Sem Terra na Avenida

‘MST na Avenida’: Acadêmicos do Tatuapé leva luta pela terra e agroecologia ao Carnaval de São Paulo

Eduardo Santos aposta em uma ‘coisa suave e leve’, para mostrar para as pessoas o Movimento de forma lúdica para quem não conhece

MST no Carnaval: aposta da Acadêmicos do Tatuapé para título. Foto: Brasil de Fato

Por Luana Ibelli e Tabitha Ramalho
Do Brasil de Fato

Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”. O verso do samba-enredo da Acadêmicos do Tatuapé para o Carnaval de 2026 resume em poucas palavras a contradição que marca a história da posse de terra no Brasil. Mas a escola da Zona Leste de São Paulo não se contentou em apenas apontar o problema. Em parceria inédita com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a agremiação promete levar para a avenida um desfile que celebra a resistência camponesa, a agroecologia e a dignidade de quem planta o alimento que chega à mesa dos brasileiros.

O presidente da escola, Eduardo Santos, detalhou ao BdF Entrevista as expectativas para um desfile que promete marcar a história do Carnaval paulistano. “A pedida do MST foi exatamente essa: uma coisa suave, leve, para mostrar para as pessoas o que de fato nós somos. A narrativa já é o contrário, sempre mostra o lado negativo. A gente quer falar para quem não conhece o movimento”, afirmou.

Sob a direção do carnavalesco Wagner Santos — responsável pelo título de 2018 e pela consistente evolução da escola nos últimos anos —, o desfile foi dividido em três grandes momentos. O primeiro setor é lúdico e mitológico, com Tupã criando a terra e entregando-a aos povos originários. O segundo aborda a ganância e a destruição: invasões, queimadas, agrotóxicos e a exploração predatória do solo. O terceiro, enfim, celebra a “lição camponesa”: a reforma agrária popular, os assentamentos e a grande festa da colheita.

As quatro alegorias da escola traduzem essa narrativa em esculturas monumentais. “Seguramente esse é o maior Carnaval que a Tatuapé já produziu. É gigantesco, um negócio fantástico. Centenas de esculturas produzidas especificamente para esse desfile”, garantiu Eduardo.

O samba-enredo, escolhido em um processo interno que durou meses e resultou na junção de composições de 18 autores, já vem conquistando o público nos ensaios técnicos no sambódromo. “O samba é contagiante, emociona, é simples de cantar. Nossa ala musical, comandada pelo Celsinho Mody, transforma isso numa coisa absurdamente contagiante”, comemorou o presidente.

A relação com o público é parte essencial do espetáculo. “Quando a escola canta com intensidade, isso contamina a arquibancada. O sambódromo inteiro canta junto, se emociona junto. E aí quem está na pista se sente com mais obrigação ainda de cantar mais alto. Essa troca é mágica”.

Participação do MST e gratuidade das fantasias

Uma das marcas do Tatuapé é a não comercialização de fantasias. Todos os componentes desfilam gratuitamente, em troca de dedicação e ensaios. E os integrantes do MST que vão desfilar estão seguindo o mesmo rito: ensaiam, participam da comunidade escolar e viverão a experiência de estar na avenida.

O movimento terá uma ala própria e também estará representado no último carro, que retrata a festa da colheita. “É um carro que tem uma representatividade muito legal. Vai ter um grupo de pessoas do movimento festejando ali. Vai ser muito bacana”.

Eduardo Santos fez questão de conectar o enredo à realidade da escola e de seu território. “O Tatuapé é um bairro abastado, mas também tem bolsões de pobreza. A escola de samba é talvez a última possibilidade de lazer gratuito ou barato ali. A gente tem consciência do trabalho social que faz”.

Ele destacou que a gratuidade das fantasias é parte desse compromisso. “No dia do desfile, você vê lado a lado, com a mesma fantasia, cantando o mesmo samba, um cara da periferia e outro que mora num apartamento de R$ 12 milhões. E você não consegue saber quem é quem. Isso nos orgulha demais”.

Para Eduardo, o enredo deste ano transcende a disputa de notas. “Todo desfile tem uma mensagem. A nossa é muito clara e muito importante. Queremos que as pessoas entendam melhor a necessidade de pensar na reforma agrária, na agroecologia, na segurança alimentar. Se conseguirmos mudar um pouco a maneira como as coisas são vistas, teremos cumprido nosso papel”.

A Tatuapé desfila na sexta-feira de Carnaval, 13 de fevereiro, na quarta posição da noite, entre a campeã Rosas de Ouro e a tradicional Dragões da Real. “Sempre optamos por desfilar na sexta. A partir da quarta escola, a posição é muito boa. E o escuro da noite valoriza nossa iluminação. Foi uma escolha pensada em cada detalhe”.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas