É festa na Roça! A Acadêmicos do Tatuapé conquistou o quarto lugar no Carnaval de São Paulo 2026 com o enredo “Plantar para Colher e Alimentar – Tem muita terra sem gente e muita gente sem terra”, levando a luta pela Reforma Agrária Popular e pela soberania alimentar à maior festa popular do país.
A agremiação da Zona Leste volta a desfilar na madrugada deste domingo (22), no Desfile das Campeãs, lembrando que, em sua essência, as escolas de samba continuam sendo um território de disputa de narrativas e, ao mesmo tempo, fazem o papel de um quilombo urbano de denúncia contra as grandes forças políticas do capitalismo.
O resultado final consagra a semente crioula e o suor de quem produz 70% do alimento que chega à mesa do trabalhador urbano. Com inspiração na luta do MST, a Acadêmicos do Tatuapé não subiu ao palco para falar “do” campo como um cenário distante e trouxe o campo para dentro da cidade, conectando o asfalto ao barro, e o operário da metrópole ao camponês e camponesa do assentamento.
Para quem observa o Carnaval sob a ótica da luta de classes, a evolução da Acadêmicos do Tatuapé foi uma aula de pedagogia política. A escola deu nome aos bois — e aos latifúndios, resgatando uma ferida aberta na formação social brasileira: a concentração fundiária que expulsa o povo para as periferias e submete o solo à lógica do lucro financeiro em vez da vida.
Nas alas do “Cacau” e “Arroz”, o que se viu foi a celebração da organização popular. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, foi representado não como um “tema”, mas como uma força viva. A presença de Sem Terra, jovens acampados/as e assentados/as, trouxe presente uma nova forma de pensar e enxergar a cultura do e no Movimento.
Igão, militante do MST no Paraná que esteve presente no desfile, sintetizou a importância política do momento. “[Viemos] no Anhembi, nesse terreno sagrado para o samba e para a cultura popular, para dizer para todo mundo que o carnaval também faz parte da vida do povo e das comunidades Sem Terra. Para nós, é uma oportunidade incrível e única poder pisar coletivamente com jovens acampados/as, com jovens assentados/as, com camponeses e camponesas. Poder respirar e pisar nesse terreno sagrado que exala samba, exala resistência popular”, completou.
“Nós sentimos a energia da passarela. Trouxemos nosso enredo para partilhar a terra. Todo mundo cantou. É uma forma de divulgar a agroecologia, a Reforma Agrária Popular e dizer que são uma alternativa para a população brasileira e o carnaval, trazendo a partir da arte uma mensagem de vida e de defesa da terra e da natureza”, destaca Divina Lopes, da direção nacional do MST, que participou do desfile no carro “Festa na Roça”.
Da ancestralidade ao assentamento: o caminho da soberania
Foto: Priscila Ramos / MST
A narrativa construída pela escola foi um resgate histórico necessário. O desfile começou na ancestralidade indígena, no manejo sagrado da terra que não conhece o veneno, e caminhou até a modernidade urgente da agroecologia. A crítica ao modelo do agronegócio — que controla sementes e impõe agrotóxicos de forma massiva e violenta — foi feita de forma sofisticada, mostrando que a luta pela terra hoje é, acima de tudo, uma luta pela saúde pública e pela preservação do meio ambiente.
O último carro alegórico, intitulado “Festa na Roça”, foi talvez a imagem mais forte do Carnaval paulistano. O carro transbordava flores e cestas de alimentos reais: eram milhos, repolhos, jilós, beterrabas e hortaliças cultivados pelas mãos de 76 famílias do PDS Luiz Davi de Macedo, em Apiaí (SP). Ver a produção da Reforma Agrária, livre de veneno e cultivada em plena Mata Atlântica, desfilar como protagonista no Anhembi é a prova de que o projeto da Reforma Agrária Popular é viável, necessário e urgente.
Celsinho Mody, intérprete que conduziu a escola com muita garra, traduziu o sentimento de quem sabe que o microfone é uma arma. “Foi uma honra passar nessa passarela do samba tão sagrada, em que muitos pretos antigos lutaram para a gente chegar até aqui, com a minha escola de samba, representando a luta do nosso povo trabalhador. A luta é a nossa vida, e muito obrigado por vocês [do MST] fazerem essa luta, de coração. Eu cantei o meu coração para trazer um grande resultado”.
A Reforma Agrária como projeto de país
Em um país onde milhões de pessoas ainda enfrentam algum nível de insegurança alimentar, falar de soberania alimentar no Carnaval é um ato revolucionário. A escola utilizou sua vitrine, transmitida para mais de 80 países, para desmistificar o movimento popular e mostrar que a Reforma Agrária é a solução para a carestia dos alimentos na cidade.
Eduardo dos Santos, presidente da escola, já havia sido certeiro ao definir a missão deste ano: “Vamos falar de agroecologia, do pequeno agricultor e de segurança alimentar. São temas que afetam todo o povo brasileiro”. Essa visão integra o conceito de Reforma Agrária Popular, defendido pelo MST há mais de quatro décadas: não se trata apenas de distribuir hectares de terras antes concentrado por poucos latifúndiários, mas de reorganizar a produção em torno da vida, combatendo o latifúndio improdutivo e o capital financeiro que especula com a fome.
É uma emoção, é um conteúdo revolucionário. Só o que eu conseguia pensar, e chorar, é: por que a gente não põe em prática essa letra? O acesso à terra, o cuidado com a natureza, que as pessoas tenham alimentação”, desabafou a ministra. Sua pergunta ecoa a urgência política do nosso tempo. O Carnaval da Tatuapé foi um ensaio geral para o Brasil que queremos construir“.
Márcia Lopes, Ministra das Mulheres
A nota máxima dada pelos jurados em diversos quesitos como samba-enredo e bateria é a prova de que a batalha das ideias segue viva, e a Acadêmicos do Tatuapé sai vitoriosa, não apenas pelo troféu, a colheita só é farta quando a terra é dividida com justiça. Que as lições desta jornada inspirem novas ocupações de terras, de palcos e de corações. A Reforma Agrária Popular passou na avenida!
Serviço
Confira a ordem do Desfile das Campeãs, que reúne nove escolas, incluindo as duas primeiras colocadas do Grupo de Acesso II, as duas primeiras do Grupo de Acesso I e as cinco primeiras do Grupo Especial.
Sábado, 21/02 20h — X-9 Paulistana 20h45 — Morro da Casa Verde 21h30 — Pérola Negra 22h20 — Acadêmicos do Tucuruvi 23h10 — Dragões da Real
Domingo, 22/02 0h10 — Acadêmicos do Tatuapé 1h10 — Mocidade Alegre 2h10 — Barroca Zona Sul 3h10 — Gaviões da Fiel
Confira abaixo a galeria de fotos do desfile da Tatuapé: