Exemplo sul-africano
Juventude, luta e resistência cultural no Apartheid
Conheça o exemplo histórico sobre a luta na África do Sul a partir de Solomon Mahlangu, militante da ala militar da African National Congress, condenado a morte e assassinado por enforcamento em 6 de abril de 1979

Da Página do MST
Tem histórias que não pertencem ao passado. Elas atravessam o tempo porque carregam aquilo que ainda está em disputa no presente. A história de Solomon Kalushi Mahlangu é uma delas.
Nos anos 1970, a África do Sul vivia sob um dos regimes mais violentos já impostos a um povo. O apartheid não funcionava apenas como segregação racial. Era um sistema organizado para garantir o controle da terra, da economia e da vida da maioria negra por uma minoria branca. A exclusão era total, estruturada em leis, sustentada pela violência e naturalizada como ordem.
A juventude negra crescia nesse cenário sem acesso pleno à educação, sem direitos básicos e sob constante repressão. A escola, longe de ser um espaço de emancipação, funcionava como instrumento de controle. Mas foi justamente ali que começaram a surgir os primeiros sinais de ruptura.
Em 1976, o levante de Soweto marcou uma virada histórica. A imposição do africâner como língua obrigatória nas escolas desencadeou uma revolta estudantil massiva. Jovens foram às ruas e enfrentaram o Estado. A resposta veio com violência extrema. Crianças e adolescentes foram assassinados.
Mas aquele momento produziu algo que o regime não conseguiu conter. A juventude começou a perder o medo. É nesse contexto que se forma a trajetória de Solomon Mahlangu.
Solomon Mahlangu
Nascido em 1956, Mahlangu fez parte de uma geração que compreendeu que não havia espaço para neutralidade. A opressão não era abstrata, mas vivida no cotidiano. A partir dessa realidade, sua entrada na luta organizada não foi um ato isolado, mas parte de um movimento coletivo.
Ao se integrar ao African National Congress (ANC – Congresso Nacional Africano, em português) e à sua ala militar, o Umkhonto we Sizwe, Mahlangu assumiu um compromisso político com a libertação do seu povo.
Em 1977, foi preso após um confronto armado. Seu julgamento foi conduzido sob a lógica de um regime que buscava produzir exemplos. Mesmo sem provas diretas de assassinato, foi condenado à morte.
A sentença não tinha como objetivo fazer justiça. Tinha como objetivo produzir medo. Mas a história não seguiu esse caminho.
Até o fim, Mahlangu manteve sua posição. Não recuou, não negou sua militância, não rompeu com a luta coletiva. Sua execução, em 1979, não encerrou sua trajetória. Pelo contrário, transformou seu nome em referência para uma geração inteira.
A luta contra o apartheid não foi feita apenas nas frentes políticas e militares. Foi também uma luta cultural. A música, a poesia, o teatro e os espaços coletivos de criação tiveram papel fundamental na formação da consciência política da juventude. Artistas sul-africanos transformaram a cultura em instrumento de denúncia e mobilização.
Ao mesmo tempo, o pensamento político se fortalecia. A construção da Consciência Negra ajudou a romper com a lógica de inferiorização imposta pelo regime. Esse processo demonstra que cultura e política não caminham separadas. A cultura foi, naquele contexto, uma ferramenta de organização, formação e resistência.
A história de Solomon Mahlangu não se encerra no momento da sua execução. Ela segue viva porque fala de escolhas que continuam colocadas no presente.
A juventude que enfrentou o apartheid não nasceu pronta. Foi se formando no confronto com a realidade. Foi entendendo, na prática, que não havia saída individual possível diante de um sistema organizado para negar sua existência.
Esse processo não pertence apenas ao passado. Hoje, em diferentes territórios do Sul Global, uma nova geração cresce sob condições que, embora com outras formas, mantêm a mesma lógica de exclusão. A precarização da vida, o racismo estrutural, a violência do Estado e a negação de direitos seguem sendo parte do cotidiano de milhões de jovens.
A insatisfação existe. A revolta também. O que está em disputa é o que se faz com isso.
A experiência sul-africana mostra que a revolta, por si só, não transforma a realidade. Ela precisa se tornar consciência. E a consciência precisa se transformar em organização. Foi isso que aquela geração fez. E é isso que o nosso tempo exige.
Ao mesmo tempo, o fim do apartheid também revela limites que não podem ser ignorados. A derrota do regime racista representou uma conquista histórica, mas não significou a superação das desigualdades estruturais. A terra permaneceu concentrada, a riqueza seguiu nas mãos de poucos e a maioria da população negra continuou enfrentando condições materiais duras.
Essa contradição não é secundária. Ela aponta para um dos principais desafios das lutas no Sul Global. Não basta conquistar mudanças políticas formais se as estruturas econômicas permanecem intactas. Quando a base da desigualdade não é enfrentada, ela se reorganiza e continua operando, mesmo sob novas formas.
Por isso, o legado dessa história precisa ser lido com profundidade e contexto. Ela ensina que nenhum sistema de opressão cai sem enfrentamento. Ensina que a juventude tem papel central nos processos de transformação. Ensina que cultura, política e organização caminham juntas. E, sobretudo, ensina que a luta precisa ir até o fim. Não apenas derrubar o que é visível, mas transformar aquilo que sustenta a desigualdade.
*Editado por Solange Engelmann



