Resistência
A disputa pelo Sahel e a resistência popular!
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Por Brigada Samora Machel
Da Página do MST
A Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, foi um encontro das potências coloniais europeias para dividir o continente africano entre si, sem a presença ou consentimento de nenhum representante africano. Sob o pretexto de levar “civilização” à África, o verdadeiro objetivo era assegurar o controle sobre recursos naturais e rotas comerciais. A divisão arbitrária desconsiderou as complexas dinâmicas culturais e sociais dos povos africanos, gerando conflitos duradouros e estabelecendo as bases para a exploração que persiste até hoje.
Essa lógica de exploração e dominação reverbera na disputa atual pelo Sahel. Os países envolvidos são o Mali, Burkina Faso, Níger, Chade e Mauritânia, que vivem os resquícios dessa ordem colonial, com elites locais muitas vezes alinhadas a interesses estrangeiros em detrimento do povo. Assim como no século XIX, os recursos naturais continuam sendo o foco central, explorados por corporações globais enquanto comunidades locais enfrentam a miséria. A fragmentação territorial imposta pela colonização continua a alimentar divisões internas, enquanto a luta pela soberania e autodeterminação ressurge como força transformadora, com movimentos sociais lutando por justiça climática, distribuição de terras e liberdade real.
A região é rica em recursos naturais como ouro e urânio, e tornou-se palco de intensas disputas geopolíticas. Corporações estrangeiras e potências militares da Franca e dos Estados Unidos, sob o discurso de combate ao terrorismo, mantiveram bases militares e influenciaram governos locais. No entanto, os povos do Sahel, cansados da violência e da miséria, intensificaram mobilizações exigindo a retirada imediata das forças estrangeiras.
Mulheres têm liderado iniciativas comunitárias, enquanto jovens organizam protestos contra a corrupção e agricultores defendem a agroecologia como caminho para a soberania alimentar. A luta é também cultural: países como Mali e Burkina Faso começam a eliminar símbolos da colonização, reformulando o sistema educacional e incentivando línguas locais.
Aliança dos Estados do Sahel e a ruptura com a França
A criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES) entre Mali, Níger e Burkina Faso representa um marco na tentativa de romper com a influência francesa. Após o aumento das tensões, esses países expulsaram tropas estrangeiras, encerraram acordos econômicos abusivos e iniciaram a reorganização de suas economias para priorizar as necessidades locais.
Mesmo com pressões externas e a presença de atores como China e Rússia buscando influência, as populações locais mantêm a determinação de construir um futuro autônomo. “Não queremos mais ser reféns de interesses que não são nossos. A soberania começa com o controle sobre a nossa terra e a nossa cultura”, afirma Amina Traoré, líder comunitária de Burkina Faso.
Um futuro forjado pela resistência
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As rebeliões africanas, marcadas pela radicalidade e pela força coletiva, seguem inspirando a luta por dignidade e liberdade. O caminho para a paz e a soberania do Sahel é pavimentado pela resistência diária de quem planta, cuida e organiza a luta. A busca por uma África livre das amarras neocoloniais se fortalece a cada comunidade que se levanta para reivindicar seu direito à vida digna e à autodeterminação.
*Editado por Solange Engelmann