Vigília contra despejos no Paraná completa uma semana: “Renovou a mística”, diz líder
Famílias se unem contra ameaça de despejo pelo governo do Paraná em Cascavel, no Oeste do estado

Por Erick Gimenes
Do Brasil de Fato
Há uma semana, cerca de 300 camponeses sem-terra fazem um ato contra ameaças de despejos solicitados pelo governo do Paraná em Cascavel, na região oeste do estado. Segundo lideranças populares da região, a Justiça autorizou, a pedido do governador Ratinho Júnior (PSD), a reintegração de posse do complexo de fazendas Cajati, onde vivem mais de 200 famílias acampadas há cerca de duas décadas. Elas pedem a suspensão imediata da decisão.
Em mobilização contra a iminente expulsão, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fazem vigílias diárias, sempre das 10h às 15h, à beira da rodovia BR-277, altura do km 557, em trecho próximo às comunidades ameaçadas – Resistência Camponesa, Dorcelina Folador e 1º de Agosto.
De acordo com Ângela Lisboa Gonçalves, coordenadora do acampamento Resistência Camponesa, a primeira semana de manifestações teve adesão acima do esperado e renovou o ânimo dos moradores.
“A gente esperava menos pessoas que participassem dela [a vigília]. A gente ficou surpresa com o número de apoiadores que a gente teve. As pessoas vêm visitar a gente, mandam apoio pelas redes sociais. As famílias, parece, se uniram mais. Renovou a mística”, afirma.
Ângela reforça que, além da suspensão dos despejos, as comunidades também pedem que o governo abra diálogo para que as famílias sejam assentadas no complexo.
“O que a gente espera é que as áreas do Resistência Camponesa, 1º de Agosto e Dorcelina não sejam despejadas. Mas, também, mesmo se a gente receber a notícia de que não vai ter despejo, a gente também quer que o governo dialogue a respeito da área”, explica.
Roseli Campos de Souza, que planta e colhe há 17 anos nas terras do complexo Cajati, pode ser uma das vítimas da reintegração. Do que produz no local, ela deu sustento a oito filhos. Para ela, a efetivação da expulsão seria uma tragédia.
“Para mim, no momento, está sendo muito difícil. Porque não tem onde colocar as crianças. Aqui a gente já tem tudo – tem a batata, tem a mandioca, tem o feijão, tem a vaca, tem o leite, tem o queijo, tem o porco, tem a galinha. Se a gente sair daqui, para onde a gente vai, se a gente é agricultora desde criança?”, questiona.
A camponesa ressalta que as famílias produzem alimentos e abastecem muitas pessoas que vivem nas cidades. “A roça é tudo pra mim. A roça é meu sonho, é um sonho que eu tenho de infância. Queria pedir para o governador que deixasse nós aqui”, implora Roseli.
Apoios
Os camponeses têm recebido apoios presenciais, por exemplo, de políticos, educadores e sindicalistas da região, e também virtuais, como do cantor e compositor pernambucano Otto.
“Parem de atormentar, parem de torturar, parem de querer o despejo de famílias que estão ali lutando pelo seu sustento, produzindo o orgânico, produzindo as coisas boas e saudáveis”, declarou o artista, em vídeo.
Situação no estado
Ratinho Júnior já autorizou o despejo de mais de 500 famílias, em nove ações de reintegração de posse, de maio a dezembro de 2019, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em nenhum dos casos houve diálogo com as famílias, dizem os sem-terra.
Atualmente, o estado abriga aproximadamente 7 mil famílias em 80 ocupações, todas em áreas declaradas improdutivas, confiscadas do tráfico de drogas, denunciadas por trabalho escravo ou de grandes sonegadores de impostos.
*Editado por Vivian Fernandes do Brasil de Fato