XIV Encontro Nacional
Capital “verde”, neocolonialismo e devastação: quando a falsa transição energética expulsa o povo do campo
Debate no 14º Encontro Nacional do MST denuncia impactos socioambientais da expansão das energias renováveis sob a lógica do capital

Por Gabrielly Preato
Da Página do MST
Durante o 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o debate sobre o avanço do capital na agricultura e seus impactos ambientais evidenciou uma contradição central do nosso tempo: sob o discurso da sustentabilidade e da transição energética, o capitalismo aprofunda a exploração dos territórios, destrói a natureza e expulsa povos do campo, das águas e das florestas.
A mesa foi composta por Yamila Goldfarb, da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA), Moema Hofstaetter, do Movimento dos Atingidos/as por Energias Renováveis (MAR), e Renata Menezes, do MST. As exposições destacaram que a chamada “economia verde” tem operado como uma nova fronteira de acumulação, reproduzindo lógicas históricas de espoliação e neocolonialismo.
A expansão acelerada de empreendimentos de energia eólica e solar no Brasil — especialmente no Nordeste — tem sido apresentada como símbolo de modernidade e resposta à crise climática. No entanto, a realidade vivida por comunidades camponesas, indígenas, quilombolas, pescadoras e assentadas revela outra face desse modelo: um processo marcado por violência, espoliação, exclusão territorial e neocolonialismo energético.

Empresas majoritariamente estrangeiras chegam aos territórios orientadas apenas pelo chamado “mapa de efetividade do vento e do sol”, tratando regiões inteiras como se fossem vazias. Ignoram populações que vivem, produzem alimentos e cuidam da natureza há gerações. Sem uma regulação pública efetiva, o Brasil permite o avanço desses empreendimentos sobre terras produtivas, bens comuns da natureza e modos de vida camponeses.
“A crise ambiental não é um fenômeno natural; é consequência de um projeto de expansão de um capitalismo predatório”, afirmou Yamila Goldfarb. Segundo ela, as soluções apresentadas pelo mercado não enfrentam as causas estruturais da crise climática, mas apenas reorganizam os mecanismos de acumulação.
Esse modelo não altera o padrão de produção e consumo responsável pela crise climática. Ao contrário, reorganiza o capital e cria novos vetores de acumulação. “Não se trata de uma transição energética, mas de uma grande transação”, apontaram as debatedoras, na qual territórios vivos são transformados em plataformas de investimento.
Os impactos socioambientais são profundos: desmatamento da Caatinga — bioma estratégico no sequestro de carbono —, explosões, poeira, ruído constante, adoecimento das populações e insegurança alimentar e hídrica. Estudos já indicam aumento de casos de insônia, uso de medicamentos controlados e outros problemas de saúde associados à instalação de parques eólicos próximos às comunidades.
Além disso, a implantação dessas tecnologias exige grandes volumes de água e minerais, intensificando conflitos em regiões já marcadas pela escassez hídrica. No semiárido, lagoas e poços artesianos estão secando para atender às demandas das empresas, enquanto falta água para a produção de alimentos e para o consumo humano.

A chamada “segunda onda” da transição energética — que inclui o hidrogênio verde, data centers e a exploração das chamadas terras raras — tende a aprofundar esse modelo predatório. Mais uma vez, o Brasil é empurrado para o papel histórico de exportador de bens primários, sacrificando territórios e populações para atender às exigências do mercado internacional.
Esse processo está diretamente articulado ao avanço do capital na agricultura. O agronegócio, responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa no país, segue como modelo hegemônico, enquanto a reforma agrária, a agroecologia e a produção de alimentos saudáveis são sistematicamente atacadas ou invisibilizadas.
Para o MST, não há solução real para a crise ambiental sem enfrentar a crise estrutural do capitalismo. A mercantilização da natureza, travestida de “economia verde”, não protege a vida nem o planeta. Pelo contrário, amplia desigualdades, intensifica o racismo ambiental e ameaça a soberania popular.
A defesa dos bens comuns da natureza — da terra, da água e dos territórios — é inseparável da luta por soberania alimentar, democracia e um projeto popular para o Brasil. Como sintetizou Renata Menezes ao final do debate, “não há justiça social sem Reforma Agrária Popular, sem justiça climática e sem soberania do povo”. Diante do avanço do capital, a resposta segue sendo organização e luta pela transformação social.

Editado por Iris Pacheco



