Cultura e Educação

“Se não fazemos cultura, alguém está fazendo por nós”

Coletivo de Cultura do MST em MG promove debate sobre indústria cultural e luta de classes no Centro Popular de Educação e Cultura Carolina Maria de Jesus

Foto: Matheus Teixeira

Por Matheus Teixeira
Da Página do MST

No dia 26 de março, o Coletivo de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Minas Gerais promoveu uma atividade reflexiva com os militantes do Movimento no exercício de unir o que a indústria cultural insiste em separar: pensamento crítico e criação coletiva.

Com o tema “Indústria Cultural: Conceito, Contexto e Enfrentamentos”, o encontro trouxe para o coração de Belo Horizonte duas vozes que há anos investigam as entranhas da produção cultural sob o capitalismo. Agatha Azevedo, doutoranda em Comunicação pela UFMG e integrante do setor de comunicação do MST, e Ana Chã, militante do Coletivo de Cultura do MST, pesquisadora e autora do livro Agronegócio e Indústria Cultural (Expressão Popular, 2018), conduziram uma roda de conversa que oscilava entre a teoria crítica e a experiência vivida nos territórios de luta.

O que te entretém também te controla

Foto: Ana Miranda

“Aquilo que te entretém, te deixa feliz, para que você siga trabalhando e produza mais, são formas de controle da nossa vida, da nossa identidade”, abriu Agatha Azevedo, provocando o círculo. “Nessa lógica, a gente só recebe, consome cultura, mas não cria, só aceita.”

A fala tocou num ponto central da crítica frankfurtiana: a indústria cultural não é apenas entretenimento, é braço do capital. Seu produto mais valioso não é o filme, a música ou a série, é o consentimento. É a ideia, repetida até virar senso comum, de que a vida se resume a trabalhar e consumir.

Ana Chã complementa: “O fato de a indústria cultural manter sua força é que ela não revela sua forma, mas segue reproduzindo.” A força está justamente na invisibilidade do mecanismo. Quando a cultura se naturaliza como mercadoria, a dominação se torna silenciosa, potente e capaz de atravessar gerações, enraizando-se e ganhando aspectos que a fazem ser tratada como algo natural na sociedade.

O debate dialogou com o que diz Lupércio Damasceno, militante do Coletivo de Cultura do MST citado na obra de Ana: “A cultura popular está para a Reforma Agrária Popular tal como o agronegócio está para a indústria cultural”. Em outras palavras: se o agronegócio usa a indústria cultural para construir hegemonia, a cultura popular é o território onde os movimentos sociais podem semear outra visão de mundo.

A festa que foi roubada

Agatha Azevedo. Foto: Matheus Teixeira

Ana trouxe um exemplo que provocou inquietações e reflexões. “A festa que celebra a agricultura camponesa não é a mesma que celebra o agronegócio. As músicas não são as mesmas, as comidas não são as mesmas. O que era a festa da colheita se tornou a festa da safra.” A diferença não é apenas de nome, é de sentido. Na festa da colheita, celebra-se o trabalho coletivo, a terra que dá fruto, a comunidade que se reúne. Na festa da safra, a versão agroindustrial celebra a produtividade, o maquinário e o latifúndio com eficiência. Uma é feita pelas mãos que plantam, a outra, pelas estratégias de marketing que vendem um país que não existe.

“A cultura popular na indústria cultural não está naquilo que vem e é produzido pelo povo”, afirmou Ana, desfazendo um equívoco comum. “Mas sim naquilo que é feito para as massas, que vende muito.” É a diferença entre ser sujeito e ser público-alvo. Entre criar e consumir.

Se não fazemos, alguém faz por nós

Foto: Matheus Teixeira

Agatha trouxe a mesma inquietação: como somos produtores e consumidores de cultura? E colocou no debate a seguinte questão: “Se eu não faço cultura, eu vou consumir algo que não é meu, algo que não é do meu território.” A frase encontrou acolhida nos corpos que ali estavam. Muitos deles vieram de assentamentos, acampamentos, lugares onde a cultura é também resistência cotidiana. Azevedo amplia o olhar sobre a cultura e os meios de dominação que se dão no cotidiano, de forma sutil e quase imperceptível, muito atrelada ao fetichismo da mercadoria: “A roupa que vestimos, como nos posicionamos, tudo é cultura. Se não fazemos, alguém está fazendo por nós e estamos consumindo. A música é um exemplo clássico.”

A constatação é simples, mas seu desdobramento é crucial para entender que tudo é político e espaço de disputa simbólica. Se a cultura é tudo que produzimos em relação com o mundo — nossos gestos, nossa fala, nosso jeito de caminhar —, quando delegamos sua produção a uma indústria, estamos entregando também a definição de quem somos. Foi nesse ponto que o debate tocou na ideia de guerra cultural, fenômeno que não é novo. É a continuidade, por outros meios, da luta de classes. Só que agora o campo de batalha não é mais apenas a fábrica, é o imaginário.

“A indústria cultural, em conluio com a mídia, usava várias táticas de produção de conteúdo atrelada a vendas de ideias e não o produto de forma óbvia”, pontuou Agatha, lembrando que a publicidade contemporânea vende muito mais estilos de vida do que mercadorias. O que está à venda, no fundo, é um modo de existir, dominado e controlado por poucos.

Ana Chã. Foto: Matheus Teixeira

Se a indústria cultural padroniza, produz em série, repete até que a mensagem se fixe no inconsciente, o que os movimentos populares podem contrapor?

A resposta veio da própria trajetória das convidadas e do coletivo que organizou o encontro. O Setor de Cultura do MST em Minas Gerais tem construído, ao longo dos anos, uma outra relação com a arte. Em 2022, por exemplo, realizou a terceira edição da Escola de Arte João das Neves, reunindo mais de 60 pessoas no assentamento Oziel Alves Pereira, em Governador Valadares. Oficinas de muralismo, coro cênico, percussão, audiovisual e fotografia foram oferecidas não como “formação artística” no sentido tradicional, mas como ferramentas para narrar a luta pela terra. A iniciativa vem sendo construída desde 2017, assim como outras atividades: o Bloco Pisa Ligeiro, a Empena, oficinas nos territórios e outras ações.

“Se não fazemos cultura, alguém está fazendo por nós”, repetiu Agatha no encerramento, provocando mais uma vez a reflexão. E fez um convite: que o povo seja produtor de sua própria cultura. Que ele ressignifique o conceito de cultura de massa, para que ela passe a ser produzida pelas massas e não pensada por poucos com o viés de atingir e alienar as massas.

*Editado por Fernanda Alcântara