Reforma Agrária
Camilo Torres e o legado da luta pela Reforma Agrária na América Latina
Sessenta anos após sua morte, a identificação dos restos mortais de Camilo Torres, na Colômbia, reacende o debate sobre Reforma Agrária, memória histórica e o papel da fé na luta revolucionária latino-americana

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
Recentemente, a trajetória de Camilo Torres Restrepo volta ao centro do debate político latino-americano, em meio ao resgate da memória latino-americana e ao reconhecimento de seu papel nas lutas sociais. Sacerdote católico e sociólogo, Camilo construiu uma atuação profundamente vinculada às condições concretas vividas pelo povo colombiano, articulando reflexão crítica, prática pastoral e compromisso político. Seus estudos sobre a pobreza urbana e rural, longe de um exercício acadêmico neutro, buscaram compreender as raízes estruturais da desigualdade e intervir sobre elas.
Sua formação e atuação ocorreram em um momento de intensa efervescência social e política na América Latina, marcado pelo questionamento do papel histórico da Igreja Católica diante da miséria e da violência impostas pelo imperialismo e pelas ditaduras. Como destaca Camilo Augusto, do MST em Rondônia, “na época de Camilo, havia um importante movimento no interior da igreja católica no continente, a Teologia da Libertação, que fazia a leitura do evangelho buscando seguir o Cristo revolucionário e pregando essa perspectiva”. Ele ressalta que, nesse sentido, Camilo Torres “é resultado de um processo maior que ocorria no continente”, e não uma figura isolada da realidade histórica.

A Teologia da Libertação ofereceu a Camilo ferramentas para interpretar a fé a partir da vida dos pobres, rompendo com uma tradição religiosa que naturalizava a desigualdade social. Essa perspectiva permitiu compreender a exploração latino-americana como resultado da dependência econômica, da concentração fundiária e da submissão política das maiorias populares.
Maria de Jesus, pedagoga e assentada da Reforma Agrária no assentamento Bernardo Marin II, Russas, no Ceará, afirma que Camilo é um dos precursores da teologia da libertação na América Latina, justamente porque “tinha consciência da realidade de exploração e dependência que vivíamos em nossos países”. Segundo ela, “a partir da Bíblia, ele se apropria, pensa a transformação de nossa sociedade e entende a necessidade das várias formas de luta”.
Essa opção fez de Camilo uma referência incômoda para a hierarquia eclesiástica tradicional e para as elites colombianas. Ao colocar a fé a serviço da organização popular, ele ajudou a construir uma prática religiosa comprometida com a transformação social, que dialoga diretamente com a experiência histórica dos movimentos camponeses latino-americanos.

No centro do pensamento e da prática de Camilo Torres está a noção de “amor eficaz”, conceito que sintetiza sua crítica à religiosidade abstrata e sua defesa de uma fé comprometida com a ação concreta. Para Camilo Augusto, amar o próximo significava enfrentar as estruturas que produziam a pobreza e a exclusão, mesmo quando isso implicava confronto direto com os poderosos.
Camilo acreditava que o amor eficaz era o motor da luta, que o amor não estava nas palavras, mas nas ações, e ele demonstrava a fé no amor pelo próximo dedicando sua vida e seu corpo na luta dos pobres. Esse compromisso inspirou no povo a coragem de lutar pela causa comum, pelo amor eficaz que é aquele que busca a transformação social”
– Camilo Augusto, do MST em Rondônia.
A coerência entre o que dizia e o que fazia foi um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória. “Seguindo essa perspectiva de estar do lado dos pobres, Camilo atuava como falava, seguia o que pregava, sempre do lado dos pobres, não se furtando dos enfrentamentos contra a tirania das elites dominantes na Colômbia”, afirma Camilo Augusto. Ele destaca que essa postura mostrava, assim como no exemplo de Cristo, que “o exemplo era a forma de mobilizar para a luta”.
Em sociedades profundamente marcadas pelo catolicismo e pela estrutura agrária, essa coerência tinha impacto político concreto. “Em países católicos e agrários, como na América Latina, ver uma figura importante como um padre caminhar junto e abraçar a luta dos pobres da terra inspirava os camponeses a irem para a luta e enfrentar o inimigo causador do sofrimento do povo”, observa Camilo.
Essa prática de fé engajada ajudou a romper o medo e a resignação, fortalecendo a organização popular no campo. Para o MST, o amor eficaz permanece como princípio político: estar nos acampamentos, enfrentar a repressão, assumir o trabalho coletivo e construir alternativas concretas de vida digna no campo.
Reforma Agrária como fundamento da libertação

Camilo Torres mostrou que a concentração da terra é um dos principais pilares da dominação capitalista na Colômbia e na América Latina. A ausência de uma Reforma Agrária profunda mantinha milhões de camponeses excluídos do direito à terra, submetidos à violência e à exploração permanentes.
Sua principal contribuição foi teórica, para a compreensão da realidade vivenciada. Creio que este valor da busca da interpretação está muito atual para toda militância do MST, no sentido de buscar compreender a realidade e as novas variáveis da fase hegemônica do capitalismo financeiro e pensar os processos de transformação social de nossa América Latina”.
– Maria de Jesus, do MST no Ceará.
A luta pela terra, como ressalta Camilo Augusto, é central porque “mexe em um dos pilares da dominação capitalista na região”. Ele lembra que essa centralidade explica a violência sistemática contra camponeses e militantes: “Assim como Camilo, temos centenas, milhares de pessoas assassinadas nessa luta e isso demonstra que é uma luta legítima, pois incomoda e tira o sono dos poderosos da terra”.
Para o padre colombiano, não havia transformação social possível sem enfrentar a estrutura agrária. Sua reflexão apontava que a terra precisava deixar de ser mercadoria e se tornar base material da vida, da soberania alimentar e da democracia popular. E essa compreensão dialoga diretamente com a prática do MST, que organiza acampamentos e assentamentos como forma de pressionar o Estado e de construir novas relações sociais no campo.
O legado de Torres reforça a ideia de que a Reforma Agrária não é uma política setorial, mas eixo estratégico de um projeto popular para a América Latina. Sua decisão de ingressar no Exército de Libertação Nacional (ELN) não foi fruto de impulso ou romantização da violência, mas de uma análise concreta da correlação de forças de seu tempo. Diante do bloqueio das reformas e da repressão crescente às organizações populares, ele concluiu que as vias institucionais estavam fechadas.
Memória, desaparecimento e unidade popular

Camilo Augusto lembra que o sacerdote foi muitas vezes orientado a não entrar na guerrilha, sob o argumento de que era “importante demais para morrer em combate”. A resposta de Camilo, no entanto, foi clara e coerente com toda sua trajetória: ele afirmava que precisava estar “onde o povo estivesse lutando e se o único caminho que restou ao povo foi as armas, então ele empunharia armas também, ao lado do povo”.
A morte de Camilo Torres, em seu primeiro combate, em fevereiro de 1966, consolidou sua figura como símbolo dos limites impostos pelas elites latino-americanas a qualquer projeto de transformação estrutural. Ao longo do século XX, a repressão estatal e paraestatal foi a resposta recorrente à organização popular no campo e na cidade, produzindo uma longa lista de militantes assassinados ou silenciados. Para Camilo Augusto, essa violência estrutural está diretamente ligada à seletividade do sistema judicial. “Não podemos esperar grandes coisas da justiça burguesa, que, como dizia um padre salvadorenho, é como uma cobra: só morde os pés descalços”, afirma.
Após o assassinato, o corpo de Camilo foi ocultado pelo Estado colombiano, prática comum em regimes autoritários que buscaram apagar não apenas evidências materiais, mas também símbolos políticos capazes de unificar o povo. Transformado em desaparecido por quase seis décadas, Camilo passou a integrar a memória coletiva das vítimas do conflito armado.
Em janeiro deste ano, a busca por seus restos mortais enfim encontrou resolução. Iniciada oficialmente em 2019, a partir de solicitação à Unidade de Busca de Pessoas dadas por Desaparecidas (UBPD), seu corpo foi encontrado a partir de avanços mais significativos nos últimos dois anos, combinando análise documental, técnicas forenses e ferramentas geomáticas, permitindo localizar e identificar os restos mortais do sacerdote e sociólogo.
Segundo a UBPD, a cerimônia de entrega será restrita a familiares e pessoas próximas. Ainda assim, o gesto carrega um significado que ultrapassa o âmbito privado: seis décadas depois, a história de Camilo Torres retorna ao espaço público como memória viva das lutas camponesas, da repressão estatal e da persistência de um projeto de justiça social na América Latina.
Em 2026, a América Latina vive um novo ciclo de disputas entre governos progressistas, forças conservadoras e pressões externas, em especial do governo de Donald Trump dos Estados Unidos e seus ataques à soberania popular de outros países, a exemplo do ataque a Venezuela. Além do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, Trump tem repetido discursos de intervenção, ameaças a acordos comerciais e pressões sobre governos que defendem a Reforma Agrária, políticas de redistribuição de renda e o controle estatal sobre recursos naturais.
Nesse contexto, o resgate do corpo de Camilo Torres funciona como um lembrete de que a luta pela terra, pelos direitos dos Sem Terra e pela democracia continua. O fato de seus restos mortais serem encontrados agora transforma o aniversário de 60 anos de sua morte em um marco de resistência e memória.
Para o MST e os movimentos populares da América Latina, o legado de Camilo Torres reafirma que a Reforma Agrária, a luta contra a ditadura e a defesa da soberania não são temas do século passado, mas frentes centrais na disputa política do presente.
Para Maria de Jesus, dizer que “Camilo segue vivo”, significa reconhecer que seu legado “unifica todo o povo colombiano” e permanece como referência para as lutas atuais. “Camilo vive e temos que nos fortalecer por seu legado e seguir as trincheiras por uma América livre, unificada, cheia de vida e esperança”, afirma.
A memória dos mártires que tombaram na luta é parte constitutiva da luta popular e, para o MST, resgatar essas histórias é fortalecer a identidade coletiva e reafirmar que a violência sofrida pelos camponeses/as não foi em vão.
*Editado por Solange Engelmann



