Ataque à Venezuela
ARTIGO | Na partilha do mundo, ou você está sentado à mesa, ou é o menu
Lições do ataque militar dos EUA à Venezuela para o Brasil: caso o Brasil não se sente à mesa, com seus vizinhos, seremos o menu do jantar das potências, onde a regra é a força

Por Ana Penido
Do Brasil de Fato
A guerra sempre trouxe uma névoa de desinformação, uma ansiosa busca por respostas e por culpados. Com a revolução das comunicações, essa característica deixou de ser um efeito colateral e tornou-se fundamental taticamente. Por isso, antes de ler o texto, recomendo não perder de vista o que é central e factual: os EUA bombardearam um país vizinho sul-americano, incluindo alvos civis, sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa, a também militante política Cília Flores. O fato terá impactos em toda a América Latina e, em menor medida, no mundo.
Notas de contexto
EUA
Fatores conjunturais: crise doméstica em função das denúncias de pedofilia; eleições de meio de mandato se aproximando; resistência interna a novas incursões militares custosas; constatação interna, mesmo entre republicanos, do fracasso das tentativas de regime changing.
A nova estratégia de segurança nacional é cristalina: retomar o controle absoluto sobre o quintal. Já conseguiram na Argentina, no Chile, em Honduras e na Bolívia. A tríade do mal seriam as próximas peças: Venezuela, Cuba e Nicarágua. Trump e o Maga (Faça a América Grande Novamente, na sigla em inglês) são ofensivos e autoconfiantes. Escolhem ir direto no mais forte, e não o contrário. Por isso, mesmo se a Venezuela cair, vão partir para a Colômbia (embora Petro esteja de saída) e depois para o Brasil. Ainda nessa leitura, Cuba e Nicarágua cairiam de maduro. A Venezuela é o maior problema, pois mantém alianças extra hemisféricas, controla recursos críticos e desenvolveu mecanismos de comercialização sem o dólar.
Mesmo assim, Trump foi testando gradualmente as reações da Venezuela e da comunidade internacional à sua escalada:
1) mudou legislação doméstica sobre grupos narcoterroristas;
2) deslocou enorme destacamento aeronaval para o Caribe;
3) fez exercícios bélicos com a ajuda dos vizinhos caribenhos como a República Dominicana e Trinidad e Tobago.
4) contou com o apoio de potências europeias, com presença no Caribe, como Holanda (Aruba e Curaçao), além do seu próprio território, Porto Rico);
5) bombardeou 36 lanchas no Caribe, com 115 mortos;
6) ofereceu recompensa pela entrega de Maduro e o nomeou líder narcoterrorista;
7) Fechou o espaço aéreo do país.
8) Praticou pirataria com um petroleiro;
9) Bloqueou comércio de petróleo;
10) Bombardeou a fronteira com a Colômbia.
Aproximações sucessivas que geraram internacionalmente, no máximo, notas de repúdio na comunidade internacional, em que se destacam Rússia, China, Colômbia, México e Brasil. Ao mesmo tempo, internamente, nem com o Nobel da Paz a oposição venezuelana conseguiu mobilizar alguma coisa. Pedir um bombardeio é uma coisa. Recebê-lo na cabeça, em um país que não tem tradição de passar sobre isso, é outra. A direita está temporariamente paralisada.
Não esquecer: uma agressão militar é sempre um show room da indústria bélica. Mostrar seus equipamentos em operação é a melhor forma de vendê-los. Foram mais de 150 aeronaves, sistema de inteligência, comunicação, interferência cibernética e eletrônica, e todo tipo de parafernália. Ajuda também a vender uma “forma da força”, nesse caso, a força Delta. Os EUA vinham em baixa após as últimas apresentações de equipamentos chinesas e russas feitas em 2025.
É possível mobilizar retoricamente qualquer justificativa. Os EUA mobilizaram direitos humanos, democracia e combate às drogas. Nenhum se sustenta na prática, pois eles executaram pessoas em alto mar sem julgamento, seguem parceiros de governos autoritários que lhes interessam, não submetem decisões importantes ao próprio congresso, e a circulação de drogas é principalmente pelo Pacífico.
Por outro lado, construir a Venezuela como inimigo no imaginário popular dos EUA é possível por três motivos: ódio a migrantes, necessidade de controle de recursos estratégicos e guerra às drogas, especialmente diante do medo do fentanil. São coisas palpáveis na vida do estadunidense comum. O debate lá é sobre a legalidade das execuções extrajudiciais no Caribe, ou se Trump atropelou, ou não, o Congresso. Ninguém questiona a legitimidade e a necessidade de operar extraterritorialmente para combater o narcotráfico e o terrorismo.

Venezuela
Em plena retomada de crescimento econômico; direita hiper fragmentada; tem terras raras, ouro, Amazônia, localização, para nem falar no petróleo.
Defesa toda reformada depois de 2002, como discuti em longo artigo acadêmico. Basicamente, é um modelo descentralizado em termos de comando e operações, integrado ao povo organizado, cuja experiência mais avançada são as comunas. Por isso, inviabilizar o comando, como no caso do sequestro do presidente, não paralisa as atividades do país. Em momento nenhum a Venezuela viveu um vácuo de poder.
Parte dos equipamentos da Venezuela são russos, chineses e iranianos. Mas sua indústria de defesa é capacitada para manter os armamentos necessários para a guerra popular prolongada (AK-103).
Tem uma organização de serviços de inteligência bem distinta e aberta, diferente da existente na região.
Brasil
Errou não reconhecendo eleições, errou pedindo atas, errou bloqueando a entrada da Venezuela nos Brics, algo puramente formal, já que as alianças da Venezuela com os demais países do Brics são mais fortes que as do Brasil, que ficou isolado como o representante de peso no Ocidente do bloco.
Notas condenatórias desmoralizadas pelos EUA, que se mostram como o país que faz, e não apenas fala. Por outro lado, vencemos a guerra tarifária.
Não logramos êxito na integração regional, e por isso ficamos isolados. Cada vez menores, num duelo de elefantes. Se não assumirmos enfaticamente a liderança regional, pagando os custos domésticos e internacionais no curto prazo, pagaremos de toda maneira no final do ciclo. O Brasil não fez uma aposta no eixo Brics, e nem no eixo sul-americano. A aposta de “autonomia pela diversificação” – retomando os anos 2003 – mostrou-se insuficiente diante dos EUA de Trump.
Mesmo se tivéssemos disposição, não teríamos condição de assumir a posição de intermediadores do ataque, em função dos nossos erros, mas teríamos condição de colocar o debate nas instâncias regionais.
Foi positiva a postura do Itamaraty de reconhecer Delcy como a presidenta interina que responde pela Venezuela.
Seguimos com um ministro que solta um“acho que a fronteira está aberta, estava tudo tranquilo, tão tranquilo que parecia feriado”. O Brasil mantém um efetivo de 2000 homens em Roraima, 200 na fronteira.
Podemos voltar a ter problemas como fluxos migratórios intensos.
Podemos também ser vítimas de ataque para combater o “narcoterrorismo”, o que vem sendo absurdamente solicitado pela direita brasileira que quer transformar o PCC e grupos correlatos em narcotraficantes.

Ataque e reação
O Ataque
O ataque militar à Venezuela era previsível em função da enorme escalada militar no Caribe. Desescalar não é compatível com o comportamento do macho alfa laranja ou com as demandas econômicas, tanto da indústria bélica quanto da petrolífera dos EUA.
Trabalhávamos com 3 cenários:
a) incursão terrestre – pouco provável, pois exige muitos recursos, um grande efetivo, enfrentar a rejeição doméstica nos EUA, com uma opinião pública traumatizada pelo Afeganistão, enfrentar o desenho de defesa venezuelano voltado para a guerra popular prolongada, além de não contarem com países vizinhos da Venezuela que facilitassem o translado por terra, como Brasil e Colômbia (ambos com eleições esse ano).
b) bombardeio massivo – também sairia caro, possivelmente enfrentaria resistência interna (povo ou Senado em ano eleitoral), e não conta com oposição chavista em terra capaz de aproveitar a oportunidade para uma tomada de poder.
c) bombardeios localizados – escolha de um alvo que seria apresentado como coração do cartel, ou de uma figura relevante a ser assassinada, como Padrino, Maduro ou Diosdado, assim como ocorreu com Soleimani no Irã.
O cenário C era o mais provável, até porque não seria a primeira tentativa de assassinato de Maduro.
Ocorreu, portanto, o cenário C, o mais previsível. Nos cenários, cometi dois deslizes:
1. Apostava em bombardeios em áreas na fronteira com a Colômbia, e só. Para o discurso político da vitória machulenta contra o narcoterrorismo, já seria suficiente, e de brinde desestabilizava o vizinho. Mas esse foi apenas o primeiro bombardeio. No último, ele bombardeou áreas civis, em quatro estados do país, simultaneamente. Um poder de fogo mais alto do que o esperado, e altamente simbólico, como o Mausoléu onde Chavez está enterrado, no meio de Caracas. Mesmo os militares que não gostam do Maduro, são chavistas.
2. Apostava num assassinato, e não em um sequestro. Talvez essa seja o principal fator surpresa da operação. Por que o mantiveram vivo?
a) não oferecer mais um mártir ao chavismo.
b) identificação de que a oposição venezuelana não conta com ninguém para ocupar o poder com legitimidade pós uma intervenção estrangeira.
c) mostrar domesticamente que era uma questão de segurança pública, e não de defesa (embora já tivessem assassinado mais de 150 no mar).
d) negociação com China e Rússia.
Um sequestro no Forte Tiuna não é algo simples. Diferente dos comandos militares brasileiros, em áreas mais isoladas, o Forte é a expressão da aliança cívico militar. A circulação por dentro de uma parte grande do Forte não é restrita a militares ou à guarda de equipamentos. Pelo contrário, parte da área disponível foi usada em um grande programa de moradias populares, com dezenas de prédios, nos quais moram centenas de pessoas. Até o parque aquático militar é, em parte, usado por civis, que podem inscrever crianças gratuitamente para aulas de natação. Em suma, não é uma fortaleza no alto de um monte, mas numa das partes mais habitadas da cidade. Não temos informações, mas um bombardeio ali, sem baixas civis numerosas, é impossível. Ao mesmo tempo, é certamente local em que a CIA trabalhou levantando as informações para o sequestro, inclusive por essas características do espaço.
A operação completa durou uma hora e meia, empregou 150 aeronaves, inteligência e recursos cibernéticos. Muitos alvos foram civis, em quatro estados. O ataque cibernético foi suficiente para silenciar os radares, inclusive estrangeiros, fundamentais para as baterias antiaéreas. Os ataques a instalações militares se concentraram no Tiuna e na base aérea de La Carlota (onde se concentram as baterias antiaéreas).
A Venezuela não tem uma estratégia de negação dos mares. Mesmo no ambiente marítimo, o desenho de defesa também é da guerra irregular, com lanchas, e outras embarcações menores. Nesse sentido, levar Maduro e Cília por mar, exatamente o terreno que os EUA controlam desde Mahan, era o caminho esperado. Não havia nenhuma possibilidade de perseguição.
Maduro e Cília foram levados para Nova York, dois dias depois da posse do novo boy magia da esquerda global, o prefeito Mamdani, que condenou o ataque.

A Reação
O sequestro em si é um erro militar, tanto para as Forças Bolivarianas quanto para os seus assessores russos e cubanos. Isso abalou a confiança do povo nas suas forças armadas, o que é um enorme problema para um país com tanta presença militar em áreas estratégicas. O desenho de defesa da Venezuela impede a realização de um golpe militar, pois seria necessária praticamente uma assembleia com indivíduos espalhados por todo o país, diferente do Brasil, com um comando enxuto com 15 generais. Entretanto, é impossível blindar 100% da segurança, que parece ter sido em parte infiltrada ou traída.
Esse erro militar não significa uma derrota militar, pois o desenho da Venezuela não era vencer os EUA em uma guerra aberta com o emprego de armamentos de alta tecnologia, como os Sukoi russos. Eles serviriam para retardar o inimigo e provocar baixas, mas a única hipótese de vitória da Venezuela sobre os EUA militarmente era, e segue sendo, através da guerra popular prolongada. É a única estratégia possível para Estados com recursos tão assimétricos.
A maioria dos equipamentos militares de produção doméstica na Venezuela são para operações descentralizadas e são portáteis. Eles têm também equipamentos russos, chineses e iranianos. Nenhum deles impediria um ataque dos EUA, mas deveria elevar os custos para os EUA, logrando perdas. Sabe-se que as sanções econômicas vinham afetando a modernização e manutenção dos equipamentos militares de alta tecnologia, mas os resultados gerais foram muito ruins. Apenas uma aeronave foi atingida, mas não foi derrubada. Segundo os EUA, nenhum estadunidense morreu. Segundo a FANB, a maioria da guarda pessoal de Maduro morreu. O Gramma, jornal cubano, também reconheceu a morte de 32 cubanos.
Existem poucas informações sobre as baixas que a Venezuela sofreu, civis ou militares. Militarmente, isso se justifica, pois o governo se prepara para novos ataques, anunciados como possibilidade pelo próprio Trump. Além disso, o silêncio sobre as baixas é essencial para manter a moral do povo alta e provocar um cenário como o de 2002, com o povo na rua, trazendo Chávez de volta à presidência. A variável principal da conjuntura atual é: o quanto as massas organizadas ao longo de décadas pelo chavismo irão se mobilizar.
É disso que depende o futuro da revolução bolivariana. O problema é que, diferente de 2002, o povo não tem como reivindicar da ocupante de Miraflores que devolva o presidente, pois não foi ela quem o tirou de lá. As manifestações são importantes para mostrar a força do chavismo.
O chavismo manteve o governo. A vice-presidenta, Delcy, responde pelo governo e coordena uma campanha para que Maduro e Cília sejam devolvidos à Venezuela. Diferentes ministérios, inclusive os militares, estimulam o povo para que retome suas atividades profissionais e leve a vida com a maior normalidade possível. Não houve golpe de Estado ou divisão entre os militares. Delcy chama os EUA ao diálogo, como Maduro já fazia, e responsabiliza a ONU. A Venezuela não tem nenhuma capacidade de um enfrentamento bélico convencional contra os EUA. O diálogo é a única possibilidade.
A situação da direita venezuelana é tão ruim que Trump sequer tem com quem negociar. Trump descartou inclusive a Nobel da Paz, Corina. Mesmo com os bombardeios, apenas o chavismo foi às ruas, massivamente. Por isso, Trump precisa conversar com setores do chavismo, e analistas de direita se debatem tentando encontrar quem dentre o triunvirato – Delcy, Padrino e Diosdado – seria mais pró-americano, beirando o ridículo. É provável que existam diferenças internas, mas todas as negociações parecem indicar a continuidade do chavismo e da revolução bolivariana, com ou sem Maduro. O próprio sistema político venezuelano – uma democracia participativa constitucional – confunde os analistas. Delcy não foi eleita, mas indicada por Maduro, e dividiu as decisões executivas com Padrino e Diosdado.
Comunidade Internacional
Não interessa à Rússia um acordo com os EUA, do tipo você fica com a Venezuela que eu fico com a Ucrânia. Militarmente, a Rússia já ganhou. Um acordo político é questão de tempo. Hoje, Zelensky é um problema para Trump, e não para Putin. Na nova doutrina de segurança nacional dos EUA, a Europa será irrelevante em 10 anos. Entretanto, daí a mandar russos para uma guerra em solo vai uma enorme distância.
A China já deixou claro que sua prioridade é o seu entorno regional. Não entraria em um conflito bélico nem por países mais próximos, como o Irã, quanto mais por um distante, como a Venezuela. Vem demonstrando poder bélico crescente em desfiles e exercícios, mas sempre próximos às fronteiras.
Europa e outros países cobraram respeito ao direito internacional, mas sem confrontar os EUA. Poucos países criticaram abertamente os EUA. Poucos bateram palmas efusivamente, como foi o caso do Macron. Em geral, predomina a posição do Papa entre os Estados que seguem “acompanhando tudo com o coração preocupado”.
A ONU enquanto Assembleia Geral inexiste desde o início do genocídio palestino. China e Rússia não assumiram protagonismo global, e sim de seus polos regionais. Num vácuo de poder global, o que decide é a força.
Os organismos regionais da América Latina estão super fragilizados. Na reunião da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) não houve consenso. Uma estrutura como o Conselho de Defesa Sul Americano faz uma enorme falta como mediador dos problemas regionais, além de funcionar como mecanismo dissuasório.
Novidades
A direita é raiz e franca. Trump fala, e escreve, uma nova doutrina clara: a América Latina é dos norte-americanos, um quintal. ‘Fora chineses! Imporemos a paz pela força. Nosso interesse são as reservas de recursos. Se necessário, nós mesmos ocuparemos o território e governaremos. A Venezuela é a primeira vítima militar, e não será a única. Outros se aliaram a nós, como a Argentina e El Salvador, e têm ganhado com isso. Quem não ceder, sofrerá.’
Análises apontavam que Trump veio para fazer mudanças, inclusive no deep state, em função da nova conjuntura global. Os pronunciamentos e documentos dos últimos seis meses, e agora a ação na Venezuela, colocam essa dinâmica em questão. Talvez o deep state já tivesse identificado as mudanças de condução necessárias, e Trump foi apenas o escolhido para isso. Com isso, mesmo com o fim do governo Trump, a doutrina permanecerá. É algo a se aprofundar.
Falamos muito em América Latina, mas os EUA sempre tiveram estratégias diferentes para lidar com a América Central e a América do Sul. Foi a primeira vez que um país da América do Sul sofreu uma intervenção militar direta.
Os EUA apresentaram a operação como uma incursão sob responsabilidade do Departamento de Justiça para capturar dois acusados por narcoterrorismo. O Departamento de Guerra teria atuado como auxílio operacional. Esse argumento garante maior apoio doméstico popular, evita problemas com o Senado, e confunde o direito internacional. O povo estadunidense é contra novas guerras, mas é a favor do enfrentamento ao crime organizado.
Misturar as coisas é bom para os EUA, como a experiência do Bukele, em El Salvador, é exemplo. As empresas estadunidenses não ganharão depois da guerra realizada pelo Estado, com a reconstrução do que foi destruído ou com a compra do patrimônio e recursos locais. Elas entraram antes! Se comprometeram a financiar a reconstrução da infraestrutura petroleira e, depois, seriam reembolsadas. Bom caso a estudar para pensar como a relação empresas privadas-Estado vem mudando nos EUA. Espólio de guerra garantido pré-guerra.
Venezuela é o único país em que um presidente sofreu um golpe militar e o derrotou. Agora parece atravessar o sequestro de um presidente sem deixar vácuos de poder.
Cuidado!
Com as comparações com a invasão do Panamá, em 1989, tende-se a projetar para a Venezuela o mesmo fim que o Panamá teve: locus para a lavagem de dinheiro, triangulação de drogas e entreposto de cargas, além de ligação da costa Leste com a Oeste dos EUA. A Venezuela não é o Panamá, e o jogo ainda está sendo jogado.
O Panamá era um país com um exército e milícias muito menores, mais fracos e menos armados, tecnologicamente dependentes do agressor e menos integrados. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas são um corpo profissionalizado, parcialmente armado por grandes potências militares, que manteve uma unidade quase inabalável ao longo de mais de 20 anos de tentativas de fragmentar a unidade de comando e promover um golpe interno, isso sem considerar as milícias, base mais ativa do chavismo.
Atenção aos termos – a guerra sempre foi primeiro de narrativas: bombardeios localizados, e não bombardeios cirúrgicos; sequestro, e não captura ou extração; bombardeio e intervenção militar, e não ação para a prisão de fugitivos do sistema de justiça; existe crime organizado, e não narcoterrorismo. O principal: os EUA adotaram ações de guerra. Não é retórica.
Rússia e China também não têm se mostrado aliados confiáveis. Poderiam ser mais ousados na defesa de parceiros leais, não têm capacidade de atuação extrarregional para além de apoio logístico. O fato é que o único país com capacidade de força global são os EUA, e a única forma de derrotá-los militarmente é provocando 1, 2, 1000 Vietnãs. A lição dos últimos dias para o Brasil é, na partilha do mundo, ou você está sentado à mesa, ou é o menu.
Sínteses
| Venezuela | EUA | |
| Objetivo militar | Guerra de todo o povo | Sequestrar Maduro |
| Objetivo econômico | Retomar crescimento mesmo com sanções | Controlar comércio do petróleo e outros recursos estratégicos. |
| Objetivo político | Manter a revolução bolivariana | Decapitar o chavismo |
| Objetivo comunicacional | A agressão é porque somos donos do nosso petróleo | Estamos capturando narcoterroristas |
Encontramos mescladas na realidade táticas do século 19, como a pirataria e os bloqueios navais; do início do século 20, com intervenções militares diretas; de meados do século 20, com contra-insurgência e golpes de Estado; e contemporâneas, como o crime organizado, sanções econômicas e retórica antidrogas. Essa é a guerra contemporânea.
O chavismo se manteve no governo, o que manterá a escalada de violência dos EUA pra Venezuela, retórica e bélica. O discurso da Venezuela será o contrário, buscando a paz, a negociação e a arena internacional, assim como Maduro já fazia. Na guerra assimétrica, a parte mais fraca precisa evitar ao máximo o confronto direto. Por enquanto, as reações do mundo são tímidas.
Há alguns anos, tem-se falado em uma transição para um cenário de multipolaridade e da crise de hegemonia dos EUA. O recurso à violência aberta é expressão da fragilidade de poder, insustentável a largo prazo. O ataque à Venezuela pode significar o fim desse período de transição. Caso o Brasil não se sente à mesa, reivindicando junto aos seus vizinhos a possibilidade de autonomia para um polo sul-americano, seremos o menu servido no jantar das potências, onde a regra é a força.
*Ana Penido é professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID – UFRJ) e pesquisadora do GEDES e do Instituto Tricontinental.
Editado por: Luís Indriunas/ Brasil de Fato



