Direitos Humanos
Berta Cáceres: 10 anos de semente e luta contra o capital e a impunidade
COPINH e organizações populares denunciam a proteção do Estado hondurenho ao clã Atala Zablah e apontam que a impunidade dos autores intelectuais perpetua a violência no campo

Por Fernanda Alcântara*
Da Página do MST
Neste 2 de março de 2026, completam-se dez anos do assassinato de Berta Cáceres, liderança histórica do povo Lenca e fundadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH). O que o capital extrativista e o Estado hondurenho planejaram como um silenciamento transformou-se, na última década, em um “plantio” (siembra): Berta tornou-se um método de luta e uma bússola política para os movimentos sociais do Sul Global.
A luta de Berta contra a hidrelétrica de Agua Zarca e a empresa Desarrollos Energéticos S.A. (DESA) expôs a natureza predatória do imperialismo na América Central. Ela compreendeu, antes de muitos, que a defesa dos bens da natureza é a linha de frente da guerra de classes. Contudo, o décimo aniversário de sua “siembra” ocorre em um cenário de alerta máximo.
Honduras atravessa uma encruzilhada. Após o término do governo de Xiomara Castro — que, apesar do respiro diplomático, não conseguiu desmontar as estruturas arcaicas do agronegócio e da mineração —, o país vê o retorno da direita ao poder. A recente ascensão de Nasry “Tito” Asfura à presidência, apoiado pela extrema direita estadunidense e sob denúncias de fraude, recoloca os movimentos populares na defensiva.
O cenário é de barbárie. Dados recentes da Global Witness apontam que a América Latina concentra mais de 80% dos assassinatos de defensores da terra no mundo. Honduras, ao lado de Colômbia e Brasil, lidera esse ranking macabro, onde o lucro das transnacionais vale mais que a vida das lideranças comunitárias.
Justiça pela metade é impunidade
Dez anos depois, a pergunta que ecoa nas ruas de Tegucigalpa continua sem resposta: onde estão os Atala Zablah?
Graças à pressão internacional e à resistência da família de Berta, os autores materiais e o ex-gerente da DESA, David Castillo, foram condenados. No entanto, a justiça burguesa protege o topo da pirâmide. O relatório do Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI) provou que o crime foi financiado e orquestrado por uma rede que liga o Estado à oligarquia financeira, apontando diretamente para o clã Atala Zablah. A liberdade dos autores intelectuais reafirma o papel do judiciário hondurenho: blindar a propriedade privada e os senhores do lucro.
A luta do COPINH reflete diretamente a realidade brasileira. O mesmo capital que violenta os rios hondurenhos é o que promove a grilagem no Cerrado e envenena a Amazônia. Para o MST, Berta Cáceres é uma referência de feminismo camponês e popular, corporificando a defesa da soberania alimentar e da agroecologia não apenas como técnica, mas como ato de desobediência política.
Ao lado de Margarida Alves e Dorothy Stang, Berta compõe a memória viva que orienta a resistência contra o latifúndio em Nuestra América“
Jornada de Luta: 10 Anos de Esperança
Para marcar a data e exigir justiça, o COPINH convoca uma jornada global de mobilização até 7 de março. A ofensiva, sob o lema “Berta: 10 anos de esperança”, exige responsabilidade das autoridades.
Nesta segunda-feira (2), a orientação é massificar a denúncia nas redes, marcando o Procurador-Geral da República, Johel Zelaya (@jaza_hn), e pressionando instituições como a ONU Honduras e a Embaixada dos EUA. As hashtags #JusticiaParaBerta, #BertaVive e #GIEI unificam o grito internacional: Berta não morreu, multiplicou-se.
“Se não defendermos nossos direitos e territórios, ninguém o fará por nós”, alerta o COPINH. A semente germinou e a organização popular segue sendo o único caminho para vencer a opressão.
*Com informações da COPINH.



