Educação
Formatura de 31 novos agrônomos populares é uma conquista da reforma agrária popular

Da Página do MST
No último sábado, dia 29 de março, o assentamento Novo Sarandi (Coanol), em Sarandi-RS, foi palco de uma celebração emocionante: a formatura da terceira turma do curso de Agronomia com ênfase em Agroecologia, do Pronera/Incra, realizada em parceria entre o Instituto Educar e a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Erechim.
O nome da turma, Neurice Torres, foi uma homenagem à mãe de um dos formandos. A turma iniciou sua trajetória em 2019, enfrentando os desafios da pandemia da Covid-19 e adaptando parte do percurso ao formato remoto.
Após seis anos de muito esforço coletivo, 31 estudantes colaram grau, em uma cerimônia que teve início às 18h30 com uma mística preparada pela turma 4 de Agronomia. A noite seguiu com a colação de grau e falas de autoridades que celebraram a importante conquista para a educação do campo e para a agroecologia.
Os 31 graduados são oriundos de 11 estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Pará. Outros cinco alunos ainda devem defender o Trabalho de Conclusão de Curso e colar grau em maio de 2025.
“Mesmo com todos os problemas, garantimos a formação com qualidade. É a colheita de um longo trabalho”, assegurou o professor Jacir Chies, coordenador do Instituto Educar.
Em suas três edições provenientes da parceria, o curso de Agronomia já formou 129 profissionais. A quarta turma, iniciada em 2022 com 40 estudantes, segue em aulas. A Comissão Pedagógica Nacional (CPN) do Pronera também já emitiu, em março deste ano, parecer favorável à realização da quinta turma.
O evento de formatura contou com a presença da diretora de Desenvolvimento Sustentável do Incra, Rosilene Rodrigues, e do superintendente da regional gaúcha, Nelson José Grasselli.
“A graduação em Agronomia com ênfase em Agroecologia não só capacita tecnicamente, mas também fortalece um modelo de agricultura sustentável que respeita a terra, valoriza a biodiversidade e promove a soberania alimentar”, enfatizou Rodrigues.
Segundo ela, o Pronera demonstra que a educação é um direito e reforça o compromisso do Estado em democratizar o conhecimento, garantindo formação superior de qualidade para filhos e filhas de trabalhadores rurais. “A parceria com o Instituto Educar, que tem 20 anos de história, também é fundamental nessa história. Uma conquista do MST e para a população.”
20 anos de história do Educar

Chies destacou os 40 anos de história e luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os 20 anos do Instituto Educar. “Agradecemos imensamente aos que antes de nós iniciaram esta história e hoje cabe a nós, nosso profundo reconhecimento.”
O coordenador também valorizou o fato de que em muitos casos é o primeiro da família a concluir um curso de nível superior. “Isso aumenta a nossa responsabilidade! Mas também aumenta a nossa luta por mais turmas de agronomia. Sonhamos ainda com a ampliação do Instituto Educar e a criação de pós-graduação, pois acreditamos na ciência como fator fundamental para qualificar o desenvolvimento dos assentamentos e das comunidades camponesas como também nas associações e cooperativas.”
“Processo cheio de emoções, lutas e tensões”

Em seu discurso, os oradores da turma, Jhonanta Maurilio Fernandes e Letícia Gonçalves Vieira, ressaltaram que o dia ficará para sempre gravado em suas memórias.
“Tudo começou no dia 20 de fevereiro de 2019, onde todos e todas, vindos de 14 estados diferentes, deixaram suas casas, familiares e rotinas com um único objetivo: ir em busca do conhecimento. Com coragem e dedicação, esses sonhadores e sonhadoras enfrentaram diversos desafios, enquanto carregavam consigo a esperança de transformar seus destinos, contribuir para um mundo mais justo e assumir um compromisso com a agroecologia.”
Lembraram que foi um processo cheio de emoções, lutas e tensões, que exigiram dedicação, resiliência e trabalho coletivo. “Cada etapa dessa jornada foi um aprendizado. Enfrentamos adversidades, percalços e desafios que nos testaram, tanto como indivíduos quanto como grupo. Vemos diante dos nossos olhos o avanço do fascismo, expressado pelo bolsonarismo na sua forma mais cruel e gananciosa de ser. Tentaram encerrar o nosso ciclo, porém se esqueceram que em nossas veias corre o sangue de Sepé Tiarajú.”
Emocionados, afirmaram que ao longo dessa trajetória, aprenderam que viver em coletivo é uma verdadeira arte. “A arte de respeitar diferenças, superar conflitos e aprender com as contradições. Nos fortalecendo como grupo, como um coletivo unido por um objetivo maior: promover a agroecologia e contribuir para um mundo mais justo. Por isso, reafirmamos hoje nosso compromisso em lutar contra o machismo, o patriarcado e todas as formas de injustiças. Reafirmamos também nosso propósito em ser agentes de transformação, promovendo os valores da agroecologia e levando adiante os princípios que nos uniram enquanto turma.”
“Tudo está interligado”

A paraninfa escolhida, a assentada Lucia Catarina Vedovatto, falou em nome do Coletivo Roseli Nunes do Instituto Educar. “Quero agradecer a vocês da turma pela indicação de alguém do coletivo para fazer parte desse evento. Neste ano comemoramos os 40 anos da ocupação da antiga Fazenda Annoni, que faz parte da criação do MST. E graças a essa ocupação foi possível a criação do nosso município de Pontão.”
Ela também destacou que o Instituto Educar completou nesse mês de março seus 20 anos, graças ao envolvimento de pais, avós na luta pela terra. “Assim vocês conseguiram estudar e se formar num curso superior num assentamento. Por isso meus queridos, nunca se esqueçam de voltar e olhar para suas origens, de onde vieram, de quem lhes proporcionou essa formação e aprendizagem.”
Lucia lembrou Ana Maria Primavesi: “tudo está interligado, não existe ser humano sadio, se o solo não for sadio, e as plantas bem nutridas”.
“Essa é a tarefa, missão e desafio de vocês agrônomos e agrônomas, enfim, a todos e todas nós, o cuidado, a preservação, o cultivo saudável do solo e do nosso planeta. A crise climática que estamos enfrentando é resultado desse não cuidado da natureza pelo ser humano. Vamos abraçar juntos essa causa e fazer ecoar o apelo de Ana Primavesi: ‘solo sadio, planta sadia e ser humano sadio’.”
E a paraninfa finalizou deixando os versos da poesia do companheiro Zé Pinto:
VALORES
Os valores são sementes/que germinam pelos caminhos
E que conduzem ao amanhã.
É uma preciosidade pois
Só quem caminha pode encontrar
Só quem aprende plantar pode colher.
Os valores são uma fonte de água pura
Onde bebemos a utopia
De vislumbrarmos a liberdade mesmo com os olhos enfumaçados pela escuridão.
São árvores que os sonhadores adubaram
E que agora sobre sua sombra se alimentam
De conhecimento e da energia para continuar.
Enfim os valores são a poesia:
De quem acredita
De quem participa
Desse caminhar.
*Editado por Fernanda Alcântara