Reforma Agrária Popular
MST lança campanha em defesa dos acampamentos nas terras da Usina Guaxuma, em Alagoas
Com famílias vivendo nos territórios há mais de 10 anos, região se torna referência em diversidade de produção, onde antes existia apenas a monocultura da cana-de-açúcar

Por Anidayê Angelo
Da Página do MST
Depois de mais de uma década de resistência e produção de alimentos, famílias Sem Terra voltam a enfrentar a ameaça de despejo nas áreas da antiga Usina Guaxuma, em Alagoas. Diante da possibilidade de reintegração de posse, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lança a Campanha em Defesa dos Acampamentos do MST nas áreas da Usina Guaxuma, mobilizando a sociedade para defender o direito das famílias que vivem e produzem no território há mais de 10 anos.
As áreas chegaram a ser objeto de negociação com o governo do estado para a criação de assentamentos da Reforma Agrária. No entanto, o processo foi interrompido, colocando novamente as famílias sob insegurança e ameaça de despejo. Para o Movimento, a situação evidencia a necessidade de retomada do diálogo e de soluções concretas que garantam o direito das famílias à terra e à continuidade da produção de alimentos.
“Defender esses territórios é defender o direito das famílias de viver e produzir com dignidade. São mais de dez anos de trabalho coletivo, transformando áreas que antes serviam apenas ao latifúndio em espaços de produção de alimentos para o povo. O que está em jogo aqui não é só a permanência dessas famílias, mas a defesa de um projeto de campo que coloque a terra a serviço da vida e não da concentração e do lucro”, afirmou Margarida Silva, da Coordenação Nacional do MST.
A campanha busca dar visibilidade à realidade das famílias acampadas e denunciar a contradição que se impõe: enquanto grandes extensões de terra permanecem concentradas e voltadas para monocultivos, centenas de trabalhadores e trabalhadoras que produzem os alimentos que vão para as mesas das cidades e feiras da região são ameaçados de perder tudo. Defender essas famílias é, portanto, também defender a produção de alimentos saudáveis e a função social da terra.
Entenda o caso


Pertencente à massa falida do Grupo João Lyra, a região da antiga Usina Guaxuma abriga diversos acampamentos organizados por movimentos sociais do campo em Alagoas. Ao todo, são cinco acampamentos organizados pelo MST: Eldorado do Carajás, Marciana Serafim, Papa Francisco, Santa Maria e Imburi — todos fruto de ocupações realizadas em 2014 e que hoje se tornaram referência de produção e resistência no território.
O acampamento Eldorado do Carajás reúne cerca de 100 famílias que vivem e produzem na área. Já o acampamento Marciana Serafim conta com aproximadamente 50 famílias acampadas. Na região também estão os acampamentos Papa Francisco, Santa Maria e Imburi, que somam dezenas de famílias organizadas na luta pela terra — 50 no Papa Francisco, cerca de 30 no Santa Maria e aproximadamente 70 no Imburi. Juntas, essas comunidades representam a persistência da luta pela terra e a capacidade de transformar áreas antes dominadas pelo latifúndio em territórios de vida, trabalho e produção de alimentos.
Cercadas historicamente por grandes latifúndios de cana-de-açúcar, as áreas ocupadas pelas famílias Sem Terra demonstram, na prática, o que o Movimento chama de “fazimento”: a terra sendo colocada concretamente a serviço da vida. Nos roçados e quintais produtivos, as famílias cultivam macaxeira, batata, abacaxi, melancia, feijão, banana e maracujá, além de uma grande diversidade de hortaliças como quiabo, alface, couve e muito mais.

A variedade de alimentos produzidos ao longo de todo o ano é garantida também pelo uso de sistemas de irrigação organizados pelas próprias famílias. Essa diversidade contrasta diretamente com a lógica da monocultura predominante na região, mostrando que a agricultura camponesa é capaz de produzir alimentos saudáveis, gerar renda e fortalecer a soberania alimentar.
Com a campanha, o MST busca reafirmar que defender as famílias acampadas nas terras da antiga Usina Guaxuma é defender a continuidade de um projeto de campo que produz vida, trabalho e comida de verdade para o povo brasileiro. As famílias seguem mobilizadas, afirmando que ocupar, resistir e produzir continuam sendo os caminhos para garantir terra, dignidade e alimento na mesa do Brasil.
*Editado por Fernanda Alcântara



