Cultura Sem Terra
Banda Valla lança clipe “Revolução” gravado em acampamento do MST, em Juiz de Fora (MG)
Parceria nasceu da atuação da vocalista no Plantio Solidário da Zona da Mata; a obra audiovisual transforma cotidiano da luta pela terra em manifesto punk rock

Por Matheus Teixeira
Da Página do MST
O acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na Zona da Mata mineira se transformou em palco para um manifesto audiovisual que já circula como hino da resistência. A banda punk rock Valla, de Juiz de Fora, lançou o clipe da música “Revolução”, filmado no acampamento Rosa Cabinda. A parceria, que ultrapassa o conceito de mera locação de espaço, nasceu do envolvimento orgânico da vocalista Laiane Araújo com as ações do Plantio Solidário, projeto do MST que une produção agroecológica e solidariedade na região.
Para o projeto, a iniciativa é um marco importante no campo da articulação e luta por terra. “Para o MST, construir arte de qualidade com os diversos setores é muito importante. Quando a música expressa a luta pela Reforma Agrária, seja qual gênero for, é fundamental”, afirma Michele Capuchinho, uma das coordenadoras do Plantio Solidário.
O clipe captura a poética e o cotidiano do acampamento. Crianças descalças correm entre as barracas de lona, enquanto o refrão “Criança de pé no chão, não é fome, miséria, é a revolução!” ecoa como uma reescrita do futuro. O chão de terra batida, tantas vezes associado à privação, é ressignificado como território de possibilidade, solo fértil onde brota, literalmente, a transformação. Laiane explica que a música nasceu desse cenário vivo.


“A música foi criada dentro de um cenário em que a gente tinha iniciado o projeto do Plantio Solidário. Era muito nítido o quanto era importante a participação das crianças dentro de todo aquele processo. Desde então, não tem como a gente pensar nas nossas ações pontuais sem que a gente pensasse nas crianças como agentes de mudança também.”
Laiane não é uma artista visitante. Suas mãos, acostumadas ao violão, conhecem também o peso da enxada e o cheiro da terra revolvida nos mutirões. Essa dupla insurgência, a do corpo que planta e a da voz que canta, confere ao trabalho uma autenticidade rara. As cenas não são ilustrativas, mas colhidas: o trabalho coletivo nos canteiros, a dança depois da jornada, o cuidado com as plantas e com as histórias. Michele destaca que a relação é anterior e estruturante: “Integrantes da banda fazem parte de movimentos que constrói o Plantio Solidário, e essa relação de trabalho, de construção e mobilização popular inspirou esses integrantes desse grupo a produzirem essa música.”
A música se estrutura como um mantra. A repetição do verso-semente “Criança de pé no chão” ganha a força de uma afirmação política. Cada repetição é um novo plantio, uma nova raiz. A letra desenha a geografia ampliada da luta. “No chão do campo, no chão da fábrica”, reconhecendo que a mesma esperança irriga diferentes territórios de resistência.
Mas é na fusão entre trabalho e celebração que o espírito do Movimento encontra sua tradução mais precisa. “Trabalho de base pra fazer… a gente trabalha e também dança”. A canção captura a sabedoria prática que sustenta décadas de luta do MST, na construção de um novo mundo como tarefa diária, feita de suor e paciência, mas também de alegria coletiva. Laiane vê no Plantio Solidário a materialização desse sentimento: “O plantio solidário vem para a gente com aquilo que a gente queria fazer há muito tempo. Ele vem e fala, poxa, vem cá, a gente tem terra, cara. Foi de uma solidariedade, de uma empatia gigante, sabe? E que a gente conseguiu juntar tanto a questão do alimento, mas também encher essas pessoas de conhecimento, de saber que eles têm voz.”
A revolução não será triste, ou não será



Mais do que um produto cultural, o clipe é um registro de afeto e de aliança, ao mostrar a cultura e a Reforma Agrária não como universos paralelos, mas como raízes entrelaçadas do mesmo projeto de emancipação. Para Laiane, essa aliança rompe com a superficialidade: “Esse clipe e essa música representa algo, pra mim, gigante, quando a gente consegue colocar o MST de fato, os camaradas do MST e do plantio como agentes principais ali na produção desse clipe, é algo que ultrapassa esse discurso que muitas vezes pode ser vazio.”
O momento da gravação foi, em si, uma ação coletiva, como lembra Michele: “Foi um momento de um grande mutirão, um momento muito importante, como sempre, que são as ações coletivas de construção que nós fazemos em defesa da alimentação saudável, da Reforma Agrária Popular e da construção de força social para o nosso projeto.”
As crianças que correm em frente às câmeras, com os pés sujos de futuro, são a prova viva onde alguns vêem miséria, o MST e agora a Valla, enxergam a mais pura e concreta forma de revolução, germinando a cada passo, em cada palmo de chão conquistado. E, conforme a cantora, essa é uma forma de reconhecer a força coletiva: “A Valla só fez a música, os agentes principais são os camaradas, a essência é a força coletiva. Esse clipe representa a força materna na criação de uma nova sociedade mais justa e igualitária e através das nossas crianças a possibilidade de um futuro revolucionário”, completa Laiane.
Assista ao clipe “Revolução” em VALLA – Revolução
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*Editado por Solange Engelmann



