Mulheres venezuelanas
Protagonistas de um processo revolucionário
Protagonismo das mulheres se faz presente neste momento histórico, de lutas massivas em Caracas, reivindicando a libertação de Cília Flores e Nicolás Maduro. Confira na coluna Aromas de Março deste mês!

Por Rosana Fernandes*
Da Página do MST
Lucharemos por nuestros derechos y por los de nuestra Patria,
Porque el problema de la igualdad de la mujer es el problema
De la liberación de los pueblos.“
(Argelia Laya, 1926-1997)
Compartilhamos elementos de uma missão internacionalista, como testemunhas das vivências na bella Venezuela. Uma beleza extraordinária que espanta os olhos, arrepia a pele e faz pulsar mais forte o coração. O encanto pelas e através das simbologias, com as cores vibrantes, as luzes florescentes que resplandecem a grandiosidade de uma Revolução pulsante, contagiante e de base popular. O povo está presente! O povo escolheu o Presidente! O povo constrói o poder, desde sua participação efetiva! É um povo que conhece a sua história e defende os seus lutadores e lutadoras!
Toda essa boniteza, como diria Paulo Freire, é resultado de uma luta complexa e contínua luta, no enfrentamento de crises marcadas por profundas transformações políticas, econômicas e culturais.
Ressaltamos que no processo revolucionário, a luta de classes se acirrou nestes últimos anos, especialmente a partir da última eleição presidencial em 2024, desencadeando ações do imperialismo estadunidense contra o povo venezuelano, através da força militar com a presença no mar do Caribe desde o mês de agosto de 2025.
No terceiro dia do ano que apenas inicia, a ganância imperialista atuou de maneira truculenta, vil e desumana contra o território venezuelano e seu povo. O ataque com bombas, helicópteros, instrumentos cibernéticos foram aterrorizantes na madrugada do dia 03 de janeiro, deixando dezenas de pessoas mortas, entre militares e civis, além de muitas infraestruturas destruídas, deixando temporariamente a grande capital Caracas no breu. Sequestraram o Presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, deputada e primeira combatente.
Contexto histórico
A Revolução Bolivariana fortalecida com a ascensão de Hugo Chávez em 1999, buscava implementar o Socialismo, democrático, sustentado pelo povo, para a redistribuição de riquezas e construção da soberania nacional. As ideias de Simón Bolívar, líder revolucionário do século XIX, que lutou pela independência da América Latina do domínio colonial, são inspirações centrais para as mudanças estruturais.
O governo, sob a liderança de Nicolás Maduro, sucessor de Chávez após sua ausência física em 2013, buscou fortalecer o processo revolucionário, em seu terceiro mandato, reafirmando os legados de Bolívar e Chávez. Assim, no último dia 10 de janeiro, ecou o “Yo juro con Maduro” (eu juro com Maduro), marcado por celebrações populares, incluindo manifestações de apoio e festividades organizadas por seus aliados políticos. O evento reuniu multidões que expressaram sua lealdade ao governo e suas políticas. Foi expressiva também a presença internacional, especialmente de lideranças populares e partidos de esquerda, como testemunho de mais um momento histórico que deve ser defendido e fortalecido permanentemente.
O ano de 2025 finalizou com o povo resistindo, ao mesmo tempo que realizaram eleições municipais, para governadores, deputados, bem como a realização de quatro Consultas Populares, nas quais a participação popular foi expressiva.
Não há dúvidas de que a democracia é real na Venezuela, manifestada pelas Consultas Populares. Apesar das críticas que o Governo Maduro tem enfrentado de seus opositores, da grande mídia e de pessoas que desconhecem a realidade venezuelana, o governo e o povo caminham alinhados em defesa do projeto de um país soberano. Um governo que diante das sanções econômicas e da guerra psicológica impostas pelos Estados Unidos não mede esforços para efetivar o Plano Vuelta a la Patria, uma missão que possibilitou, somente em 2025, o retorno de mais de 2 mil e 500 venezuelanos ao país.
O petróleo é a base da economia do país, possibilitando negociar e elevar o poder aquisitivo da população. Essa é a “droga” que o imperialismo quis combater, e já escancarou ao mundo o seu verdadeiro interesse, ou seja, é uma das principais riquezas do povo que está na mira dos interesses gananciosos do império estadunidense.
A situação agrária também é complexa, marcada por Reformas Agrárias e políticas agrícolas que têm sido implementadas historicamente na luta pela libertação da terra e do território. Desde Hugo Chávez, os governos venezuelanos adotaram, uma abordagem de expropriação de terras e apoio à agricultura comunal, através das experiências de conucos, uma espécie de agrofloresta que conhecemos. A política agrícola tem enfrentado desafios, como a falta de insumos, a degradação das terras e as dificuldades econômicas para investimentos, sendo constante a preocupação com a soberania alimentar. Nos últimos anos é visível o crescente avanço, alcançando pelo menos 90% de produção própria para o mercado interno, inclusive entrando no mercado de exportação de cacau e café.
Já as comunas são territórios livres, sob a coordenação do povo, impulsionando o poder popular. É uma forma de organização social e política que surgiu como sustentáculo da revolução bolivariana. Elas têm como objetivo promover a autogestão, a participação popular e a construção de uma sociedade socialista. São agrupamentos de comunidades que se organizam em torno de interesses comuns e objetivos coletivos. Elas podem abranger várias comunidades e são compostas por conselhos comunais, que compõem as unidades de base de organização.
As Comunas são vistas como uma forma de exercício do poder popular. Isso significa que os membros de uma comuna têm a capacidade de tomar decisões sobre questões que afetam suas vidas, desde a economia local até a educação, a cultura e a segurança, entre outras. Essa forma de organização buscam desenvolver economias sustentáveis, utilizando recursos locais e promovendo a produção comunitária. Isso pode incluir cooperativas agrícolas, fábricas comunitárias e outras iniciativas que visam fortalecer a autonomia econômica.
Protagonismo das venezuelanas nas comunas
No processo de organização das comunas e fortalecimento do poder popular, as mulheres são protagonistas essenciais. No exercício do Feminismo Comunal ou Popular, como algumas organizações populares denominam, o papel das mulheres está na voceria, representações femininas como a voz de uma Comuna ou de um Conselho Comunal. A atuação acontece desde os territórios, em defesa da saúde integral, educação, segurança, economia, enfim de vida digna para todas as famílias.
O protagonismo das mulheres venezuelanas se apresenta neste momento histórico, de lutas massivas nas ruas de Caracas, reivindicando a libertação de Cília Flores e Nicolás Maduro. Essa reivindicação se amplia ao colocar em debate o papel das mulheres na política e o desrespeito aos direitos humanos, pelas contradições internas em um país que se encontra em processo revolucionário, bem como em relação ao imperialismo impulsionador das desigualdades, em diferentes camadas sociais e no reforço do patriarcado.
Não é demais dizer, o que alguns meios de comunicação e redes sociais já têm apresentados, de quem é a primeira combatente e deputada Cília Flores e o que representa no processo revolucionário bolivariano, desde Hugo Chávez até este momento no qual sua liberdade se encontra cerceada.
Exemplos de lutadoras como Cília Flores fortalecem as lutas e resistências de mulheres anônimas que constroem o cotidiano da revolução: aquelas que estão plantando os conucos, alimentando a família, construindo moradias populares, educando as crianças, orientando e coordenando atividades políticas e econômicas locais. São mulheres jovens e adultas, que com suas práticas estão formando novas gerações de lutadoras com consciência revolucionária.
Os problemas enfrentados pelas mulheres são inúmeros, para superá-los coloca-se em prática alguns processos de formação política, que relacionam a prática e teoria, reafirmando a necessidade de alterar métodos e metodologias de trabalho de base, capacidade de análise da realidade e projeção de ações concretas na luta por direitos específicos das mulheres, como o combate às violências e reprodução sexual.
A experiência de 20 anos da Brigada Internacionalista do MST: Apolonio de Carvalho (BIAC), na qual dezenas de militantes já vivenciaram ou estão vivenciando o cotidiano nos territórios comunais, possibilita afirmar que a democracia é real, e que o processo revolucionário tem sua base consolidada; e que, portanto, o povo que aderiu ao projeto de transformação da sociedade assume no dia a dia o desafio de seguir construindo a soberania alimentar, a educação libertadora, a saúde preventiva, enfim uma sociedade emancipada. A missão da BIAC envolve intercâmbios de experiências, capacitação em práticas agroecológicas e a promoção de uma agricultura voltada para a autonomia e a solidariedade, que priorize as necessidades das comunidades em vez dos interesses do capital ou imperialistas.
Afirmamos que as heranças indígenas e africanas, suas músicas e suas danças, a ancestralidade e a alimentação são referências de identidade de um povo que se mantêm em resistência histórica. É um povo feliz! E reafirmamos o compromisso de seguir junto ao povo, com jovens, mulheres e homens, sujeitos LGBTQIA+, construindo uma sociedade com igualdade, respeito, justiça e paz.
O legado de Ezequiel Zamora nos orienta a tornar as terras e os seres humanos livres. Que o legados de mulheres lutadoras como Argélia Laya, Manuela Sáenz, Haydée Santamaria, Célia Sánchez, María Lionza e Apacuana sigam inspirando as lutas transformadoras.
Venceremos!!
*Coordenadora da Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho na Venezuela.
**Editado por Solange Engelmann



