Ex-ministro da Agricultura pega cargo na Fiesp

Por Luiz Renato Almeida
Fonte Agência Chasque

O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, assumiu nesta segunda-feira um cargo na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ele será o presidente do Conselho Superior de Agronegócios da Fiesp, criado especialmente para o ex-ministro. De acordo com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o conselho foi criado para reforçar as relações entre indústrias da cadeia produtiva e terá a participação de associações ligadas ao agronegócio, na formulação de estudos e propostas sobre o setor.

O geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo, avalia que a missão de Roberto Rodrigues será fortalecer a aliança do agronegócio com o setor industrial, o que representa uma mostra de união da elite brasileira contra temas como a Reforma Agrária. “Ele vai costurar o esclarecimento de natureza teórica e ideológica, dos setores industriais, para que eles também passem a fazer a defesa do agronegócio, assumindo posições anti-reforma agrária e anti-movimentos sociais”, afirma. Para o professor da USP, a entrada do ex-ministro da Agricultura na Fiesp ocorre num momento de crise do agronegócio, que necessita de apoio político do setor urbano industrial. “Trata-se de uma estratégia política e ideológica que foi construída para combater a Reforma Agrária e dizer que o Brasil já tem um setor produtivo no campo, que não precisa mais nada. Competitivo em nível internacional, essas coisas que eles acabam falando, que é tudo inverdade, porque este ano eles pegaram dinheiro do Governo de novo, adiaram o pagamento, querem de novo refinanciamento das dívidas, etc.”, explica.

O professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira explica que essa nova estratégia, de aliança do agronegócio com a indústria, é relativamente nova. Segundo ele, são poucos os setores em que isso ocorre, como é o caso das empresas de celulose, que atuam desde o plantio da monocultura de eucalipto e até o processamento do papel. As ligações entre o setor agrícola e o setor industrial estão sendo feitas nos últimos tempos, até mesmo porque o setor agrícola sempre teve seus órgãos de representação. O que ocorre agora é uma estratégia de fortalecimento do agronegócio, que coloca empresas como a Pirelli na cadeia produtiva da agricultura, uma vez que fornece os pneus para as máquinas agrícolas. Oliveira explica que o faturamento dessas empresas é somado ao faturamento do agronegócio, dando a idéia de que a agricultura de grande porte vai bem. “Eles criaram uma estrutura que é só teórica, na verdade muito mais ideológica que teórica, porque visa a fortalecer a fatia econômica da agricultura, que é pequena. Quando a gente pega o PIB que o IBGE corretamente levanta e que se refere só a dentro da porteira, se verifica que a participação da agricultura é muito pequena”, diz.

Roberto Rodrigues se afastou do Ministério da Agricultura no final do mês de junho. A rigor, ele não poderia ocupar nenhum cargo público, mas alega que sua tarefa na Fiesp não será remunerada, o que o permite descumprir a quarentena, que termina no dia 2 de novembro. Para o professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, o desvio ético de Rodrigues reforça o papel que ele desempenha. “Ele está mostrando a que veio e que papel já desempenhava no Governo Lula, ou seja, o papel de defesa instransigente do setor do qual ele era repreentante. Quando o Lula o escoleu, ele era representante da Associação Brasileira do Agribusiness. Essa sua participação na representação do setor do agronegócio não é novidade”, diz.

Roberto Rodrigues também planeja abrir uma empresa para investir na produção de álcool e biodiesel. Desde que saiu do ministério, ele retomou suas aulas na Universidade Estadual Paulista e assumiu um cargo no Centro de Estudos do Agronegócio na Fundação Getúlio Vargas.