Amor e revolução pela emancipação humana

Conheça o legado de Alexandra Kollontai para a luta da classe Trabalhadora

 

 

Por Ândrea Francine Batista
Da Página do MST

KollontaiAlexandra[1].jpg

Alexandra Kollontai foi uma mulher de luta socialista, feminista e internacionalista que viveu intensamente suas convicções de transformação societária em todas suas dimensões. Para ela, além da economia e da política, era necessária e urgente mudanças profundas que possibilitassem a emancipação feminina, desde as relações e o amor entre homens e mulheres, até mesmo a criação de condições objetivas para que mulher pudesse superar as restritas funções domésticas que historicamente lhe foram incumbidas.

Excelente oradora e conhecedora de várias línguas, Kollontai realizou agitação política e propaganda das ideias socialistas e feministas junto aos trabalhadores e trabalhadoras da Rússia, bem como em outros países. Na organização internacional da classe trabalhadora (Internacional Socialista) combateu enfaticamente o chamado revisionismo do legado marxiano, e defendeu bravamente, junto a Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin, a questão da libertação da mulher.

Sua trajetória demonstra que, a cada passo, uma luta revolucionária requer ousadia, constância, coerência, e um profundo sentimento de amor. Revolução e amor são as faces emancipação humana.

 

Os primeiros passos

Alexandra Mikaylovna Kollontai nasceu em 31 de março de 1872 na cidade de São Petesburgo, na Rússia. Filha de mãe camponesa e pai general do Czar, tanto ela quanto sua irmã nunca foram à escola porque, dadas as condições familiares vindas da nobreza latifundiária, estudou em casa com uma professora particular que era militante revolucionária. Aos 16 anos sua família decide que ela não precisaria mais estudar, mas sua inquietação pelo conhecimento a incentivou a ser autodidata, na busca de um dia tornar-se professora.

Seguindo a tradição, foi indicada como esposa de um homem de 70 anos, mas sua rebeldia a fez desafiar as regras e casar-se por amor, aos 20 anos, com um primo. Vladimir Mikhailovich Kollontai foi um exilado político e inspetor fabril, e desta relação nasce o filho de nome Misha.

Aos 23 anos, Kollontai, simpatizante do “socialismo agrário”, iniciou seus estudos sobre economia e o marxismo. Escrevia contos e novelas sobre temas da classe trabalhadora, a emancipação da mulher e o amor-camaradagem, ao mesmo tempo em que ingressava com  intensidade nas atividades políticas de seu tempo. Participou de um grupo literário como voluntária exercendo um trabalho educativo junto às periferias da capital russa e desempenhava pequenas missões junto aos socialistas como o transporte de documentos secretos. Também atuou em bibliotecas alfabetizadoras, onde se buscava organizar o ingresso de jovens revolucionários no movimento político.

Pouco tempo depois, com o fim de seu casamento Kollontai ingressa de fato no Partido Operário Social-Democrata Russo (socialista), dedicando-se por completo à luta. Conhece Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin, e torna-se uma propagandista das ideias socialistas, combatendo as tendências revisionistas no movimento socialista internacional.

Kollontai, uma bolchevique revolucionária

KollontaiAlexandra.jpg

Kollontai participou ativamente do ensaio revolucionário que ocorreu em 1905, através do movimento de mulheres. Uma marcha pacífica de camponeses ao Palácio de Inverno, liderada por um padre, enfureceu a ira do regime czarista que respondeu com um massacre – o chamado Domingo Sangrento.
Kolonttai conseguiu escapar da repressão e em reuniões clandestinas conheceu Lênin, Krupskaia e Vera Zasulich, tornando-se grandes parceiros destas notoriedades nas lutas que seguiram. Integrou à tendência bolchevique do partido e atuou intensamente na agitação de massas, na organização de operárias e na difusão das ideias socialistas junto ao movimento feminista, inclusive na organização internacional da classe trabalhadora – a Internacional Socialista.

Kolontain torna-se assim uma das primeiras revolucionárias a construir as bases para a organização das mulheres trabalhadoras e do feminismo socialista. Escreveu incansavelmente a respeito do papel da mulher na construção dessa nova sociedade e das condições objetivas para que esta pudesse superar as amarras do trabalho estritamente doméstico e atuar na política e na construção efetiva da luta socialista.

Em 1917, com a efervescência da eminente revolução russa, Kollontai, tornou-se o elo o entre Lênin, que encontrava-se exilado, e os bolcheviques, em São Petesburgo. Levava panfletos de maneira clandestina, inclusive escrevendo o chamado às mulheres para as mobilizações contra o czar em 8 de março (23 de fevereiro no calendário gregoriano), momento considerado o estopim da Revolução Russa.

Já com os bolcheviques no poder, Alexandra foi nomeada Comissária do Povo para o Bem Estar Social, um função similar ao que seria de Ministra. E em 1918 organizou o I Congresso das Mulheres Operárias Russas, que resultou em um organismo dedicado a promover a participação da mulher na vida política e em projetos sociais. Traçou a luta contra o analfabetismo e formulou leis com o princípio de igualdade de gênero, resoluções sobre a possibilidade do divórcio, cozinhas e lavanderias coletivas, e espaços educativos para a infância.

Alexandra defendia que, se a emancipação das mulheres era impensável sem o socialismo, então o socialismo era impensável sem a total emancipação das mulheres. No X Congresso do Partido, ela escreveu expondo a posição da tendência Oposição Operária e tecendo críticas aos perigos da burocratização degenerativa e da separação do partido das massas. Essa tendência foi derrotada neste Congresso, criou-se vários tensionamentos em relação à militância de Kollontai.
 

Com a morte de Lênin (1924), Kollontai foi exilada ao serviço diplomático. Foi embaixadora na Noruega e no México, primeira vez que se elegia uma mulher para esta função. Em dezembro de1926, sua embarcação se deteve no porto de Havana (Cuba) e como o governo da época não havia permitido o desembarque pelas relações diplomáticas conturbadas, um grupo de mulheres cubanas aluga uma barca e a visita em alto mar. Regressa apenas em 1944 para Rússia.

Em seu retorno, continuou intensamente sua militância e seus escritos, inclusive a respeito de uma autocrítica do processo revolucionário. Morreu em 1952, aos 70 anos de idade na cidade de Moscou de causas naturais.

Seu legado

“Não se deve escrever somente para si mesma, mas para outros, escrever para aquelas mulheres distantes e desconhecidas que habitarão o futuro. Deixemos elas verem que não fomos heroínas ou heróis,  mas que só cremos ardentemente e apaixonadamente, cremos em nossas metas, e as perseguimos. Algumas vezes fomos fortes, e outras vezes débeis, muito débeis.” (Alexandra Kollontain)

Sua luta ardente pela construção revolucionária carrega um legado imprescindível para a luta de classes na atualidade. Entre elas: a) a vida pessoal, moral e sexual (a vida privada) é também de responsabilidade revolucionária, ou seja, a emancipação humana não é somente econômica e política, mas do cotidiano, dos costumes; b) a socialização dos serviços domésticos é fundamental para criar condições para a emancipação feminina e essa somente se efetiva com o fim do capitalismo; c) o amor camaradagem é mediado essencialmente por um projeto comum de vida e de sociedade, onde se constrói as condições para uma nova perspectiva de amor; d) o poder deve estar nas mãos dos trabalhadores e trabalhadoras para uma transição socialista; e) a convicção do horizonte socialista como caminho para a verdadeira emancipação humana.

Suas Obras

A Situação da Classe Operária na Finlândia (1903);  A Luta de Classes (1906); Primeiro Almanaque Operário (1906); Base Social da Questão Feminina (1908); A Finlândia e o Socialismo (1907); Sociedade e Maternidade (?); Quem Precisa da Guerra? (?); A Classe Operária e a Nova Moral (?); Comunismo e Família (1918); A Nova Mulher (1918); A Moral Sexual (1921); Romance e Revolução (?); A Oposição Operária (1921).

 

Entre os Romances, Contos e Novelas, destacamos: Um grande Amor; Amor Vermelho; Irmãs, e  O Amor de Três Gerações.

 

Editado por Fernanda Alcântara