Festa da Colheita

O grão dourado que alimenta a esperança é celebrado na Festa da Colheita do Arroz Agroecológico

Em ato político a produção agroecológica foi destacada como parte de um projeto mais amplo de desenvolvimento rural

A 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico reuniu centenas de famílias assentadas, lideranças políticas, representantes de órgãos públicos e convidados internacionais
23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico em assentamento gaúcho homenageia Frei Sérgio | Crédito: Clarissa Londero

Por Fabiana Reinholz E Marcela Brandes
Do Brasil de Fato

Sob o sol desta sexta-feira (20), o Assentamento Capela, em Nova Santa Rita, voltou a se tornar um dos principais pontos de encontro da agricultura camponesa no país. A 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico reuniu centenas de famílias assentadas, lideranças políticas, representantes de órgãos públicos e convidados internacionais em um momento que combinou celebração, afirmação política e anúncio de novos investimentos.

Em uma área de 2.800 hectares cultivados por cerca de 290 famílias distribuídas em sete municípios do Rio Grande do Sul, a expectativa é de uma safra de aproximadamente 14 mil toneladas, consolidando a produção como referência continental no cultivo de arroz sem uso de agrotóxicos.

23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico em assentamento gaúcho
23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico em assentamento gaúcho – Foto: Nacho Lemus/Telesur | Crédito: Nacho Lemus/Telesur 1

Mais do que um evento produtivo, a atividade foi marcada por um forte conteúdo simbólico e político. A abertura contou com uma mística que resgatou a trajetória da luta pela terra, com referências a lideranças históricas da agroecologia e da organização popular, como o Frei Sérgio.

Ferramentas de trabalho e elementos que remetem à ocupação das terras foram utilizados para reforçar a ideia de continuidade entre passado, presente e futuro. Ao longo do dia, falas de dirigentes, parlamentares e representantes de governo buscaram situar a produção agroecológica como parte de um projeto mais amplo de desenvolvimento rural.

Colheitadeiras entram em campo no Assentamento Capela, marcando o início de mais uma safra histórica do arroz agroecológico | Foto: Thalisson Freitas

Memória, luta e projeto político

A dimensão histórica da luta pela terra esteve presente nas falas e nas encenações realizadas durante o evento. As falas destacaram que a produção atual é resultado de décadas de organização social, coletiva e resistência.

João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), enfatizou a importância de figuras históricas da agroecologia e da luta socioambiental. Ao mencionar nomes como Ana Primavesi, Chico Mendes e Frei Sérgio Görgen, afirmou que “dedicaram a vida inteira com as suas ideias e com a sua prática a organizar o povo para produzir comida boa e salvar a natureza; algum dia, quem sabe, a Igreja Católica vai criar vergonha e nomeá-lo santo”.

João Pedro Stédile participa do ato político e destaca a importância da agroecologia e da soberania alimentar | Foto: Clarissa Londero

A fala conectou a produção agrícola à dimensão ética e política da agroecologia, apontando para um modelo que articula preservação ambiental e organização social. Ao longo do evento, essa perspectiva foi retomada por diferentes participantes, que destacaram o papel da reforma agrária como instrumento de transformação social.

O deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) também reforçou essa linha ao relembrar o legado de seu pai, histórico dirigente do movimento. Em sua intervenção, afirmou que “os tubarões do passado exploraram nossos pais. Os tubarões atuais se atravessaram nos trilhos para tentar apagar nosso brilho. Mas nós vamos jogar duro para que os tubarões futuros não explorem nossos filhos”. A declaração foi apresentada como uma crítica à concentração de renda e à estrutura fundiária brasileira, ao mesmo tempo em que buscou afirmar a permanência da luta por direitos no campo.

Produção, tecnologia e soberania alimentar

A colheita do arroz agroecológico foi apresentada como resultado de um processo que combina conhecimento tradicional, organização coletiva e incorporação de tecnologias. Durante o ato político, Stedile destacou a mudança de postura do movimento em relação à mecanização agrícola.

Segundo ele, houve um período em que as máquinas eram vistas com desconfiança, por estarem associadas ao agronegócio. No entanto, essa percepção foi sendo revista ao longo dos anos. “Isso aumenta a produtividade da terra porque diminui a quantidade de sementes e garante a fertilidade, já que, ao plantar a muda, não se perde mais para os pássaros ou para a água”, explicou, ao comentar o uso de equipamentos adaptados ao cultivo agroecológico.

Trabalhadores rurais acompanham a abertura da colheita, celebrando anos de organização e resistência no campo – Foto: Clarissa Londero

Stedile também mencionou acordos firmados com instituições chinesas para o desenvolvimento de máquinas voltadas à agricultura familiar. A iniciativa prevê a instalação de fábricas no Brasil e a ampliação do acesso a tecnologias adequadas às necessidades dos pequenos produtores.

Mulheres assentadas protagonizam a produção e a organização da colheita no Assentamento Capela | Foto: Clarissa Londero

Outro ponto abordado foi a produção de bioinsumos. Experiências em andamento no estado utilizam tecnologias que permitem transformar resíduos orgânicos em adubo em poucos dias, reduzindo custos e aumentando a autonomia produtiva. Para o dirigente, esse tipo de iniciativa é central para consolidar um modelo agrícola sustentável.

Ao tratar do destino da produção, Stedile ressaltou o papel das políticas públicas. “O nosso arroz não é para a classe média, o nosso arroz é para a classe trabalhadora. E por isso que o PNAE e o PAA têm que distribuir para que chegue na escola, no hospital, no bairro e na cozinha solidária”, afirmou, referindo-se aos programas de aquisição de alimentos e de alimentação escolar.

Abastecimento e combate à fome

A relação entre a produção dos assentamentos e as políticas de segurança alimentar foi destacada pelo presidente da Companhia Nacional de Abastecimento, Edegar Pretto. Ele apresentou dados sobre o papel da agricultura familiar no abastecimento de programas sociais.

Edegar Pretto destaca o papel da produção dos assentamentos no combate à fome e no abastecimento popular | Foto: Clarissa Londero

Segundo Pretto, 70% da comida consumida nas centenas de cozinhas solidárias do Brasil são de produtos oriundos de assentados da reforma agrária. A declaração buscou evidenciar a contribuição direta da produção agroecológica para o enfrentamento da fome no país.

Ele também mencionou a retomada dos estoques públicos de alimentos como estratégia de regulação de preços e garantia de abastecimento. De acordo com ele, a Conab conta atualmente com cerca de 500 mil toneladas de arroz armazenadas, resultado de investimentos recentes.

Ao comentar a importância simbólica da produção, afirmou que “parte do que eles comem vêm dos assentados da reforma agrária; as crianças nas escolas estão fazendo refeição com comida boa pelo que vocês produzem”. Para Pretto, a atuação dos agricultores assentados está diretamente relacionada à melhoria dos indicadores de segurança alimentar.

O presidente da Conab também destacou que a retirada do Brasil do Mapa da Fome envolve múltiplos fatores, mas ressaltou a participação da agricultura familiar nesse processo. “A eliminação da fome tem uma assinatura bonita que ficará marcada para a história dos assentados da reforma agrária”, declarou.

Convênios e reconstrução pós-enchentes

O evento também foi marcado pela assinatura de convênios e acordos voltados ao fortalecimento da agroecologia e à recuperação de áreas afetadas por eventos climáticos extremos. Representantes do governo federal detalharam os investimentos previstos.

A secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, informou que foram firmados convênios no âmbito do programa Ecoforte, destinando mais de R$ 4 milhões a redes de cooperação ligadas à produção agroecológica. Os recursos serão aplicados em iniciativas voltadas à transição produtiva, com foco no uso de bioinsumos e no manejo sustentável.

Festa da Colheita reafirma o compromisso com a soberania alimentar e a produção sustentável no campo – Foto: Clarissa Londero

Ela também destacou os investimentos realizados após as enchentes que atingiram o estado. Segundo a secretária, mais de R$ 180 milhões foram destinados a créditos de fomento para cerca de 17 mil famílias assentadas. Ao comentar o significado da produção, afirmou que “em cada grão tem a história de famílias que ocuparam a terra, que lutaram, que resistiram e que hoje produzem; esse arroz sintetiza o nosso projeto de desenvolvimento rural”.

No campo ambiental, foi firmado um termo de cooperação para a formação de agentes ambientais populares. A iniciativa prevê a capacitação de 150 pessoas em dez municípios da região Metropolitana, com foco na prevenção e resposta a desastres climáticos.

Produção coletiva de arroz agroecológico mobiliza centenas de famílias em sete municípios do Rio Grande do Sul – Foto: Clarissa Lodero

Edel Moraes, da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, destacou que o objetivo é ampliar a capacidade de atuação das comunidades. Segundo ela, “se colhe aquilo que a gente cultiva, e aqui se cultiva vida”, ao relacionar a produção agroecológica à preservação ambiental.

Solidariedade internacional e articulação política

A dimensão internacional também esteve presente na festa. Representantes estrangeiros acompanharam o evento e participaram das discussões sobre cooperação e solidariedade entre povos.

Durante o ato, foi anunciado o envio de sementes para Cuba como forma de apoio à produção agrícola no país caribenho. A iniciativa foi apresentada como parte de uma relação histórica de troca de experiências.

embaixador cubano Victor Manuel Cairo Palomo agradeceu o gesto e destacou o significado político da ação – Foto: Clarissa Londero

O embaixador cubano Victor Manuel Cairo Palomo agradeceu o gesto e destacou o significado político da ação. Segundo ele, “esta festa é uma realidade e uma demonstração dessa solidariedade com o povo cubano. Cuba não está sozinha”.

O ex-governador Olívio Dutra também participou do evento e abordou o papel da organização popular. Em sua fala, afirmou que “o ser humano é um ser naturalmente político e cada um de nós temos que ser sujeito nela”, ao defender a participação ativa da população na construção de políticas públicas.

Olívio Dutra participa da Festa da Colheita e defende a política como construção coletiva e popular – Foto: Clarissa Londero

deputado federal Dionilso Marcon, residente do assentamento há 32 anos, reforçou a importância da ocupação da terra para a dignidade humana, lembrando que 99 das famílias que ali vivem estavam sob lonas pretas e hoje contam com escola e produção pujante. Marcon desafiou os grandes latifundiários a compararem sua produtividade com a dos assentamentos, afirmando que “não adianta nós ficar escondido, porque eles conhecem a gente pelo tranco, conhece a gente pelo rosto”.

Em uma fala contundente contra a violência, o deputado também convocou os homens a combaterem o feminicídio, argumentando que o clima de machismo foi acirrado no governo anterior e que “não adianta falar com as mulheres; nós temos que falar com os homens e vamos botar esse machista na cadeia”.

Protagonismo feminino e a luta antifascista

A ex-deputada federal Manuela D’Ávila trouxe um testemunho sobre a necessidade da luta organizada para a disputa de rumos na sociedade. Para ela, o MST ensinou que a vida no governo não é fácil e exige mobilização constante em defesa da reforma agrária e da agroecologia.

Manuela também destacou a solidariedade internacional, citando Cuba como um exemplo de dignidade onde a saúde pública e a educação são prioridades, e afirmou que “nós temos que nos inspirar em Cuba para defender os nossos candidatos e candidatas este ano, entendendo que o que está em jogo é o destino das trabalhadoras e dos trabalhadores do Brasil”.

Manuela D’Ávila ressalta a importância da organização popular e da defesa da democracia – Foto: Clarissa Londero

A deputada federal Fernanda Melchionna complementou essa visão ao saudar as jornadas de março e a força das mulheres camponesas que enfrentam a repressão no campo. Melchionna enfatizou a importância de organizar uma luta antifascista internacional, anunciando que Porto Alegre receberá uma conferência mundial sobre o tema, e defendeu a necessidade de eleger mulheres de esquerda e combativas para enfrentar a cultura do assédio e o feminicídio.

Segundo a deputada, “não basta ser mulher, é preciso estar do lado das lutas do nosso povo; e a Manuela junta todas essas lutas”. Essa percepção de política como construção do bem comum foi reforçada pelo ex-governador Olívio Dutra, que definiu o ser humano como um ser naturalmente político e defendeu que a política deve ser feita com o protagonismo das pessoas comuns.

Fernanda Melchionna acompanha a colheita e reforça a defesa das mulheres e da luta social no campo | Foto: Clarissa Londero

Colheita como síntese de um projeto

Ao longo da atividade, a colheita do arroz foi apresentada não apenas como resultado de um ciclo produtivo, mas como síntese de um projeto político, econômico e social. A combinação entre produção agroecológica, políticas públicas e organização coletiva foi apontada como elemento central para o desenvolvimento rural.

Entre celebrações, anúncios e discursos, a festa reafirmou o papel da agricultura familiar na produção de alimentos e no abastecimento interno. Ao mesmo tempo, evidenciou disputas em torno de modelos de desenvolvimento no campo, com diferentes visões sobre o uso da terra, da tecnologia e dos recursos naturais.

O dia foi encerrado com apresentações musicais e de dança no Festival por Terra, Arte e Pão.