XIV Encontro Nacional
Pesquisadores apontam a armadilha da financeirização e o desafio de um Projeto Popular
Segundo dia do 14º Encontro Nacional do MST iniciou com uma análise de conjuntura econômica, política e agrária

Por Katia Marko
Da Página do MST
Após uma mística carregada de simbolismo, organizada pela região Sudeste, o segundo dia do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizado nesta terça-feira (20) em Salvador-Bahia, teve início com a Plenária de Conjuntura Econômica, Política e Agrária Brasileira.
O debate contou com a participação da economista Juliane Furno, doutora em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do coletivo de professores do MST; do economista Sérgio Leite, doutor pela Unicamp e professor titular do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); e do historiador Valter Pomar, doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP), professor de economia política internacional da Universidade Federal do ABC (UFABC) e diretor da Fundação Perseu Abramo.
Dependência econômica e a armadilha da financeirização
Juliane Furno apresentou uma análise que articulou a dinâmica internacional com as dificuldades enfrentadas cotidianamente pelo povo brasileiro. Segundo ela, não é possível compreender o Brasil sem reconhecer sua condição de economia dependente, profundamente influenciada pelos rumos do capitalismo global.
A economista explicou que o período entre 1930 e 1980 — marcado por forte intervenção estatal e industrialização — foi, na verdade, uma exceção histórica, possibilitada por um contexto internacional específico, como a reconstrução do pós-guerra e a disputa geopolítica com a União Soviética. “Naquele momento, as potências imperialistas toleraram certo grau de autonomia na periferia do sistema”, afirmou.
Contudo, ela pontua que desde a década de 1980, o país vive uma nova fase do capitalismo, caracterizada pelo predomínio das finanças sobre a produção industrial. Nessa nova configuração, o imperialismo americano é menos complacente, ditando as ações dos estados nacionais e fechando nossas “margens de manobra” para políticas intervencionistas.

A “chantagem” do mercado e a exploração do trabalho
Furno destacou que a financeirização se baseia na busca incessante por lucros via juros e especulação — uma tentativa de “fazer dinheiro a partir do próprio dinheiro”. No entanto, como apenas o trabalho humano é capaz de gerar valor real, essa lógica resulta em maior exploração da classe trabalhadora, de modo a garantir os rendimentos exigidos por acionistas e fundos de investimento, que ela classificou como “parasitas da produção”.
Segundo a economista, a abertura irrestrita da conta de capitais também promove uma domesticação da política econômica. Qualquer tentativa de investimento público ou realizar reformas estruturais, como a reforma agrária, pode provocar uma fuga de capitais, gerando desvalorização da moeda e inflação. “Trata-se de uma chantagem permanente dos mercados financeiros internacionais sobre a política econômica — que, no fim das contas, é uma chantagem sobre a nossa democracia”, afirmou.
Estado, bens públicos e austeridade
A economista destaca que com a crise de 2008, o capital passou a buscar “superlucros” em setores historicamente protegidos: os bens públicos. Isso explica a pressão por privatizações na saúde e educação, além de mecanismos como o “teto de gastos”, que visam asfixiar os serviços públicos para que o capital privado possa ocupar esse espaço.
No cenário atual, Furno critica a manutenção de taxas de juros elevadas, que, segundo a visão liberal, servem para controlar a inflação, gerando desemprego e reduzindo a renda. Ela também pontua que o novo arcabouço fiscal amarra a capacidade do governo de compensar essa desaceleração com investimentos.
O paradoxo econômico e a “Geração Sem Futuro”
Um dos pontos centrais da intervenção de Furno foi o contraste entre indicadores macroeconômicos relativamente positivos e a percepção pessimista da população. Para ela, a geração nascida nos anos 1980 e 1990 será a primeira a viver em condições piores do que as de seus pais.
Entre os fatores apontados estão a precarização do trabalho, com o enfraquecimento da CLT; a dificuldade de acesso à moradia, agravada pela especulação imobiliária; e a incerteza quanto à aposentadoria, diante das sucessivas reformas previdenciárias.
Segundo a economista, a extrema direita tem avançado entre os jovens porque a chamada “esquerda institucional” frequentemente se limita a administrar o capitalismo, comemorando avanços pontuais que não alteram as condições estruturais de vida da população. O desafio, afirmou, é reconstruir um projeto popular de ruptura anticapitalista, capaz de devolver esperança e horizonte histórico às maiorias sociais.
A questão agrária sob o domínio do capital financeiro
Já o professor Sérgio Leite concentrou sua análise na questão agrária, destacando a grave concentração fundiária no Brasil e a subordinação crescente da terra aos interesses do capital financeiro. Segundo ele, além da desigualdade histórica, o país enfrenta novos mecanismos de expropriação, sintetizados em três processos: financeirização, estrangeirização e digitalização da terra.
Esses processos transformam o solo em ativo financeiro especulativo, controlado por fundos internacionais e plataformas digitais, frequentemente sem fiscalização adequada. O resultado é a priorização do agronegócio exportador de commodities, o aumento dos conflitos socioambientais e a expulsão de comunidades tradicionais.

A anatomia da desigualdade: 1% contra 50%
Leite ressaltou que os assentamentos de reforma agrária — que já beneficiaram mais de um milhão de famílias — são fundamentais para a geração de emprego, renda e cidadania. Ainda assim, a concentração fundiária segue em níveis alarmantes.
Segundo dados apresentados pelo professor, as propriedades com menos de 10 hectares representam metade dos estabelecimentos rurais, mas ocupam apenas 2,3% da área total. Já os latifúndios com mais de mil hectares correspondem a apenas 1% das propriedades, mas concentram cerca de metade das terras do país. “Trata-se de uma injustiça social brutal”, afirmou.
O professor alertou ainda para o avanço da estrangeirização: mais de 9 milhões de hectares estariam sob controle de apenas 224 empresas internacionais. Além disso, denunciou o uso indevido de ferramentas digitais como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que, segundo dados do Greenpeace, permitiu a apropriação privada de cerca de 30% das florestas públicas registradas, em razão da falta de fiscalização e do não cruzamento de dados com os cartórios.
Fiagro, especulação e greenwashing
Outro ponto crítico foi o crescimento dos Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais (Fiagro). Enquanto o crédito para a agricultura familiar permanece estagnado, esses fundos cresceram 1.335% em apenas quatro anos. Leite criticou a fragilidade da regulação e ironizou: “o Banco do Nordeste e o Banco do Brasil exigem uma série de documentos, para contratar um Fiagro, basta o documento de identidade e a carteira nacional de habilitação”.
Além disso, esses fundos não são obrigados a cumprir exigibilidades ambientais ou sociais, o que permite a prática de greenwashing, onde títulos são vendidos como “verdes” ou sustentáveis sem que as práticas no campo correspondam a esse rótulo.
A “reprimarização” da economia e conflitos
Leite citou o caso do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e exemplifica os impactos dessa lógica na região, onde o preço da terra aumentou 600% em duas décadas, impulsionado pela atuação de fundos internacionais e pela expansão da soja. Esse processo contribui para a reprimarização da economia, substituindo a produção de alimentos pela monocultura voltada à exportação e intensificando conflitos por terra e água.
“É esse movimento de cruzamento de três grandes consensos, o consenso das commodities, o consenso de Wall Street financeiro e o consenso da descarbonização que fazem com que esse processo seja cada vez mais ávido por terras, impactando inclusive o preço das terras”, destacou.
Ao final, defendeu a reforma agrária como um projeto estratégico de soberania fundiária, digital e alimentar, convocando à construção de alianças urbano-rurais e internacionais. “A felicidade está na luta e na busca coletiva por transformação”, afirmou.
O horizonte político e os riscos de 2026

Valter Pomar encerrou a plenária com uma análise do cenário político e eleitoral. Para ele, embora a reeleição do presidente Lula em 2026 seja possível, ela enfrenta ameaças significativas, sobretudo pela atuação do imperialismo estadunidense, interessado em manter sua hegemonia na América Latina.
Segundo Pomar, os Estados Unidos já interferem no processo político brasileiro por meio das Forças Armadas, das big techs e da manipulação do medo. Ele criticou a entrega de dados estratégicos da população às plataformas digitais, o que facilitaria a manipulação eleitoral.
O professor também alertou para a força persistente da extrema direita, que mantém cerca de 35% de apoio popular, e para o papel da direita tradicional, que controla instituições-chave e impõe alto custo político em troca de apoio, como a defesa do déficit zero e da austeridade fiscal.
Pomar destacou que a vitória de 2022 foi garantida principalmente pela classe trabalhadora — pobres, jovens, negros e o Nordeste — e não pelos setores conservadores. Para 2026, alertou para o risco de uma maioria conservadora no Senado, capaz de impor retrocessos institucionais.
Assim como Juliane Furno, concluiu que a esquerda precisa ir além da gestão do sistema e formular um projeto popular de ruptura, baseado na mobilização de massas e em reformas estruturais, como a reforma agrária, a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 e a tributação das grandes fortunas.
Editado por Iris Pacheco



