Jornada Nacional
Mulheres Sem Terra realizam mobilização pela Reforma Agrária e contra as violências pelo Brasil
Ações de denúncia, ocupações e protestos são realizadas em 13 estados, em todas as grandes regiões do país

Por Lays Furtado
Da Página do MST
A Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra deste ano teve início no dia 8 de março e vai até a próxima quinta-feira, dia 12, com mobilizações em todas as regiões do país. Com o lema: “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”, as camponesas se uniram às mulheres da cidade, neste no Dia Internacional das Mulheres, dia 8, fazendo ecoar a voz da luta feminista contra o patriarcado e para exigir direitos.
Mais de 11 mil Mulheres Sem Terra participaram das mobilizações nos dois primeiros dias de Jornada, em 13 estados e 21 municípios. Ao todo, foram realizadas 24 ações, entre elas 7 ocupações de latifúndios improdutivos, marchas, espaços de debate e formações, bloqueios e atos exigindo a Reforma Agrária e o fim das violências.
Ayala Ferreira, da coordenação nacional do MST, declara que “a jornada tem expressado aquilo que pode ser as mulheres organizadas enfrentando os crimes do latifúndio e também enfrentando essa escalada de violência contra as mulheres, legitimado muito pelo discurso conservador e avanço da extrema direita em nossa sociedade.”
A coordenadora explica que, por isso, as mobilizações têm como foco o enfrentamento à violência no campo, que se expressa como resultado concreto, na existência do próprio latifúndio. As áreas ocupadas por Mulheres Sem Terra são latifúndios onde ocorreram crimes, como a prática do trabalho escravo, grilagem de terras, ou até crimes que envolvem a devastação ambiental.
“Então, nós estamos, nesse exato momento, em processos de ocupação de latifúndios, de bloqueio de rodovias, de marchas, em processos de diálogos e de formação com outras companheiras, de outros movimentos urbanos e também rurais, tentando expressar o que pode ser a capacidade de organizar e de resistir das mulheres da classe trabalhadora”, sintetiza a coordenadora.
A Jornada conta com um conjunto de mobilização que acontecem até o dia 12 de março. Diante disso, as mulheres Sem Terra convidam a todas as mulheres trabalhadoras e à sociedade em geral para participar e acompanhar os processos de mobilização.
“Convocamos a sociedade a nos acompanhar, para reafirmarmos que o problema que nós enfrentamos nos dias de hoje, do aprofundamento das desigualdades, da realidade de miséria, fome, desemprego, se resolve também com a implementação de uma política ampla e radical de Reforma Agrária no nosso país. Então, sigamos em processo de luta e de resistência rumo a tão sonhada sociedade que caibamos todos nós, mulheres e homens livres e emancipados efetivamente”, conclui Ayala.
Confira as mobilizações dos primeiros dois dias de Jornada:
AMAZÔNICA
Tocantins
Nesta segunda-feira (9), cerca de 800 Mulheres Sem Terra ocuparam a Fazenda Santo Hilário, em Araguatins (TO), o latifúndio tem histórico marcado por assassinato, violência e trabalho escravo. A área de 2.462 hectares teve sua matrícula de posse cancelada e se tornou posse da União Federal, em 2020 para fins de Reforma Agrária.
As mulheres da região amazônica denunciam que o fazendeiro segue de forma irregular atuando como proprietário, num escancarado caso de grilagem. Por outro lado, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) descumpriu o prazo de vistoria da área, estabelecido em setembro de 2025, no local em que deveriam ser assentadas 200 famílias de trabalhadores rurais do Movimento. Desde o domingo (8), as mulheres da região amazônica do MST se reuniram no município e realizam processos formativos e de solidariedade às famílias que lutam há cerca de 20 anos pela Reforma Agrária Popular no território.
NORDESTE
Piauí
Nesta segunda (9), cerca de 200 famílias ocuparam uma área improdutiva no município de Palmeirais, Piauí, durante a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra. A área da empresa Suzano está abandonada há cerca de dez anos e é resultado de um projeto falido de implantação de uma fábrica e da produção de eucalipto. O MST reivindica que a área seja destinada para fins de Reforma Agrária, a fim de garantir que as famílias acampadas no local possam morar e viver com dignidade.
Alagoas
Na manhã desta segunda (9), cerca de 500 mulheres camponesas ocuparam as instalações da Mineração Vale Verde, no município de Craíbas (AL). A mobilização integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra e denuncia os danos ambientais e sociais causados pela exploração mineral na região do Agreste do estado.
No domingo (8), as mulheres do campo e da cidade ocuparam as ruas de Maceió no Ato Unificado do Dia Internacional de Luta das Mulheres, com o lema “Pela vida das mulheres! Contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1!”. O ato mostrou a potência da organização das mulheres, reunindo movimentos sociais e organizações populares, em que as Mulheres Sem Terra também marcaram presença na Praça 7 Coqueiros, em Ponta Verde, levantando as bandeiras da Reforma Agrária Popular, da produção de alimentos saudáveis e da defesa dos territórios.

Desde o sábado pela manhã (7), às Mulheres Sem Terra em Alagoas estão mobilizadas para as ações da Jornada, onde foi organizada a preparação de cerca de mil refeições, distribuídas para a comunidade do Benedito Bentes, em Maceió (AL). A iniciativa faz parte das ações da Cozinha Solidária do MST, levando alimentos produzidos em assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária para a população em situação de fome, que mais precisa.
Sergipe
Nesta segunda-feira (9), 300 mulheres camponesas saíram em marcha pelas ruas de Aracaju (SE), em direção ao Incra, levantando suas bandeiras e reafirmando a luta pela Reforma Agrária Popular. Organizadas e em movimento, as mulheres denunciam a violência no campo, a lentidão da política de Reforma Agrária e seguem na linha de frente da defesa da terra, da produção de alimentos saudáveis e da vida digna para o povo trabalhador. No Incra, a mobilização seguiu com uma audiência com a superintendência, em que foram apresentadas pautas das mulheres Sem Terra, cobrando medidas concretas para avançar na Reforma Agrária no estado.
Pernambuco
No domingo (8), mais um latifúndio improdutivo foi ocupado com o protagonismo das mulheres Sem Terra na região do Vale do São Francisco, com cerca de 800 famílias, as camponesas ocuparam a ocupação da Fazenda Pontalino, Gleba Carranca, localizada no distrito de Vermelhos, a aproximadamente 26 km do município de Lagoa Grande.
A área possui cerca de 900 hectares e, há anos, não cumpre sua função social, princípio estabelecido na legislação brasileira para o uso da terra. A ocupação reafirma a luta das famílias trabalhadoras do campo por terra, trabalho e dignidade, e pela efetivação da Reforma Agrária.
Rio Grande do Norte
Na manhã desta segunda (9), mulheres Sem Terra do Rio Grande do Norte realizaram protestos como parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra em duas regiões do estado. Com ações na BR-101, em Touros, as mulheres denunciam o avanço do capital energético e a territorialização das empresas, que ameaçam as famílias do campo, restringindo o uso da terra e colocando em risco os territórios e a natureza.
Nesta segunda hoje (9), também ocorreram protestos na BR-405, na Chapada do Apodi, como parte da Jornada nacional, em que as mulheres reivindicaram o cumprimento da pauta do MST junto ao Governo do Estado e denunciaram os impactos dos megaprojetos de energia eólica, com o assédio às famílias, arrendamentos injustos, destruição ambiental e ameaças ao modo de vida dos povos do campo.
Entre as urgências na região oeste está a agilidade e conclusão da desapropriação das terras do DIBA, onde cerca de 100 famílias aguardam o assentamentos na área. E outros dez acampamentos, que também reivindicam terra para fins de Reforma Agrária, na região que está há 20 anos sem nenhuma desapropriação.
Bahia
Na tarde desta segunda (9), ocorreu a Plenária das Mulheres e Formação com os Homens, reunindo mulheres e homens Sem Terra dos assentamentos Edite Xavier, José Martí e Eunice Adriana, em Araçoiaba (BA), para fortalecer o debate sobre o papel da luta coletiva na construção de uma sociedade mais justa.
Com o tema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar”, o encontro acontece como um espaço de reflexão, troca de experiências e fortalecimento da luta das mulheres Sem Terra, reafirmando a importância da organização popular para garantir direitos, dignidade e justiça no campo. Já na manhã de domingo (8), as Mulheres Sem Terra na Bahia se somaram à tradicional caminhada até o farol da barra, em Salvador. Mulheres vivas, em luta e sem medo, foi o lema que marcou o Ato. Por democracia com soberania pelo bem viver, pelo fim do feminicídio e da escala 6×1.
Outros atos de rua do 8M reuniram as camponesas Sem Terra nos municípios de Feira de Santana, Santo Sé e Barra Choça. Cerca de 400 companheiras estiveram em mobilização no estado durante os dois primeiros dias de Jornada.
CENTRO-OESTE
Goiás
Cerca de 500 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Distrito Federal e Entorno ocuparam, na madrugada desta segunda-feira (9), a área falida de 8 mil hectares da Usina da Companhia Bioenergética Brasileira (CBB), no município de Vila Boa de Goiás (GO). A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra e denuncia crimes trabalhistas e ambientais da empresa, além de cobrar do governo federal a desapropriação da área para a Reforma Agrária.
SUDESTE
Minas Gerais
Cerca de 700 mulheres do MST ocuparam os trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, em Tumiritinga (MG). A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra 2026 e denuncia que, após dez anos do rompimento da barragem de Fundão, na bacia do Rio Doce, ainda prevalece a impunidade e milhares de famílias seguem sem reparação.
Espírito Santo
Cerca de 300 famílias Sem Terra, em sua maioria mulheres, ocuparam terras da Samarco, no município de Anchieta (ES) durante a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, denunciando os dez anos de impunidade pelo crime ambiental de Mariana e reivindicando o assentamento de 1.500 famílias acampadas no estado.

São Paulo
Durante a madrugada desta segunda-feira (9), cerca de 400 mulheres de várias regiões do estado de São Paulo ocuparam a fazenda Santo Antônio, localizada no município de Presidente Epitácio, região do Pontal do Paranapanema, extremo Oeste do estado. A ação busca pressionar o governo do estado sobre a arrecadação de terras para a Reforma Agrária e resolver a situação de vulnerabilidade social das famílias Sem Terra que, em alguns casos, aguardam a mais de 20 anos acampadas. Em especial das mulheres, que sem perspectivas de melhoria da qualidade de vida nas cidades, por falta de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento socioeconômico, e somado aos índices de violência doméstica, formam um dos grupos sociais de maior vulnerabilidade social. Encontrando, na Reforma Agrária Popular, uma possibilidade de melhorar a qualidade de vida.

A fazenda Santo Antônio, sob posse de Maria Alexandrina Pereira e Maria de Fátima Oliveira Pereira das Neves, possui 1.675 hectares de terras devolutas, públicas, mas que o Estado ainda não tomou a decisão política de arrecadação para fins de Reforma Agrária, conforme rege o Art. 184 da Constituição Federal, continuando sob posse dos latifundiários para exploração de pecuária extensiva.
Porém, ainda na manhã desta segunda- feira (9), a Polícia Militar de São Paulo foi ao acampamento na fazenda Fazenda Santo Antônio, em Presidente Epitácio (SP) e de forma truculenta, com ameaças e o uso de bombas de efeito lacrimogêneo realizou o despejo ilegal das camponesas, mobilizadas no latifúndio.
No domingo, 8 de março, cerca de 70 Mulheres Sem Terra também ocuparam a Avenida Paulista, na capital paulista, juntamente com as mulheres da cidade para denunciar todas as formas de violência contra as mulheres, reivindicando vida digna, liberdade e justiça. Durante o ato também houve declarações de solidariedade internacionalista às mulheres palestinas, que seguem enfrentando a violência do Estado sionista de Israel, e às mulheres, meninas e crianças do Irã, vítimas da violência imperialista.
SUL
Rio Grande do Sul
Cerca de 500 mulheres Sem Terra ocuparam, nesta segunda-feira (9), uma área de 400 hectares da Fepagro em São Gabriel (RS). A mobilização cobra a destinação da área para assentamentos de famílias acampadas e o reassentamento de atingidos pelas enchentes de 2024 no estado. A área em São Gabriel é simbólica para o Movimento, além de ser a maior da Fepagro. O local ficou marcado pela marcha de 2003 e pelo assassinato de Elton Brum da Silva, membro do MST, que ocorreu em 21 de agosto de 2009, quando a Brigada Militar o executou com um tiro de calibre 12 pelas costas, em uma das mais violentas ações de reintegração de posse de um latifúndio improdutivo, a Fazenda Southall.

O município conta atualmente com dez assentamentos, reunindo mais de 740 famílias assentadas. Cerca de 100 produtores fornecem alimentos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Outras 250 famílias se dedicam à produção de leite, grãos como feijão, milho e arroz, também mel e carne. Além da produção voltada à comercialização, todas as famílias assentadas cultivam alimentos para a subsistência em seus lotes. Os assentamentos também participam de diversas feiras na cidade, em sua maioria organizadas pelas mulheres, que também produzem uma diversidade de artesanatos.
Paraná
Cerca de mil Mulheres Sem Terra marcharam pelas ruas de Rio Bonito do Iguaçu (PR), na manhã desta segunda-feira (9). A marcha faz parte da Jornada Nacional de Lutas do Dia Internacional das Mulheres e carrega solidariedade e denúncia. Solidariedade a todas as famílias e comunidades afetadas pela catástrofe climática e denúncia às violências de gênero, à destruição da natureza e à crise ambiental.
Com faixas e batucadas, a caminhada terminou no espaço onde era o Colégio CERBI, quase totalmente destruído pelo tornado. No local também foi realizado o seminário “Os impactos da crise ambiental, mulheres e agroecologia”, com a participação de mulheres, representantes de movimentos sociais, instituições públicas e especialistas para debater os efeitos da crise climática sobre a vida das mulheres do campo.
*Editado por Solange Engelmann



