Aromas de Março
Amanhecer por Marielle e Anderson: trazemos conosco a marcha da libertação de todas e todos
Não serei interrompida…

Foto: Mídia Ninja
Por Dandara Stumer; B. Onça e Maria José*
Da Página do MST
Oito anos após o assassinato de Marielle Franco e Anderson Silva, continuamos afirmando que o enfrentamento à violência contra as mulheres é uma luta de toda a sociedade. Dados do DIEESE (2026) mostram o que sentimentos com toda força em nossa pele: que os números crescentes de feminicídios na última década expressam uma realidade consequente de uma sociedade que tem como alicerce de seu projeto de poder as desigualdades estruturais, econômicas, políticas, sociais, raciais e de gênero. Portanto, combater o feminicídio e às violências contra meninas e mulheres precisa ser enfrentado como uma prioridade política, pois integra o nosso projeto de sociedade.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025, foram registrados 1.548 feminicídios no Brasil, uma média de quatro casos por dia. Este número é 190% superior ao registrado 10 anos antes, quando houveram 534 casos registrados e o feminicídio não era tipificado como crime no Brasil. Entre 2015 e 2025, o crescimento foi contínuo: foram observadas, entre os anos de 2015 e 2016, um aumento de 46,1% e, entre 2016 e 2017, um percentual de 31,5%. As maiores altas coincidem com a ascensão da direita no Brasil, período em que ocorreu o desmonte das políticas voltadas à proteção das mulheres e foram impostas restrições orçamentárias pelo Teto de Gastos.
Esses dados apontam para a necessidade de mudanças estruturais na sociedade. E a memória de Marielle Franco é um símbolo dessa luta coletiva, que inspira a lutar e enfrentar essa realidade produzida pela lógica de um sistema capitalista em crise, que segue avançando sob os nossos territórios, a natureza e os nossos corpos.
Neste ano de 2026, a data do 8 de março foi demarcado pela Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra, que teve como o lema: Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar. Milhares de mulheres Sem Terra demonstrara sua fúria, se rebelaram, demonstrando mais uma vez que o projeto de Reforma Agrária Popular é um caminho para a construção de um outro projeto de país, que passa pela defesa da vida das mulheres e meninas e que o combate às violências perpassa as questões ambientais, de classe, de gênero e raça. Enfrentar as violências, ocupar e organizar foram gritos ecoados por todo o Brasil, com ações de denúncia, ocupações, marchas e protestos em todas as grandes regiões do país.
Março continua em nós, e neste dia 14, após oito anos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, os aromas de março se misturam entre mulheres do campo e da cidade, para ecoar que “SOMOS TODAS MARIELLES!” Reafirmamos a memória de luta e resistência de Marielle Franco. Eleita como vereadora com a quinta maior votação Municipal do Rio de Janeiro, em 2016. Em seu legado como parlamentar defendeu arduamente pautas como direitos das mulheres, atuando como presidente da Comissão de Defesa da Mulher, da população LGBTI+, da População Negra e dos Direitos Humanos.
No dia 24 de fevereiro, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), após dois dias de julgamento, condenou os Irmãos Brazão pelo assassinato de Marielle e Anderson. Na época do crime, Domingos Brazão era Conselheiro do Tribunal de Contas do estado do Rio de Janeiro e Chiquinho Brazão era vereador do Município do Rio de Janeiro, ambos receberam uma sentença de 78 anos e 3 meses de prisão. A prisão dos mandantes do crime contra a vida de Marielle e Anderson trouxe justiça, mas não trouxe paz, pois estamos vendo a cada dia o aumento das cifras de feminicídio e de violência política contra nós mulheres, em especial as mulheres pretas!
Não nos trouxe paz, pois, assim como Marielle, muitas mulheres continuam sendo os principais alvos da necropolítica brasileira. Quantas vereadoras, líderes comunutárias, militantes, estudiosas, operárias, mães de santo, defensoras ambientais, majés indígenas, camponesas, artistas populares não tiveram suas vozes caladas através da violência estatal e paralela? Damos um salve a Mãe Bernadete, Irmã Dorothy, Julieta Hernández. Maria do Espírito Santo, Nega Pataxó e tantas outras mulheres que ousaram desafiar o poder patriarcal, capitalista e racista!
Por tudo isso, a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra, que começou no dia 8 de março e segue espalhando seus aromas pelo país, vem avisar à sociedade brasileira que a Reforma Agrária Popular é reparação histórica, que defender a natureza, o fim da escala 6X1, combater o feminicídio, a fome e as desigualdades sociais são trincheiras para pavimentar a sociedade que queremos e pela qual lutamos: uma sociedade livre do patriarcado, do racismo, da exploração e das opressões! Em memória de Marielle Franco, reafirmamos o nosso compromisso com a luta contra as diversas formas de violências, por nossos corpos e territórios, livres da exploração e das opressões e pela Reforma Agrária Popular.
A luta é nossa força. A organização popular é o nosso chão, é o nosso caminho para a construção de uma sociedade justa, livre, solidária e socialista!
Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!
REFERÊNCIAS:
As múltiplas formas de violência contra a mulher Boletim Especial 8 de Março de 2026 – Dia Internacional da Mulher – DIEESE. Acesso em: 11 de março. Site: https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2026/2026mulher.pdf
*Militantes, educadoras e mulheres negras dos estados do Paraná, Pará e Minas Gerais, fazem parte do Coletivo Terra, Raça e Classe do MST
**Editado por Lays Furtado



