Produção
Lançamento de projetos fortalece cadeia produtiva do leite em Minas Gerais
Iniciativas voltadas à inclusão produtiva e melhoramento genético do rebanho leiteiro (Gir leiteiro) ampliam a capacidade produtiva de famílias assentadas e acampadas

Por Agatha Azevedo
Da Página do MST
Na manhã desta quinta-feira (05), no assentamento Dênis Gonçalves, em Goianá (MG), foram lançados dois projetos estratégicos para a agropecuária familiar e a produção leiteira nos territórios da Reforma Agrária: o projeto “Treinamento de Médicos(as) Veterinários(as) em Transferência de Embriões” e o projeto “Territórios do Leite: Agroecologia e Inclusão Produtiva” – eixo do programa Terra Mesa.
As iniciativas têm como objetivo fortalecer a produção leiteira por meio da democratização do acesso à ciência, às biotecnologias reprodutivas e à assistência técnica pública, articulando pesquisa, educação e organização coletiva nos territórios.
Formação técnica e melhoramento genético

O projeto de capacitação prevê a formação de cinco turmas de médicos e médicas veterinárias vinculadas ao Pronera, preparando profissionais para atuar diretamente em assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária. Ao todo, cerca de 40 profissionais deverão ser capacitados para realizar transferência de embriões como ferramenta de melhoramento genético do rebanho.
A iniciativa busca ampliar a produtividade, a autonomia e a geração de renda das famílias, com base em princípios como agroecologia, bem-estar animal, soberania alimentar e educação popular. Segundo Vitor Teixeira, assentado no Dênis Gonçalves e médico veterinário formado pelo Pronera, a iniciativa tem como objetivo a geração de renda e alinhamento com a sustentabilidade do processo produtivo.
“A sustentabilidade é o centro nesse momento. A gente consegue produzir genética usando a ferramenta da transferência de embriões e essa capacitação nos permite produzir e transferir esses embriões nas áreas de Reforma Agrária, isso aumenta a produção de leite com menos animais”, explica Teixeira.
Segundo o professor João Carlos, da UFSCar, o trabalho desenvolvido nos territórios demonstra o potencial da integração entre ciência e organização popular. “O MST demonstrou rigor técnico e comprometimento com o resultado de maneira extraordinária”, afirmou.
A Embrapa Gado de Leite também destacou o papel da pesquisa pública nesse processo, ao trazer dados de que o Brasil se tornou referência em transferência de embriões in vitro e a socialização desse conhecimento é fundamental para ampliar seus benefícios. A síntese é a de que a pesquisa do Gir leiteiro conseguiu transformar o Brasil em referência e agora esse conhecimento chega às mãos do povo brasileiro.
Agroecologia e inclusão produtiva nos territórios

O projeto Territórios do Leite atua diretamente na organização da produção e na construção de sistemas agroecológicos adaptados à realidade dos agricultores. A proposta inclui o uso de raças leiteiras adaptadas ao clima tropical, como o Gir leiteiro, reconhecido por sua resistência ao calor e a pragas, além da capacidade de produzir em sistemas de menor dependência de insumos externos.
A pesquisadora da Embrapa Fernanda Samarini explicou que o manejo agroecológico permite integrar diferentes componentes produtivos. “São animais adaptados ao sistema agroecológico, com diversidade de forragens para sua nutrição e bem-estar, reduzindo a compra de insumos externos e construindo um sistema mais autossuficiente”, afirmou.
As experiências apresentadas na fazenda-laboratório da Embrapa Gado de Leite incluem o cultivo de moringa, a implantação de meliponários e atividades de educação ambiental, demonstrando a relação entre a produção leiteira e o equilíbrio do ecossistema. “Se tem abelha aqui, é porque existe equilíbrio. Produzir alimentos de uma forma que regenere o ecossistema é o caminho”, destacou a pesquisadora.
Parcerias e políticas públicas

Os projetos são desenvolvidos em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), instituições de pesquisa, cooperativas e organizações populares que atuam em territórios de Reforma Agrária em oito estados brasileiros. Entre as organizações envolvidas estão cooperativas de Reforma Agrária ligadas à produção e comercialização de alimentos, fortalecendo a cadeia produtiva do leite.
Representantes do Movimento destacaram que políticas públicas como o PRONAF, o crédito rural e programas voltados à industrialização e comercialização, como a produção de leite em pó, são fundamentais para consolidar os avanços na produção. Segundo Diego Moreira, do Setor Nacional de Produção do MST, o projeto é uma vitória na qualificação do povo Sem Terra, mas “é preciso integrar as políticas públicas e fazê-las chegar até a base do Movimento”.
Durante o ato político de celebração dos projetos, também foi ressaltado que a retomada do MDA e a ampliação dos recursos para a agricultura familiar têm contribuído para expandir iniciativas estruturantes nos territórios. Para Neila Batista, superintendente do Incra-MG, a iniciativa simboliza a importância da pesquisa pública e das políticas voltadas à agricultura familiar. “Como é bom ver a ciência pública brasileira chegando nas mãos do povo brasileiro”, afirmou.

Os projetos representam mais um passo na construção de sistemas produtivos sustentáveis, integrando conhecimento científico, organização coletiva e agroecologia como bases para fortalecer a soberania alimentar e a qualidade de vida das famílias assentadas. Segundo Valdinei Siqueira, da direção regional do MST na Zona da Mata mineira, o melhoramento genético é uma prova de que a Reforma Agrária é um projeto político de construção de dignidade, soberania e alimento para o povo brasileiro.
“O agronegócio trabalha com índice de embriões receptores para a transferência genética de 30% a 35%, enquanto nós do MST, nessa primeira experiência em que tivemos a oportunidade através da iniciativa do Governo Lula e do MDA, tivemos 60% de prenhez no gado Gir leiteiro. Quando temos oportunidade, nós produzimos muito mais que o agronegócio”, afirma.
*Editado por Fernanda Alcântara



