Venezuela em Foco

Ninguém escapa

Boletim Venezuela em Foco #5

Foto: Larissa Lopes / MST no MA

Da Página do MST

A chamada “tensa calma” que paira sobre a Venezuela desde o ataque de 3 de janeiro está longe de ser um fenômeno isolado. Ao contrário: o episódio sinaliza uma escalada que pode atingir toda a América Latina caso os Estados Unidos avancem em uma estratégia mais ampla de intervenções diretas ou indiretas na região. Sob a justificativa de combater o narcotráfico e o “colapso institucional”, a narrativa do governo Donald Trump volta a reeditar um roteiro conhecido no continente: o da criminalização de governos soberanos para viabilizar ações de força e o controle de recursos estratégicos.

Depois da Venezuela, o discurso beligerante da Casa Branca passa a mirar com mais intensidade o México, acusado de ser corredor do narcotráfico internacional com complacência estatal. Cuba e Colômbia também aparecem no radar da retórica trumpista, reforçando a percepção de que se trata não de segurança regional e sim de um projeto geopolítico de expropriação de riquezas naturais e submissão de soberanias nacionais. Uma releitura, em pleno século XXI, das “veias abertas da América Latina”.

Nesse tabuleiro em movimento, lideranças regionais tentam conter o avanço ofensiva. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva voltou a condenar o ataque contra a Venezuela em conversas com a presidente do México Claudia Sheinbaum com o primeiro-ministro do Canadá Mark Carney e com o presidente colombiano Gustavo Petro. A articulação diplomática busca construir uma saída política que evite a generalização do conflito e reafirme o respeito ao direito internacional e à autodeterminação dos povos. 

Em Caracas, a presidenta interina Delcy Rodríguez classificou a ação dos Estados Unidos como uma “agressão vil” e reiterou que a Venezuela “não merecia” o ataque sofrido. Em pronunciamento oficial, ela homenageou cubanos e venezuelanos mortos na ofensiva e afirmou que o país responderá com firmeza, mas também com diplomacia, evocando o legado do libertador Simón Bolívar na defesa dos direitos humanos e do direito humanitário internacional.

Paralelamente ao discurso duro, o governo venezuelano anunciou novas libertações de detidos por crimes comuns ou atos de violência, em uma atividade descrita como um “gesto pela paz”. 

 Apesar de sinalizar supostos recuos pontuais, Donald Trump mantém um discurso explícito de interesse econômico. O presidente afirmou ter cancelado novos ataques após “cooperação” do governo venezuelano, citando a libertação dos presos como sinal positivo. Ao mesmo tempo, anunciou que petrolíferas norte-americanas investirão até US$ 100 bilhões na Venezuela, com a promessa de reconstrução da infraestrutura energética do país.

A apreensão do petroleiro Marinera, de bandeira russa, levou Moscou a reagir com dureza. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a ação dos EUA como ilegal e alertou para o risco de aumento da tensão militar e política no espaço euro-atlântico. Apesar da posterior libertação de dois tripulantes russos, o episódio elevou o grau de preocupação do Kremlin quanto à redução do “limiar do uso da força” contra a navegação civil.

O bloqueio total imposto por Washington às exportações venezuelanas de petróleo começa a produzir efeitos concretos. A tentativa de apreensão do petroleiro Olina, no Caribe, marca a quinta interceptação em poucas semanas. Navios carregados com milhões de barris permanecem parados em águas venezuelanas para evitar confisco, provocando uma queda acentuada nas exportações e aprofundando o estrangulamento econômico do país.

A ofensiva dos Estados Unidos também gerou repercussão no Vaticano. Em discurso inflamado, o papa Leão XIII criticou a “diplomacia baseada na força” e denunciou o enfraquecimento das instituições multilaterais diante da escalada militar global, citando explicitamente a situação venezuelana.

Nas ruas, a solidariedade à Venezuela se espalha. Manifestações com o lema “Mãos fora da Venezuela” foram registradas na Austrália e em países do Sudeste Asiático, como Indonésia, Filipinas e Malásia, evidenciando que, apesar do cerco político e econômico, a Revolução Bolivariana ainda encontra apoio entre movimentos populares ao redor do mundo.

Para saber mais: 

Artigo – Análisis geopolítico del ataque contra Venezuela

Artigo – Venezuela: o Império ameaça — e está nu

Artigo – O chavismo em sua hora mais dramática 

Vídeo –  Do petróleo venezuelano às terras raras: o plano imperialista de Trump

*Editado por Fernanda Alcântara