Internacionalismo

Haydee Santamaría, uma militante da revolução, da política e da cultura

A trajetória de Haydee Santamaría revela como a Revolução Cubana fez da arte, da educação e do internacionalismo instrumentos de emancipação popular

Foto: Reprodução

Por Simone Magalhães*
Da Página do MST

Em 02 de janeiro de 1959, Fidel Castro partiu de Santiago de Cuba para a capital do país com a Caravana da Liberdade. A Caravana era composta por estudantes, operários e camponeses e contou com uma unidade de combatentes especial: o pelotão Mariana Grajales. Tratava-se de um pelotão de Mulheres revolucionárias, formado por treze jovens na faixa dos 17 anos, sobretudo de origem camponesa, que foi organizado em 03 de setembro de 1958 pelo Exército Rebelde para combater na Sierra Maestra.

A unidade combatente das mulheres do Exército Revolucionário recebeu o nome “Pelotão Mariana Grajales em homenagem à Mariana Grajales, la madre de la Pátria, mulher preta, combatente, que durante dez anos subiu montanhas, cuidou de feridos, cruzou rios e combateu pela independência de Cuba no século XIX. Mariana é símbolo do patriotismo cubano e do heroísmo nacional, porque não apenas se dedicou pessoalmente à luta pela Independência Cubana, como também estimulou os seus filhos a lutarem pela libertação do país.

Ao lado de Célia Sanchez e Fidel Castro, esteve a incansável Haydee Santamaría, que bem antes do assalto ao Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, realizava atividades clandestinas, como o transporte de armas e balas nas malas para o Movimento revolucionário. Antes, porém, quando Fulgencio Batista tomou o poder em 10 de março de 1952, Haydee e o seu irmão Abel assumem a tarefa de editar o jornal Son Los Mismos, que serviu como importante instrumento de agitação e propaganda contra o regime ditatorial de Batista, em que denunciavam a situação do país, o escárnio e a tirania das elites nacionais e de seus políticos. A partir desse momento, Haydee Santamaria abraçou a causa revolucionária e passaria a abrir caminhos para a consolidação do processo revolucionário no seu país e pela defesa incontornável da humanidade. Foi em seu modesto apartamento que Haydee recebeu o novo amigo de seu irmão Abel, o companheiro Fidel Castro, e a partir das sucessivas reuniões organizadas na sua casa, que Haydee se envolveu com o processo de conspiração e planejamento da insurreição.

Como informa Roberto Fernandez Retamar: “Cuando están decididos el lugar y la fecha del combate inicial, y es menester que Fidel y Abel escojan a un puñado de hombres aguerridos para realizarlo, dos mujeres estarán entre ellos: Haydee y la joven abogada Melba Hernádez”.

Durante o combate do Quartel Moncada, Haydee e seu irmão Abel ocuparam o Hospital Saturnino Lora, e, com a amiga Melba Hernandez, Haydee atuou como auxiliar do médico Mario Munhoz para cuidar dos feridos.

Capturada e presa pela ditadura de Batista, foi submetida ao horror da violência do Estado ditatorial, que lhe trouxe um olho arrancado de seu irmão Abel para submetê-la e obrigá-la a delatar os companheiros.

É Fidel Castro quem narra a brutalidade a qual foi submetido o irmão de Haydee, Abel, e a tortura imposta a ela pelo regime de Fulgêncio Batista:

Con un ojo humano ensangrentado en las manos se presentaron un sargento y varios hombres en el calabozo donde se encontraban las compañeras Melba Hernández y Haydée Santamaría, y dirigiéndo se a la última mostrándole el ojo, le dijeron: “Este es de tu hermano, si tú no dices lo que no quiso decir, le arrancaremos el otro.” Ella, que quería a su valiente hermano por encima de todas las cosas, les contestó llena de dignidad: “Si ustedes le arrancaron un ojo y él no lo dijo, mucho menos lo diré yo.” Más tarde volvieron y las quemaron en los brazos con colillas encendidas, hasta que por último, llenos de despecho, le dijeron nuevamente a la joven Haydée Santamaría: “Ya no tienes novio porque te lo hemos matado también.” Y ella les contestó imperturbable otra vez: “Él no está muerto, porque morir por la patria es vivir.” (La historia me absolverá)

A valentía de Haydee que a fez “sacar fuerzas de sus entrañas” para enfrentar o horror e a barbárie do fascismo capitalista repousou em seu coração para abrir caminhos, criar futuros e parir a humanidade que ela sonhava. Depois de combater as batalhas militar, jurídica e política, em 1º de janeiro de 1959, Haydee assume a tarefa da educação, contribuindo para o êxito e o sucesso da Campanha de Alfabetização no país.

Em 1959, fundou e dirigiu por muitos anos a Casa das Américas, espaço que se consolidou como referência da cultura nacional cubana e latino-americana. A Casa das Américas para Haydee Santamaria tinha como objetivo ser um espaço de cultura, de promoção do intercâmbio literário e artístico com os países latino-americanos.

Desde a Casa das Américas, praticou o internacionalismo e a solidariedade entre os povos, fortaleceu iniciativas de organizações internacionais e de mulheres nos países socialistas como URSS e Vietnã e atuou para democratizar o conhecimento e popularizar o acesso aos bens culturais.

Quando lhe perguntaram, em entrevista, qual era o objetivo da Casa das Américas, Haydee respondeu:

No nos dirigimos solamente a los intelectuales y a los artistas, sino también a los representantes del Pueblo, al verdadero creador de la riqueza de la nación, al humilde que suda y no ve el fruto de su trabajo, al explotado, al que nunca recibe recompensa”.

A sua resposta nos permite apreender como Haydee pensava o papel que deveria ter um espaço cultural e qual o sentido da cultura para ela, um lugar para circular ideias, para instigar a imaginação, para socializar e contemplar o belo, e, sobretudo, inspirar a transformação.

À frente por anos da Casa das Américas, Haydee foi pavimentando o sentido que a Revolução assumia para ela: o de transformar as bases materiais da sociedade e o de criar simultaneamente e intencionalmente as condições para florescer a emancipação, entendendo, sem se equivocar, que a cultura, como tudo o que corresponde, organiza e reflete a vida social, é política.

Contemporaneamente, quando a extrema direita desmonta espaços culturais, avança sobre os livros didáticos, promove a precarização e mercantilização das instituições de ensino e pesquisa, incentiva o esvaziamento das políticas públicas de educação, que privatizam parques públicos, podemos pensar com Haydee como combater o desmonte dos direitos sociais e culturais, refletindo sobre a importância da criação de outras tantas ações e alternativas que possam traduzir a diversidade e as bonitezas que o povo e a classe trabalhadora do campo e da cidade produzem. E conjeturar com ela:

Yo te puedo decir que todo es político: y no solo lo que es de manera evidente. Hasta las cosas que parecen más desvinculadas de la acción inmediata. Porque tu has visto que en la Casa de las Américas tratamos de que las cosas queden bien: no solo un libro, un acto, sino también que cuando tú llegues allá veas algo bonito en las paredes, o el programa que te den esté bien hecho. Y tú crees que eso no es político?

*Simone Magalhães é educadora popular, faz parte do Coletivo Terra, Raça e Classe e do Setor de Internacionalismo do MST.