Produção Agroecológica
Em seminário no Vale do Rio Doce, MST apresenta projeto de recuperação econômica da bacia
Com agroecologia como tática de acúmulo de forças, Movimento apresenta metas para produção de alimentos saudáveis na bacia e reestruturação de assentamentos

Por Matheus Teixeira
Da Página do MST
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra(MST) apresentou na manhã desta quarta‑feira (9) no Centro de Formação Francisca Veras, em Governador Valadares (MG), o projeto “Retomada Econômica Agroecológica dos assentamentos do Rio Doce”, uma iniciativa que pretende reestruturar a produção de alimentos saudáveis nos territórios da região, utilizando parte dos R$ 132 bilhões previstos na segunda fase do acordo de repactuação de Mariana (2015), que devastou o Rio Doce.
O seminário reuniu dirigentes, técnicos, famílias assentadas e acampadas de todos os territórios do MST no Vale do Rio Doce. A programação contou com uma análise de conjuntura política, na qual a coordenação do Movimento defendeu a massificação da agroecologia como tática de acúmulo de forças no atual período histórico.
Precisamos de mais famílias organizadas, mais territórios e mais produção. É a Reforma Agrária que coloca o alimento saudável na mesa do povo, e para isso é preciso terra para produzir em quantidade e qualidade”, afirmou Maira Santiago, do setor de Produção.
Na sequência, foram detalhadas as ações executivas do programa, estruturadas em três eixos: restauração dos ecossistemas degradados, produção de alimentos saudáveis e geração de renda sustentável por meio de arranjos comunitários e cooperativos.
Entre as metas apresentadas, estão a ampliação e modernização do Viveiro Silvino Gouveia, localizado no assentamento Liberdade, que contará com equipe técnica dedicada à produção de mudas nativas e hortaliças. O projeto também prevê a construção de uma Casa de Sementes próxima ao viveiro, com capacidade para beneficiar e armazenar um banco de 50 variedades crioulas e florestais. Além disso, serão implantados 100 quintais produtivos agroflorestais com sistema de irrigação, e será realizado o mapeamento de 80 espécies e 200 matrizes para coleta segura de sementes florestais.

Para viabilizar o escoamento da produção, o plano inclui a aquisição de um trator com implementos, caminhão e veículos utilitários que darão suporte à comercialização cooperada, facilitando o acesso a mercados institucionais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A formação dos assentados também ocupa lugar central na estratégia. Sob o lema “Quem sabe mais, luta melhor”, o movimento ofertará cursos e oficinas para que jovens e mulheres se tornem multiplicadores e multiplicadoras em temas como manejo do solo, sistemas agroflorestais e estratégias de venda para programas públicos. Diante do grande fluxo e demanda, será criado um coletivo técnico de projetos com a função específica de elaborar propostas para captação de recursos nos mais diversos editais, qualificando os processos e facilitando o acesso das famílias.
“Completados esses dez anos do crime da Samarco, na Bacia do Rio Doce, o MST dá mais um passo na sua determinação de fortalecer um modelo antagônico ao atual modelo da mineração”, afirma Silvio Netto da coordenação nacional do MST.

O dirigente completa que essa nova etapa só se constrói com a partilha da terra, com Reforma Agrária, com a produção de alimentos saudáveis. “Nós temos a capacidade de ser os guardiões dos bens da natureza e replantar as florestas que, ao longo de décadas e de diversos ciclos econômicos, foram devastadas na Bacia do Rio Doce.”
O seminário também trouxe à tona a diferença de escala entre as fases do acordo de Mariana. Nos primeiros dez anos, a Fundação Renova geriu aproximadamente R$ 38 bilhões. Agora, sob responsabilidade do Governo Federal, do Estado de Minas Gerais, do Espírito Santo, dos municípios e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (ANATER), o montante destinado à reparação e ao desenvolvimento regional salta para R$ 132 bilhões ao longo de duas décadas. A expectativa do MST é que parte desse recurso chegue efetivamente aos territórios da Reforma Agrária na Bacia do Rio Doce.

*Editado por Fernanda Alcântara



