da assessora Sílvia Fleck, e foram feitas algumas discussões de como organizar a educação no Estado e uma das definições seria continuar fazendo Encontros com os professores, Encontros Estaduais e se organizar a nível das regiões, então a partir da vinda da companheira Lúcia começou a se organizar equipes de educação nas regiões e se constituiu o Coletivo Estadual, no qual eu fazia parte, eu continuava dando aulas no assentamento, nos finais de semana, nos feriados eu ia para os outros assentamentos conversar com os professores e fazia parte então do Coletivo pela nossa região […].

 
 

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Salete e sua filha

BERNARDO: Agora uma outra questão, então nós temos uma série de lutas conjuntas acontecendo paralelamente, simultaneamente, todas elas, então é luta pela organização do trabalho da produção, outra para educação, as ocupações, o Movimento vai crescendo nesse sentido. Agora, você estava falando das escolas, em que sentido que o setor de educação conseguiu resultados positivos, desde a sua gênese e da sua origem aqui no Estado do Paraná até hoje? Existem escolas de 5ª a 8ª série nos assentamentos? Existem escolas de 2º grau ou não? Existem cursos de formação de professores? O setor está bem articulado? Como é que aconteceu isso?

SALETE: Entre os principais resultados está o acesso à educação, isso foi uma coisa assim que foi marcante, quase todos os assentamentos ou tem escola, só que as escolas são de 1ª a 4ª, ou as crianças vão estudar em escolas próximas, então nenhum assentamento, por menor que seja, ficou sem o acesso à educação ou quando o menor possível foi levar as crianças para uma escola.

BERNARDO: Ninguém ficou fora da escola?

SALETE: É, que se tenha conhecimento não, a maioria, todos os assentamentos que a gente conhece, todos eles tiveram conquistas, tiveram muita briga, mas tiveram conquistas de ter a educação. Quanto a organização do setor, o setor aqui no Paraná teve muita dificuldade, a sua história é bastante complicada, em 1987/88 se inicia então a organização do setor, com a Lúcia Catânio iniciando a organizar, nesse começo assim um coletivo de uns 10/12 companheiros de algumas regiões do Estado, o Movimento também não era muito espalhado naquele período e começa a se ter  uma prática assim, começa a ter reuniões desse coletivo, fazer cursos dentro das áreas, fazer várias atividades e se começa a se ter algumas experiências de educação diferente, mas isso foi até mais ou menos no ano de 1990/91 quando a companheira Lúcia teve que sair por motivo de problemas da família dela, ela saiu então do Movimento Sem Terra e ficou o setor sem ter quem coordenasse, quem atuasse dentro dos setores, aí os professores que vinham até então participando, ficavam isolados dentro dos seus assentamentos, alguns continuaram com essa forma de organização inicial que era o coletivo do assentamento, a equipe da educação, o coletivo dos professores, outros professores saíram da função de professor, como foi o meu caso, em 1989 eu já não era mais professora, comecei a participar da luta do Movimento como um todo, logo depois, alguns anos depois, o companheiro Paulo, que era outro coordenador do setor também se retira do setor e vai atuar em outras frentes dentro do Movimento Sem Terra e o setor de educação então dá pra se dizer que parou nesse período, até então tinha sido conseguido um convênio com a Secretaria de Educação do Estado, é um convênio assim bastante complicado, chamado “Gente da Terra”, que o governo do Estado do Paraná fazia cursos com os professores, dentro dos conteúdos deles, professores deles e o Movimento Sem Terra participava tendo pessoas pra ir acompanhar, principalmente, a abertura, encerramento, era essa a participação do Movimento Sem Terra […].

BERNARDO: Você avalia hoje que o setor de educação do Movimento Sem Terra está vivendo uma boa fase, está se consolidando, está avançando ou está tendo problemas ainda?

SALETE: Se nós formos analisar a nível da história como o setor veio se desenvolvendo, hoje nós podemos dizer que ele tem uma certa constituição, hoje nós temos um coletivo estadual com um número mais ou menos razoável, somos em mais ou menos vinte companheiros e são todos praticamente liberados para trabalhar no setor de educação, no coletivo de coordenação do Estado e nas regiões, nós temos atuação em sete regiões, incluindo as de educação de jovens e adultos e de 1ª a 4ª, há um trabalho de base assim, nós hoje temos um convênio com o governo do Estado, esse convênio daí é nosso, é nós que trabalhamos, é diferente do projeto Gente da Terra.

BERNARDO: Salete, todo esse trabalho que vocês estão fazendo, como que ele é visto dentro do próprio Movimento Sem Terra, quer dizer, o setor de educação ele é reconhecido como importante dentro do próprio Movimento Sem Terra, pelo o que você falou a Direção Nacional sempre teve a preocupação de fazer ele funcionar, nomeou, indicou pessoas, te convidou, agora na sua opinião ele está tendo o espaço necessário para ele poder se constituir ou ele está tendo dificuldade?

SALETE: Olha, a Direção sempre teve preocupação sim em ter o setor de educação dentro do Movimento Sem Terra do Paraná, em ter pessoas responsáveis, mas na minha avaliação não ia muito mais além disso, tipo assim, ter as pessoas para ir tocando, mas o pessoal da Direção sempre levantou essa dificuldade de entender o papel do setor de educação, o pessoal levanta que é uma coisa difícil dos Sem Terra, do trabalhador, que no caso é a maioria da Direção, entender essa parte da educação que é mais para os técnicos e tal, agora, sem dúvida, até no limite, até onde foi a capacidade da maioria das pessoas da Direção, eles sempre tiveram assim interesse em estar ajudando, em estar contribuindo, em ajudar a discutir até onde eles conseguiam a questão da educação dentro dos acampamentos, das regiões. Agora o setor de educação é bastante complexo nesse sentido, porque na minha avaliação assim, ele tem um papel bastante importante dentro do Movimento Sem Terra, ele precisa ter mais apoio, mas por outro lado, também assim, se formos avaliar, por exemplo, no Encontro Estadual desse ano teve um grande reconhecimento do setor de educação pelo trabalho que vem desenvolvendo nas regiões, agora as pessoas que fazem parte não só da Direção Estadual, mas das coordenações enfim, tem muita dificuldade de contribuir no andamento do setor e ao mesmo tempo essa não é uma culpa unicamente das direções, porque também é um problema dos próprios setores, em se fazer aparecer, em ter uma estratégia que consiga resultados, que consiga desenvolver um bom trabalho para que seja reconhecido como importante dentro do Movimento Sem Terra. Então, eu acho que há um problema de ambas as partes aí.

 

*Com informações cedidas pela família da Salete Strozake, pelo Setor de Educação do MST e com a contribuição de Bernardo Mançano.