Internacionalismo

Sementes da Solidariedade, Frutos da Luta: Os militantes médicos e médicas da Turma Egídio Brunetto.

Não é um simples relato de formatura. É um informe de luta, um testemunho de resistência e um compromisso coletivo

Acervo pessoal da turma de medicina

Da página do MST

Por Os militantes médicos e médicas da Turma Egídio Brunetto

Este não é um simples relato de formatura. É um informe de luta, um testemunho de resistência e um compromisso coletivo. Nós somos os médicos e médicas brasileiros da Turma Egídio Brunetto, graduados em Medicina Integral Comunitária na Venezuela. Nos últimos seis anos, não apenas estudamos; fomos moldados pelo calor de uma Revolução sob ataque permanente. Nossa formação é marcada pelo suor do povo que nos acolheu, pelas perdas que enfrentamos e a firmeza do compromisso que assumimos. Voltamos para nossos territórios como militantes, armados de conhecimento, consciência de classe e a certeza de que a solidariedade é a mais poderosa arma contra o imperialismo.

Nossa jornada começou nas organizações sociais do Brasil. Em 2019, chegamos à Venezuela, enviados pelas mãos dos movimentos sociais. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Movimento de Saúde Mental Comunitária (MSMC), Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)– cada um de nós foi definido por um processo político, tecido nas bases, que buscou os filhos e filhas da classe trabalhadora. Passamos pela Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), nossa retaguarda formativa, onde consolidamos o espírito coletivo e estudamos a história da luta de classes. Compreendemos que ir para a Venezuela era integrar-se a uma frente internacional de luta pela soberania, ingressando no projeto da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), uma iniciativa nascida da solidariedade cubana e estendida como braço da cooperação internacionalista da Revolução Bolivariana.

Chegamos em setembro a um país que, mesmo asfixiado por um grave bloqueio, mantinha as portas da universidade abertas para os povos do mundo. A Venezuela, sob a liderança do Presidente Nicolás Maduro, resistia heroicamente a uma guerra híbrida sem precedentes, marcada pelo bloqueioeconômico criminoso, sabotagem e guerra midiática. Nos instalamos naprimeira sede da ELAM, em Filas de Mariche, estado Miranda. Durante este período tivemos grandes desafios, estar longe de casa, aprender um novo idioma, vivenciar uma nova cultura, ao mesmo tempo em que, junto ao povo venezuelano fomos aprendendo a resistir, inventar, compartilhar, organizar e jamais perder a dignidade.

A pandemia de COVID-19 em 2020 foi um dos grandes desafios enfrentados. Enquanto uma parte do mundo monopolizava vacinas, vimos no Brasil, sob o governo de Bolsonaro, a desassistência e suas consequências. Perdemos pessoas queridas, diariamente recebemos notícias de milhares de mortos em nosso país e no mundo. Nesse momento, a Venezuela demonstrou, desde os primeiros casos, que a promoção e prevenção em saúde foram peças chaves na redução de mortes. No território venezuelano, vimos o poder popular organizado em ação, as Brigadas Comunitárias de Saúde, formadas por milhares de voluntários, para além dos profissionais da saúde na linha de frente, trabalhando diariamente para a saúde do povo. O País exerceu a sua solidariedade até mesmo nos momentos mais críticos; o envio de oxigênio ao Brasil revelou, em tempo de crise aguda, o compromisso firme da nação com o apoio humanitário. 

Para nós estudantes que escolhemos estudar medicina na Venezuela, reafirmar nossos ideais, também era fundamental, nesse sentido, após várias discussões, decidimos o nome da turma: Egídio Brunetto. Esse não foi um ato apenas simbólico, mas um compromisso ativo com o legado do militante internacionalista que pregava “globalizar a luta e a esperança”, ao mesmo tempo em que semeava a agroecologia como um princípio da saúde popular. Originários de uma luta que entende a saúde como direito universal, nos sentimos representados por Egídio. Vimos na formação médica oferecida pela Revolução Bolivariana a materialização do internacionalismo que ele praticava. Longe de casa, encaramos a medicina como uma ferramenta de transformação social. Assim, carregar o nome de Egídio Brunetto é um lembrete diário de que seu conhecimento deve estar a serviço da luta pela justiça social, honrando a memória daquele que via na união global dos trabalhadores a verdadeira estratégia para mudar o mundo.

Aprendemos na prática que, na Venezuela, o médico é um ser político, e deve ser em todo o mundo. O consultório não é apenas um lugar para consulta, é um espaço de organização e escuta. Nossos professores cubanos e venezuelanos, nos ensinavam a técnica, mas sempre amarrada a uma pergunta: “Como este conhecimento serve ao povo?” A Medicina Integral Comunitária tornou-se concreta ao entender o processo saúde-enfermidade de forma integral, considerando cada indivíduo como um ser biopsicossocial. Compreendendo que a hipertensão de um paciente estava também ligada ao estresse de não conseguir alimento e até mesmo medicamentos, por causa do bloqueio. Era tratar a criança com diarreia e ao mesmo tempo, ajudar a comunidade a organizar um filtro de água.

Nossa formação foi profundamente enriquecida pela convivência diária com companheiros de outras quatro nacionalidades: Palestina, Haiti, Zâmbia eGana. Compartilhamos a dor e a resistência dos palestinos, a história de luta dos haitianos, a força ancestral do povo africano. Essa convivência constante, forjada em mobilizações, espaços de estudo e celebrações, solidificou nossos laços. Foi assim que juntos entendemos que a batalha pela saúde, em sua essência, não conhece fronteiras geográficas, pois é um direito humano fundamental.

Em 2023, mudamos para a sede de San Antonio de Los Altos Mirandinos.Paralelamente, testemunhamos o crescimento audacioso do projeto ELAM Venezuela: a inauguração de uma sede em Caracas, erguida contra todas as probabilidades, ampliando os sonhos de Chávez. Nesse ano, a formação se aprofundou nos hospitais de grande complexidade. ​A vivência nos hospitais venezuelanos representou um pilar fundamental da nossa formação, permitindo que a teoria se materializasse na prática por meio do contato direto e cotidiano com o povo. Fomos recebidos com um acolhimento generoso, o que transformou o cuidado em uma via de mão dupla, enquanto aplicávamos nossos conhecimentos, éramos ensinados pela resiliência e gratidão dos pacientes. Mesmo diante dos desafios impostos pelo bloqueio econômico, que gera uma escassez severa de insumos básicos, testemunhamos uma medicina de resistência que prioriza a humanização. Nossa missão foi tentar retribuir esse afeto através de uma assistência dedicada, compreendendo que o ato de cuidar, em um contexto de cerco financeiro, é também um profundo ato de solidariedade e compromisso político.

Durante o recesso acadêmico, ao longo desses 6 anos, a Turma Egídio Brunetto realizou uma imersão solidária em diversas comunas na Venezuela, vivenciando na prática o poder da organização popular. Contribuímosativamente em frentes essenciais, atuando tanto na área da saúde quanto no trabalho direto no campo, fortalecendo os laços de cooperação e troca de saberes. Mais do que uma brigada de trabalho, a experiência permitiu um mergulho profundo no projeto de democracia participativa idealizado pelo Presidente Hugo Chávez e que hoje ganha continuidade sob a gestão de Nicolás Maduro. Ao conhecer de perto essa realidade, vimos a resistência e a criatividade do povo venezuelano na construção de uma alternativa social que prioriza a vida e a soberania comunitária.

Agora, na reta final de nossa formação, o imperialismo mostrou novamente sua face mais brutal. Nos primeiros dias de 2026, a Venezuela sofreu uma nova e covarde escalada de ataques, com bombardeios contra instalações civis e militares e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente, Cilia Flores. Nós, estudantes internacionais, estávamos lá, vimose sentimos as bombas, mas também a força imponente do povo organizado. Após os ataques as ruas se encheram de milhares. O povo chavista saiu para cercar os palácios do governo não para derrubá-lo, mas para protegê-lo. Vimos as milícias populares, homens e mulheres trabalhadores, guardando os bairros. Era a democracia protagonista em seu estado mais puro. Marchamos juntos em defesa da soberania. 

Nossa formatura ocorreu em 23 de dezembro de 2025, dias antes desses graves ataques. Recebemos nosso título de Médicos e Médicas Integrais Comunitários das mãos de um povo em luta. Carregamos a dor dos companheiros que não conseguiram chegar ao final e a angústia das perdas de familiares à distância; Mas, também o orgulho de haver concluído essa etapa, com a certeza de que o conhecimento adquirido, ninguém há de nos tirar. Este título é pesado pelo sacrifício, pelo apoio coletivo e pela esperança que representa.

Neste momento, nosso desafio é o retorno ao Brasil. Sabemos que nos espera a batalha do Revalida, uma barreira burocrática que enfrentaremos com disciplina. Estamos organizando coletivos de estudo e articulando apoio. Não voltaremos para um “mercado de saúde”. Voltaremos para fortalecer a trincheira do SUS. Nosso destino são as áreas onde a burguesia não pisa: os assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária, as periferias, as comunidades ribeirinhas, quilombolas e terras indígenas. Levaremos a ciência, sempre unida ao humanismo revolucionário e à prática comunitária.

A turma que retorna ao Brasil não é a mesma que partiu em 2019. Retornamos forjados na resistência venezuelana, carregando no coração o amor de um povo que não se curva. Que nosso exemplo mostre que a educação popular é possível. Hoje reafirmamos que a solidariedade é, de fato, a ternura dos povos — e é essa ternura coletiva e obstinada que agora guiará nossas mãos a serviço da saúde como direito universal.

¡Viva a Turma Egídio Brunetto!

¡Viva a Revolução Bolivariana!

¡Viva o MST e a Luta dos Povos!

¡Hasta la Victoria Siempre!

*editado por Priscila Ramos