Internacionalismo
Cuito Cuanavale: o ponto de inflexão e libertação da África Austral
Quase meio milhão de cubanos cruzaram o Atlântico para lutar ao lado do povo angolano em uma das maiores missões internacionalistas do século XX

Por Judite Santos, Setor de Internacionalismo do MST
Da Página do MST
A Operação Carlota e Cuito Cuanavale articulam dois aspectos decisivos da guerra de independência angolana. A primeira simboliza a expressão de uma das mais longas travessias do internacionalismo cubano, que contribuiu de forma determinante para a derrota da ofensiva contrarrevolucionária e, consequentemente, para a vitória de Angola a partir de 1975; a segunda constituiu o ponto de inflexão que redefiniu a geopolítica da África Austral.
Em meio a uma guerra civil de grandes proporções, desencadeada no processo de luta anticolonial contra o decadente regime português, confrontaram-se em solo angolano as potências da Guerra Fria: de um lado, as forças revolucionárias do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apoiadas por Cuba e pela União Soviética e, de outro, as forças contra-revolucionárias da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), sustentadas pela ingerência sul-africana nos conflitos regionais através das políticas de desestabilização financiadas pelos Estados Unidos, na dinâmica da Guerra Fria.
Nesse contexto, a participação de Cuba no conflito angolano revelou-se decisiva. Tropas cubanas, muitas compostas por negros descendentes de africanos escravizados, lutaram ao lado das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), desempenhando papel central desde o início da guerra, passando por sucessivos combates, ora encarando derrotas, ora impondo vitórias, até os desdobramentos que culminaram na batalha final em Cuito Cuanavale.
Ao conter o avanço inimigo para impedir o cerco à capital Luanda e enfrentar as forças regulares sul-africanas e contingentes mercenários, a solidariedade cubana não apenas contribuiu para assegurar a soberania angolana, como também alterou de maneira definitiva o equilíbrio de forças políticas e militares na região.
A Batalha de Cuito Cuanavale
No encontro dos rios Cuito e Cuanavale, a guerra irrompeu rasgando o silêncio da savana na província de Cuando Cubango, sudeste de Angola. Foi ali o palco de uma das mais decisivas batalhas da história africana contemporânea. Cuito Cuanavale tornou-se o epicentro de um confronto militar de grandes proporções, frequentemente descrito como um evento geopolítico de impacto duradouro e apontado por historiadores como um ponto de inflexão estratégico na redefinição do mapa político da região, sendo também apelidado de “Stalingrado Negro”.
Considerada uma das mais transcendentais batalhas após a Segunda Guerra Mundial, Cuito Cuanavale foi determinante para o desfecho e consolidação dos processos independentistas na África Austral e contribuiu definitivamente para o colapso do regime de apartheid na África do Sul. Entre novembro de 1987 e março de 1988, uma intensa ofensiva militar deslocou o eixo da guerra angolana para o sul do país, aproximando-se da fronteira com a Namíbia, sob ocupação ilegal do exército sul-africano.
Cuito Cuanavale encontrava-se sitiada pelas forças da UNITA e da SADF (Força de Defesa Sul-Africana), apoiadas pelos Estados Unidos em plena Guerra Fria. Em resposta, Cuba, em coordenação com o MPLA, organizou uma contraofensiva permanente para assegurar a definitiva vitória que levaria à independência total e completa de Angola.
Ofensiva e estratégia militar: impactos históricos e geopolíticos
Cuba, assim como nos dias atuais, convivia sob permanente ameaça de invasão por parte dos Estados Unidos. Ainda assim, a Revolução cubana não hesitou e, em um esforço de grande envergadura logística e militar, promoveu o envio massivo de tropas e equipamentos cruzando o Atlântico com parte da sua própria defesa nacional para prestar solidariedade à luta angolana.
Um amplo contingente de unidades e meios de combate desembarcou em Angola, ocupando diferentes posições estratégicas para a realização da contraofensiva militar. As tropas foram posicionadas tanto no sudoeste, em direção à Namíbia, quanto para o leste, reforçando diretamente a defesa de Cuito Cuanavale. A unidade entre as FAPLA e as forças cubanas constituiu-se numa resistência capaz de enfrentar as forças sul-africanas, conforme define Fidel Castro:
Um rio de unidades e meios de combate cruzou rapidamente o Atlântico e desembarcou na costa Sul de Angola para atacar pelo Sudoeste em direção à Namíbia, enquanto a 800 quilômetros pelo Leste, unidades especiais avançaram para Cuito Cuanavale e ali, em união com as tropas angolanas que recuavam, prepararam uma armadilha mortal às poderosas forças sul-africanas que avançavam em direção àquela base aérea. Nessa ocasião reuniram-se 55 mil soldados cubanos em Angola”
(FIDEL CASTRO, 2005)
A estratégia cubana baseou-se no emprego de meios antiaéreos, blindados, artilharia pesada e forças especiais, com o objetivo de conter o avanço inimigo e reverter a correlação de forças. Fidel Castro coordenou diretamente a ofensiva final a partir do comando em Havana, evidenciando, assim, o elevado grau de envolvimento político e militar da Revolução Cubana com o processo angolano.
À medida que os combates se intensificavam, forças adicionais cubanas e angolanas avançavam rumo ao sul, pressionando as linhas inimigas e ampliando as condições para uma vitória estratégica. As sucessivas derrotas impostas às forças contrarrevolucionárias conduziram à abertura de negociações que resultaram no acordo tripartite entre Angola, Cuba e África do Sul. Os Estados Unidos tentaram de todas as maneiras excluir Cuba do processo de negociação, mas sua participação mostrou-se indispensável para a construção de uma solução final. Sem a presença de Cuba não haveria acordo de paz.
As negociações realizadas ao longo de 1988 resultaram na pactuação para a retirada de todas as tropas estrangeiras dos territórios angolano e namíbio, incluindo as forças cubanas. Esse entendimento foi formalizado por meio do Protocolo de Brazzaville e do Acordo de Nova York, firmado em dezembro de 1988, estabelecendo-se, assim, um cronograma para a retirada das tropas com supervisão internacional do processo de paz, o que significou uma derrota político-militar importante ao regime racista de Pretória.
O impacto da Batalha de Cuito Cuanavale ultrapassou o campo militar e contribuiu diretamente para a reconfiguração geopolítica da região com base em três processos simultâneos: a independência da Namíbia, o colapso decisivo do apartheid sul-africano e a consolidação da soberania angolana.
O legado da solidariedade internacional cubana
A mobilização de centenas de milhares de soldados que deixaram Cuba para lutar em solo angolano constituiu um marco histórico e simbólico de solidariedade, pois não só garantiu a vitória sobre Cuito Cuanavale, como consolidou uma das expressões mais emblemáticas do internacionalismo do século XX, sendo até os dias atuais a mais significativa missão internacionalista do povo cubano, na qual quase meio milhão de cubanos, entre militares e civis engajados em atividades técnicas e de saúde, participaram da gesta angolana que se estendeu por mais de uma década e meia, através da Operação Carlota entre 1975 e 1991.
O legado da Revolução Cubana foi reconhecido por importantes lideranças africanas como Sam Nujoma e Nelson Mandela, que destacaram a solidariedade cubana como elemento fundamental para os processos de libertação no continente africano.
A sua presença e os reforços enviados para a Batalha de Cuito Cuanavale têm uma importância verdadeiramente histórica. A derrota esmagadora do exército racista em Cuito Cuanavale foi uma vitória para toda a África! Essa derrota decisiva do exército racista em Cuito Cuanavale deu a Angola a oportunidade de desfrutar da paz e consolidar a sua soberania!”
(MANDELA, 1991)
Neste 23 de março, ao celebrar os 38 anos da Batalha de Cuito Cuanavale, devemos fazer memória ao legado dos combatentes heróicos, cubanos e angolanos, que elevaram a Batalha de Cuito Cuanavale à condição de marco histórico incontornável, simbolizando a convergência entre as lutas anticoloniais de libertação africana e a solidariedade internacional cubana. Hoje, Cuito Cuanavale permanece como memória viva, emblema de resiliência e altruísmo de um processo que redefiniu o curso da África Austral e imprimiu marcas duradouras nas relações entre Cuba e o continente africano.
Cuba, a pequena grande ilha caribenha, que historicamente se fez presente ao levar sua solidariedade às guerras de libertação dos povos do mundo, hoje, mais do que nunca, necessita da solidariedade internacional para enfrentar o severo bloqueio econômico imposto pelo imperialismo estadunidense. Quando atravessou mares e oceanos — seja nas lutas anticoloniais, seja por meio de suas brigadas médicas no enfrentamento da pandemia da Covid-19 —, jamais o fez movida pela expectativa de retorno, ou seja, esperando benefícios em troca, mas sim por um princípio ético. Como afirmou Fidel Castro, no encerramento do Primeiro Congresso do Partido Comunista:
Estão acostumados a pensar que quando um país faz algo é porque está procurando petróleo, ou cobre, ou diamante, ou algum recurso natural. Não! Não perseguimos nenhum interesse material, e é lógico que os imperialistas não o entendam. Estamos a cumprir um dever internacionalista elementar quando ajudamos o povo angolano!”
(FIDEL CASTRO, 1975)
Fiel à ética revolucionária, a pequena grande ilha que desafiou o império mais poderoso do mundo, dentro e fora de seu território, persiste na resistência cotidiana, reafirmando, diante das agressões imperialistas, que é precisamente sua resiliência que sustenta a dignidade e a altivez de seu povo.
**Editado por Fernanda Alcântara



