Literatura

Neste Dia Internacional do Livro Infantil, confira 7 livros antirracistas para crianças e adultos

Do campo à periferia, a literatura infantil antirracista chega para contar às crianças negras sobre a beleza da diversidade

Foto: MST/ Expressão Popular

Por Fernanda Alcântara*
Da Página do MST

O mundo celebra, em 2 de abril, o Dia Internacional do Livro Infantil. A data marca o aniversário de Hans Christian Andersen, escritor dinamarquês do século XIX considerado o “pai do conto de fadas moderno”, com histórias como A Pequena Sereia, O Patinho Feio e A Vendedora de Fósforos, trazendo a ideia de que a literatura infantil pode falar de dor, exclusão e sonho com profundidade.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 55% da população brasileira é negra e, no entanto, uma pesquisa da Fundação Cultural Palmares mostrou que menos de 10% dos livros infantis publicados no país trazem protagonistas negros. Essa ausência é política, e as consequências se acumulam na autoestima de milhões de crianças que crescem sem se enxergar nas páginas, nas telas, nos heróis.

Dentro da pedagogia do Movimento Sem Terra, a leitura é um ato político e prática cotidiana nos assentamentos, acampamentos, nas cirandas infantis, nas escolas itinerantes e escolas do campo. E uma criança que encontra no livro um rosto parecido com o seu aprende, antes mesmo de entender a palavra “dignidade”, que ela mesma é digna. O racismo estrutural começa cedo e, por isso, a resistência também pode e deve começar neste período.

Por isso, neste Dia do Livro Infantil, o Coletivo Étnico-Racial do MST, Terra Raça e Classe apresenta 7 obras para quem quer colocar nas mãos das crianças histórias que afirmam, acolhem e que educam para a luta. São livros que falam de identidade negra, de diversidade, de afeto e de coragem.

Todas as obras indicadas a seguir podem ser encontradas na Livraria Expressão Popular, espaço comprometido com a educação crítica e a produção cultural que dialoga com os de baixo, ou seja a classe trabalhadora. Confira:

1. O Pequeno Herói Preto

Autores: Cristina Moura e Junior Dantas | Ilustrações: Rodrigo Andrade | Editora: Malê

Com uma narrativa direta e potente, o livro coloca no centro da história um menino negro que descobre sua própria força ao enfrentar os desafios do cotidiano. A obra quebra o silêncio sobre o que significa ser criança negra em uma sociedade racista, sem abrir mão da leveza e da esperança. Cada página convida a criança a reconhecer em si mesma o herói que o mundo frequentemente recusa a enxergar. Uma leitura fundamental para famílias e educadores que não querem adiar a conversa sobre identidade.

2. Julián é uma Sereia

Autora e ilustrações: Jessica Love | Editora: Boitatá

Publicado originalmente nos Estados Unidos e aclamado internacionalmente, o livro acompanha Julián, um menino que sonha em ser sereia depois de ver mulheres negras e latinas deslumbrantes no metrô. A história celebra a imaginação, a autoexpressão e o amor familiar sem julgamentos. A ilustradora Jessica Love cria imagens de uma beleza rara, que encantam tanto as crianças quanto os adultos. É um livro sobre pertencer a si mesmo — e sobre famílias que apoiam isso.

3. A Pele que eu Tenho

Autora: bell hooks | Ilustrações: Chris Raschka | Editora: Boitatá

Com uma linguagem poética e acessível, a obra celebra a pele negra como território de beleza, história e ancestralidade. A narrativa conduz a criança por uma jornada de reconhecimento e orgulho, respondendo com ternura às dúvidas e às dores que o racismo provoca desde cedo. O livro funciona também como uma ferramenta para que pais, mães e educadores iniciem conversas honestas sobre a experiência negra no Brasil. Mais do que uma história, é um espelho — do tipo que todo mundo merece ter.

4. Como um Milhão de Borboletas Negras

Autora: Laura Nsafou | Ilustrações: Barbara Brun | Editora: PequeNOZ

A escritora Laura Nsafou assina esta obra sensível da literatura infantil, contando a história de Adé, uma linda menina que sofre com a maldade de outras crianças que zombam de seu cabelo. A obra explora a identidade negra através de imagens poéticas e visuais marcantes, conectando a criança à sua herança cultural de forma leve e profunda. A metáfora das borboletas negras carrega toda a carga de uma história coletiva de resistência e beleza. Uma obra que pertence às bibliotecas das escolas do campo, de assentamentos, acampamentos e das periferias.

5. Princesas Negras

Autoras: Ariane Celestino Meireles e Edileuza Penha de Souza | Ilustrações: Juba Rodrigues | Editora: Malê

Neste livro, o conto de fadas ganha o rosto que sempre deveria ter tido. As princesas aqui têm pele escura, cabelos crespos e histórias enraizadas em culturas africanas e afro-brasileiras ricas e diversas. A obra desafia o imaginário infantil colonizado e propõe um novo repertório de sonhos para as meninas negras, sem abrir mão da magia, da aventura e do encantamento. É um livro que reafirma, em cada página: “você também pode ser a protagonista da sua história”.

6. Quando Mamãe Fica Triste

Autora: Tatiana Nascimento | Ilustrações: Valentina Franz | Editora: Peirópolis

Com uma abordagem delicada e corajosa, o livro aborda o tema da saúde mental de uma mãe negra sob o olhar atento de sua filha. A narrativa humaniza experiências que raramente aparecem na literatura infantil, o cansaço, a tristeza, a vulnerabilidade, e ensina às crianças que o cuidado é uma via de mão dupla. Longe de ser pesado, o livro acolhe e abre espaço para o diálogo sobre emoções dentro das famílias negras.

7. Amoras

Autor: Emicida | Ilustrações: Aldo Fabrini | Editora: Companhia das Letrinhas

Uma das obras infantis mais conhecidas e premiadas dos últimos anos no Brasil. “Amoras” traz um avô passeando com a neta que reflete, de forma simples e bela, sobre a negritude, a família e o orgulho de existir. As ilustrações de Aldo Fabrini complementam o texto com cores e formas que saltam da página. O livro prova que a cultura popular brasileira, do hip-hop ao movimento negro, tem muito a dizer às crianças, e sabe como dizer.

*Fernanda Alcântara é jornalista e integrante do Coletivo Étnico-Racial Terra, Raça e Classe.

**Editado por Solange Engelmann