Educação do Campo
Decisão municipal de fechar escolas do campo gera indignação e resistência em Bossoroca (RS)
O decreto, anunciado neste mês de janeiro, também prevê o encerramento das atividades do Ensino Médio na Escola Guiomar Medeiros, que atende jovens de assentamento e comunidades vizinhas

Por Katia Marko
Da Página do MST
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e as famílias do assentamento Primavera, localizado no município de Bossoroca, Rio Grande do Sul, manifestaram publicamente seu repúdio à decisão da gestão municipal de fechar a Escola do Campo Paulo Freire. As famílias estiveram na prefeitura para solicitar diretamente ao prefeito a revogação da decisão.
O decreto, anunciado em janeiro de 2026, também prevê o encerramento das atividades do Ensino Médio na Escola Guiomar Medeiros, que atende jovens do assentamento e comunidades vizinhas.
Impactos no desenvolvimento e logística
A Escola Paulo Freire atende cerca de 20 crianças do ensino fundamental, oferecendo uma educação voltada às especificidades da vida no campo e à vivência nos territórios. Com o fechamento, os alunos enfrentarão longos deslocamentos e insegurança no transporte escolar, além de serem afastados de seu espaço de cultura e identidade.
No caso do Ensino Médio, a situação é ainda mais complexa: os estudantes do assentamento deverão ser transferidos para a cidade de Santo Antônio das Missões. Segundo as famílias assentadas, esse processo aprofunda a negligência com o direito à educação da juventude camponesa e estimula o êxodo rural.

Um espaço de memória e identidade
Para além dos números, o fechamento da escola no assentamento representa uma ruptura emocional e pedagógica. Walquíria Miranda, psicopedagoga e ex-diretora que atuou por nove anos na Escola Paulo Freire, descreve a instituição como um espaço de pertencimento e proteção para as crianças.
Segundo ela, a Escola do Campo é parte da identidade dos territórios do MST e o encerramento das atividades silencia uma prática educativa que apresentava resultados positivos. “A escola não se resume s paredes, mas às relações construídas dentro dela. Fechar a Paulo Freire é romper processos e interromper histórias”, afirmou a educadora.
Mobilização e direitos
O MST, através do seu setor de Educação reafirma que o fechamento dessas unidades fere princípios constitucionais e as diretrizes da Educação do Campo. O Movimento defende que o Estado tem o dever de garantir o ensino nos territórios onde as pessoas vivem e trabalham.


“Educação do campo é direito, é dignidade e é condição fundamental para a permanência das famílias no campo, nas águas e nas florestas, fortalecendo a construção de um projeto popular de educação”, afirma Clarisse Teles, coordenadora do setor de Educação.
A comunidade está mobilizada para tentar reverter a situação antes do início das aulas, lutando pela manutenção de um ensino que garanta dignidade e a permanência das famílias no campo.
Confira abaixo a íntegra do relato da educadora da escola Walquíria Miranda:
“Escola Paulo Freire: Memória, vivência e compromisso com a Educação do Campo
Escrevo este relato com o coração apertado, mas também com a consciência tranquila de quem entregou o melhor de si. Sou psicopedagoga e trabalhei por nove anos na Escola Paulo Freire, uma Escola do Campo, construída e mantida com muito amor, cuidado, zelo, dedicação e responsabilidade.
Foram nove anos de presença diária, de escuta atenta às crianças, às famílias e aos educadores/as. Nove anos de envolvimento profundo com cada processo de aprendizagem, respeitando os tempos, as histórias e as realidades dos sujeitos do campo. Como psicopedagoga, sempre compreendi que aprender vai muito além do conteúdo: envolve afeto, segurança, vínculo e pertencimento — e isso sempre esteve presente na Escola Paulo Freire.
A cada ano encerrado, eu sentia aquela alegria profunda, uma sensação de alma lavada, por saber que havia dado o meu melhor. Não apenas cumpri uma função profissional, mas vivi a escola. Investi tempo, energia emocional e, muitas vezes, recursos próprios para que a escola seguisse funcionando com dignidade. Tudo isso porque acreditava – e continuo acreditando – na educação como ferramenta de transformação social.
A Escola Paulo Freire sempre foi um espaço acolhedor. Uma escola viva, com uma comunidade presente, famílias incríveis, crianças protegidas e respeitadas em sua singularidade. Era um lugar onde as crianças se sentiam seguras para aprender, errar, tentar novamente e crescer. Onde as famílias confiavam, participavam e caminhavam junto com a escola.
Por isso, o possível fechamento da Escola Paulo Freire gera em mim um sentimento profundo de luto. Luto por uma história construída com tanto esforço coletivo. Luto pelas crianças que perdem um espaço de pertencimento. Luto pelas famílias que perdem uma escola próxima, humana e comprometida com sua realidade. A Escola do Campo não é apenas um serviço público: ela é parte da identidade do território.
Enquanto psicopedagoga, sei o quanto a ruptura de vínculos escolares pode impactar o desenvolvimento emocional e pedagógico das crianças. A escola não se resume a paredes, mas às relações construídas dentro dela. Fechar uma escola como a Paulo Freire é romper processos, interromper histórias e silenciar uma prática educativa que dava certo.
Este relato é um registro de memória, de verdade e de compromisso com a educação do campo. Peço que o setor de Educação do MST acolha estas palavras não apenas como um documento, mas como o testemunho de quem viveu intensamente essa escola e acredita que sua existência fez – e ainda faz – a diferença na vida das crianças e da comunidade.
A Escola Paulo Freire foi, é e sempre será um espaço de resistência, cuidado e esperança.
Com respeito e profunda emoção,”
Walquíria Miranda, psicopedagoga, ex-diretora da escola.
*Editado por Solange Engelmann



