Venezuela em Foco
Boletim nº 25 – Caracas-Havana: novo alvo de Washington
Boletim Venezuela em Foco #25

Da Página do MST
A Venezuela registrou ampla mobilização na primeira consulta popular nacional realizada após o sequestro de Maduro, em 8 de março, com participação de comunidades em todo o país na definição direta de projetos locais. O processo reafirma o papel das comunas como eixo da organização política e da gestão territorial, consolidando um modelo de democracia participativa em meio a um cenário de pressões externas.
No plano internacional, Caracas e Havana receberam delegações de solidariedade vinculadas a articulações como Assembleia Internacional dos Povos (AIP) e ALBA Movimentos, reforçando a construção de alianças políticas regionais diante da escalada de tensões geopolíticas. As agendas evidenciam a tentativa de consolidar um eixo de cooperação e resistência frente à pressão dos Estados Unidos sobre países da região.
Ainda no campo político, o governo venezuelano reiterou sinais de abertura ao diálogo. Delcy Rodríguez, presidente da Venezuela, afirmou haver espaço para o encontro e para a convivência democrática, ao mesmo tempo em que celebrou o reconhecimento legal por parte dos Estados Unidos como uma oportunidade para avançar na estabilidade institucional.
Na política interna, o governo apresentou resultados da Lei de Anistia, com 7.727 pessoas beneficiadas, segundo o deputado Jorge Arreaza. A medida é apresentada como parte de uma estratégia de pacificação e reorganização institucional após a crise desencadeada pela ofensiva norte-americana e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
No campo econômico, os Estados Unidos ampliaram isenções de sanções, permitindo maior fluxo de investimentos nos setores de energia elétrica e fertilizantes, ao mesmo tempo em que mantêm instrumentos de controle sobre áreas estratégicas da economia venezuelana. O movimento reforça a ambiguidade da política norte-americana: flexibilização seletiva combinada com capacidade de pressão estrutural.
A Venezuela também avança em sua inserção internacional. Em articulação com a Rússia, o chanceler Yván Gil reafirmou a defesa de uma ordem multipolar e o fortalecimento de alianças estratégicas. Na região, Caracas e Bogotá ampliam a agenda bilateral, com avanços em comércio, segurança e energia, incluindo a primeira exportação de gás venezuelano para a Colômbia, sinalizando retomada da integração regional.
O cenário continental, no entanto, segue tensionado. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a adotar retórica agressiva ao afirmar que pretende “tomar” Cuba, ampliando o clima de instabilidade no Caribe. A declaração ocorre em meio ao endurecimento de exigências de Washington ao governo cubano e ao agravamento da crise energética na ilha.
Em resposta, lideranças latino-americanas e movimentos sociais intensificam demonstrações de solidariedade. O ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador criticou duramente o bloqueio econômico contra Cuba, enquanto parlamentares e sindicalistas brasileiros organizam uma caravana internacional de ajuda humanitária. O governo cubano, por sua vez, trabalha para restabelecer gradualmente o fornecimento de energia após um apagão que expôs a fragilidade do sistema sob sanções.
Apesar do alcance das sanções norte-americanas, sua eficácia em provocar mudanças políticas estruturais segue limitada. Ao mesmo tempo, o cenário internacional, marcado por conflitos envolvendo Estados Unidos, Irã e aliados, amplia os impactos sobre cadeias energéticas e a segurança alimentar global.
Entre sinais de distensão diplomática, reorganização interna e pressões geopolíticas persistentes, a Venezuela se move em um cenário de disputa prolongada, no qual soberania, energia e correlação de forças internacionais seguem no centro do tabuleiro.
Para saber mais:
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Artigo – As ações de Trump no Irã e na Venezuela mostram as limitações das sanções dos EUA
Artigo – O que você precisa saber sobre o impacto da guerra entre EUA, Israel e Irã na segurança alimentar global?
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