Cinquenta anos da Independência do Timor-leste: a FRETILIN, a Educação Popular, um grito contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos
Há 50 anos se declarava a Independência do Timor-Leste, num dia como o de hoje, 28 de novembro de 1975!

Por Simone Magalhães*
Da Página do MST
Localizada no sudeste asiático e fazendo fronteira com a Indonésia, o Timor Leste foi submetido por três séculos ao colonialismo português, que fazia do território o seu entreposto para o comércio europeu com a Ásia, desenvolvendo um modelo colonial baseado em negócios e no monocultivo agrícola.
No bojo das revoluções anticoloniais da década de 1960, 1970, e, especialmente, no contexto da Revolução dos Cravos, em Portugal, as colônias portuguesas ainda existentes receberam inspiração para consolidar a batalha das ideias sobre a necessidade da libertação colonial e o combate ao fascismo salazarista. Por meio da incidência em jornais, nos espaços de estudos e nas organizações de classe, escritores, estudantes, internacionalistas, entre outros, lançavam as denúncias do regime fascista de Salazar e propagavam as ideias anticoloniais que circulavam em outras partes do mundo.
O caldo cultural e político das lutas anticoloniais de 1960 sustentou a inspiração de um grupo de jovens composto por Nicolau Lobato, José Ramos-Horta, Francisco Xavier do Amaral, Mari Alkatiri, Borja da Costa, que fundaram inicialmente a Associação Social-Democrata Timorense (ASDT), em 1974, que, posteriormente, adotaria o nome de Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (FRETILIN).
A FRETILIN iniciou o seu trabalho a partir de um manifesto que denunciava as mazelas criadas pelo colonialismo, mas, ao mesmo tempo, socializava as ideias contidos nos processos revolucionários de libertação nacional que estavam se dando, à época, no chamado de “terceiro mundo”. Dessa forma, a FRETILIN ia aglutinando estudantes para os estudos marxistas e revolucionários, bem como para conhecer as experiências de libertação colonial que estavam ocorrendo mundo afora, especialmente no continente africano.
Realizando um verdadeiro processo de agitação e propaganda, a FRETILIN acumulou a força necessária para a criação de espaços de formação e um programa de educação popular para o povo timorense, pois, oriundos da Casa do Timor, em Lisboa, esses jovens intelectuais e formadores tiveram contato com figuras como Agostinho Neto, do MPLA, e Amílcar Cabral, do PAIGC. Por aí, circulavam as ideias e ocorria a socialização das experiências independentistas e organizativas na África e a FRETILIN passa a se identificar com movimentos de libertação das outras colônias portuguesas na África, reconhecendo a raiz comum de suas mazelas sociais.
Merece destaque, as formas da educação popular que a FRETILIN adotou para democratizar o saber e valorizar a identidade cultural do Timor Leste na batalha das ideias. Por meio do trabalho de educação popular, a FRETILIN conseguiu se consolidar no interior do país, cada vez mais amparado nas experiências e nas ideais dos movimentos de libertação do continente africano. Diante do avanço do governo indonésio sobre o Timor português, em finais de dezembro de 1974, a FRETILIN lança seu Manual e Programa Político, se afirmando como um instrumento político nacional e anticolonial, chamando à unidade nacional, em defesa da superação das diferenças étnicas, religiosas e cultural em favor da luta pela independência. Ademais, ressaltava a necessidade de desenvolver uma agricultura que atendesse as demandas internas do país, já que o colonialismo desenvolvia a monocultura voltada para exportação.
Meses depois da declaração de Independência, o país passaria a ser assediado e foi invadido pela Indonésia, que contou com o apoio da Austrália e dos Estados Unidos, interessados no petróleo do Mar do Timor. A invasão indonésia durou até 1999, quando foi responsável pelo massacre de parte significativa da população daquele país. A independência foi reestabelecida somente em 2002, graças ao trabalho político e de educação popular que a FRETILIN continuou realizado mesmo durante a ocupação indonésia.
Cinquenta anos depois, já não vivemos sob a Guerra Fria, forma que a luta de classes assumiu na geopolítica dos anos 1970, mas sob uma nova guerra imperialista de caráter neocolonial que submete povos, promove massacres – como o da Faixa de Gaza e da Líbia, num cenário que aprofunda a luta de classes atual e revela, sem disfarces, a ofensiva sobre os bens da natureza que são comum aos povos do sul global, bem como a apropriação de tudo aquilo que a classe trabalhadora produz, apenas para depois descartá-la.
Assim, recordar a Independência do Timor Leste é reconhecer, como afirmou Che Guevara, que “o imperialismo é o inimigo da humanidade” e que a força e a solidariedade entre os povos em luta podem impor derrotas significativas a esse sistema.
*Educadora Popular, faz parte do Coletivo Terra, Raça e Classe e do Setor de Internacionalismo do MST.



