Primeira Internacional

28 de setembro de 1864: Associação Internacional dos Trabalhadores

Com reivindicações que iam além de econômicas, cerca de 2 mil trabalhadores de diversos países se reuniam em Londres, para criação da AIT, depois conhecida como a Primeira Internacional
O componente central da AIP sempre foi a identidade de classe, colocando os trabalhadores e trabalhadoras frente a um inimigo comum: o capital. Foto: Arquivo

Por Fábio Tomaz
Da Página do MST

No dia 28 de setembro de 1864, como resultado de um amplo processo de diálogos e mobilização, cerca de 2 mil trabalhadores se reuniam em Londres, na Inglaterra. Delegados representando diversos países se apertavam nas instalações do St. Martin’s Hall. Era criada a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), posteriormente conhecida como a Primeira Internacional.

Este esforço coletivo, cuja força motriz era em seu início o movimento operário inglês, ia muito além de reivindicações econômicas. A AIT buscava contribuir igualmente para uma leitura comum da realidade capitalista mundial e para o estabelecimento de estratégias comuns entre trabalhadores e trabalhadoras de diversos países.

Solidariedade, unidade e luta

Evidentemente, a AIT não inaugurou a solidariedade internacional. A luta de classes sempre foi marcada por grandes gestos de solidariedade entre os oprimidos, e por muitos esforços de compreensão de que projetos de emancipação precisam ultrapassar fronteiras, sem o qual a unidade de luta é impossível.

Em nossa América Latina, por exemplo (e muito antes da consolidação plena do centro de acumulação capitalista na Europa), a Revolução Haitiana já anunciava a condenação de todas as formas de opressão das massas trabalhadoras e convocava à unidade para além de suas fronteiras.

Reunião de fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores em 28/09/1864.

Foi a partir do internacionalismo da Revolução Haitiana que figuras como Simón Bolívar radicalizaram seus projetos e suas lutas. Até então, Bolívar era uma representante da chamada burguesía criolla, que buscava independência da colonização espanhola. Desde a solidariedade e apoio (logístico, financeiro e militar) do Haiti, Bolívar compreendeu que a luta por libertação é apenas possível por meio da unidade de povos para além das fronteiras nacionais e em torno de um projeto de emancipação plena de todas as formas de exploração.

Ainda na América Latina, a visão de José Martí, para quem a luta por independência verdadeira não era uma questão de formalidade política, mas de construção de uma sociedade que se opunha ao padrão de dominação dos impérios coloniais que eram combatidos. É notável a posição de Martí de que de nada adiantaria para a América Latina uma independência formal das colônias se isso significasse uma nova forma de dependência aos EUA, que no século XIX já mostrava suas características imperialistas.

Outros exemplos ao redor do mundo ilustram o fato de que a unidade, um projeto diferente de sociedade e a solidariedade internacional já eram parte da realidade dos projetos protagonizados pelos oprimidos. Nos cabe então buscar qual foi o elemento distintivo da AIT de 1864. Para isso, de volta à Europa, é importante compreender seus próprios antecedentes.

Antecedentes da AIT

O desenvolvimento e consolidação do capitalismo na Europa se deu de forma muito distinta que nos diferentes países. Com a restauração das monarquias após o fim das Guerras Napoleônicas (1815) e com as revoluções liberais (1830), uma massa de dissidentes e exilados passou a se concentrar nos polos mais avançados do capitalismo da época: Inglaterra e França.

Ainda que muito diversos, esses grupos passaram a se organizar para criticar os níveis de exploração e a falta de liberdades em muitos países. Exilados criam em Paris a Liga dos Proscritos (1834), que ao se expandir e incorporar cada vez mais grupos de operários franceses e representações inglesas, passou a se chamar Liga dos Justos em 1836. Essas organizações eram em grande partes clandestinas e duramente perseguidas.

Porém, com o avanço do desenvolvimento capitalista, ficava mais evidente que o sujeito protagonista das principais lutas são as massas crescentes de trabalhadores e trabalhadoras industriais na Europa. O operariado se constitui historicamente como uma classe em oposição à burguesia, e assim, uma classe com interesses não apenas econômicos, mas politicamente opostos. Essa compreensão é alargada com as contribuições de Karl Marx e Frederich Engels, entre outros, em suas críticas profundas à sociedade do capital. A década de 1840 é marcada pelo aumento do operariado e das tensões entre os interesses dos trabalhadores e da burguesia.

Em 1847, Marx e Engels foram convidados a se somarem à Liga dos Justos. A partir de muitas relações que possuíam com o movimento operário em distintos países, ambos iniciam debates e propostas que transformaram a Liga dos Justos: a necessidade de ser uma organização massiva e pública, de ter nos trabalhadores e seus interesses o protagonismo central, de vincular as análises da realidade e as críticas com a luta política concreta, de ter um programa que propunha a superação da sociedade do capital e não formas de “ajuste” dentro do próprio capitalismo. A partir de um congresso em Londres, a Liga dos Justos passa a se chamar Liga dos Comunistas. Marx e Engels ficam encarregados de redigir um manifesto programático.

O documento chamado de Manifesto Comunista, se tornou público em 1848, e teve um grande impacto nas lutas dos/as trabalhadores/as que eclodiram em forma de levantamentos por toda a Europa. O papel da Liga dos Comunistas foi fundamental para radicalizar estes processos. Porém, a contraofensiva das classes dominantes foi cruel e todo o movimento operário foi duramente reprimido. Poucos anos depois, sem conseguir superar as agressões e perseguições, a Liga dos Comunistas foi dissolvida. Mas a classe trabalhadora europeia tinha mostrado seu potencial de luta e mobilização em uma escala até então sem precedentes.

Diante do aumento da classe trabalhadora na Europa, e da realidade do capitalismo que gerava crises periódicas com potenciais de luta (em especial a partir da crise econômica que se inicia em 1857), um novo esforço de unidade passa a ser organizado. Desta vez, é dada mais importância a articulação entre as lutas que ocorriam nos diferentes países. Esse esforço resulta nos delegados apertados no St. Martin’s Hall, em 28 de setembro de 1864.

Identidade de classe

O componente central da AIT sempre foi a identidade de classe. Esta independe de fronteiras, na medida em que o avanço das relações capitalistas, mesmo com particularidades regionais, colocam trabalhadores e trabalhadoras frente a um inimigo comum: o capital. Além disso, não se trata dos capitalistas individuais, mas do sistema que articula em seu projeto de dominação esferas da economia, da política, da institucionalidade, da ideologia e da cultura. A publicação de O Capital em 1867, deu às organizações da classe trabalhadora mais um instrumento para analisar objetivamente os mecanismos do sistema de exploração dominante.

A AIT organizou suas ações a partir do que há de comum entre os trabalhadores e não daquilo que os diferencia. O que deve dialogar com as questões locais em cada país são os interesses de classe, e não apenas questões específicas de categorias de trabalhadores. Dessa forma, centenas de organizações de trabalhadores se filiavam continuamente a AIT, buscando apoio à suas lutas e reivindicações ao mesmo tempo em que ajudavam a construir um movimento internacional de solidariedade.

Um dos marcos de sua atuação foi o apoio e a solidariedade à Comuna de Paris, em 1871. Os debates e ações da AIT ao redor da Comuna confirmavam um componente da luta de classes que já havia se manifestado na repressão às lutas de 1848: as classes dominantes possuem disputas entre si, porém seus interesses gerais estão acima dessas disputas. Quando a classe trabalhadora se organiza ao ponto de ser uma ameaça concreta a estes interesses, a burguesia se esquece de suas desavenças, forja rapidamente unidade e combate duramente o movimento dos trabalhadores. Essas e outras reflexões (sobre o Estado, democracia direta, sujeito histórico) são parte de um discurso de Marx na AIT, que posteriormente foi publicado com o nome de “A Guerra Civil na França”.

Porém, a unidade expressa rapidamente pelos opressores não se dá da mesma maneira com os oprimidos. Com a ampliação da AIT, houve a incorporação cada vez maior de debates sobre táticas e estratégias. Surgiram tensões internas que impactaram os rumos da organização. Na Europa, os anarquistas começaram a organizar uma forte oposição ao Conselho Geral. Nos EUA, membros locais da AIT passaram a propor alianças com setores liberais. Somado à isso, a experiência da Comuna de Paris marcou uma nova ofensiva da burguesia contra as organizações de trabalhadores e em especial à própria AIT.

Após uma tentativa de mudança de sede para Nova Iorque em 1873 – buscando ao mesmo tempo um local com menos repressão e um distanciamento das disputas internas e fragmentação – muitos membros abandonaram a organização, que foi formalmente dissolvida em 1876.

Legado

A partir da experiência prática da AIT as organizações populares passaram a ter formas mais concretas de vincular suas lutas particulares com um projeto universal de emancipação. Seja no âmbito dos sujeitos da luta (a classe trabalhadora em toda sua diversidade), seja no âmbito de seu projeto (uma mudança estrutural que busque ir além das soluções “parciais” como fim em si mesmas). Esses componentes não se dão de forma isolada nos países, dado que o sistema capitalista é igualmente internacional.

Dessa forma, pode-se dizer que a grande contribuição da AIT é a concepção de que o internacionalismo, no que se trata da luta por emancipação, não é um componente marginal. Pelo contrário, é pressuposto de uma real emancipação. Dessa forma, dado que aquilo que unifica a diversidade da classe se dá no âmbito internacional, o próprio internacionalismo se configura como princípio, valor e estratégia política dos trabalhadores.

Esforços como a Segunda Internacional (findada em 1916), a Terceira Internacional (até 1943) e muitos outros buscaram seguir essa concepção a partir de seus contextos particulares. A Conferência de Bandung (1955) e o Movimento dos Países Não Alinhados seguiu em parte essas linhas, desta vez com o foco desde governos de distintos países buscando novos níveis de cooperação para além da dualidade do contexto da Guerra Fria.

Mas o internacionalismo de classe lançado pela AIT sempre frutificou de forma mais contundente para além dos governos, na medida em que orientou os intercâmbios e articulações desde a diversidade de instrumentos políticos e formas de organização dos movimentos populares.

No caso da América Latina, cabe destacar a criação da Via Campesina Internacional, em 1992 (a partir de um encontro internacional camponês na Nicarágua, e da realização de sua Primeira Conferência já em 1993, na Bélgica). Na medida em que organizava os camponeses como uma identidade comum para além das fronteiras, também compreendia o papel de outro modelo de agricultura desde seus impactos para o conjunto da classe trabalhadora.

Outro marco importante em nosso continente é a criação da Alba Movimentos em 2013, após um longo processo organizativo que teve momentos importantes em 2007 (Cumbre de Tintoreo) e 2009 (Carta de Belém). O objetivo é justamente consolidar a articulação de organizações populares, sejam urbanas ou rurais, para além de governos. Pois governos mudam, sob melhores ou piores condições, mas o interesses dos sujeitos em luta seguem.

Hoje já é evidente a impossibilidade de pensar as lutas populares sem o componente internacional, seja a análise da realidade, na formulação das táticas e estratégias, seja na organização de lutas conjuntas frente a inimigos comuns. Os esforços atuais de construção e consolidação da Assembleia Internacional dos Povos (AIP) é mais um passo importante nesta trajetória de consolidar pontos comuns a nível global. A AIP e outros esforços seguem a tradição da busca por unidade dos povos oprimidos. Tradição esta que teve um salto de qualidade em 28 de setembro de 1864, quando se afirmou que a libertação dos oprimidos se dará a partir daquilo que possuem em comum – sua identidade de classe – e que essa luta se realiza plenamente para além das fronteiras de cada país.

*Mais conhecido como Fabetz, militante do MST de São Paulo, da Coordenação Político-pedagógica (CPP) da Escola Nacional Florestan Fernandes e do Coletivo de Relações Internacionais (CRI).

**Editado por Solange Engelmann