Sob ataque

Entrevista: Revolução Bolivariana resiste após ato de guerra dos Estados Unidos contra Venezuela

Carlos Ron, ex-vice-ministro das Relações Exteriores do governo de Nicolás Maduro e pesquisador, conta que o povo segue mobilizado e exigindo o retorno do Presidente Maduro e de Cilia Flores, sequestrados e presos nos EUA

Manifestações em Caracas em defesa da soberania venezuelana, da continuidade da revolução e da liberdade de Maduro e Flores. Foto: Ronaldo Schemidt/AFP

Por Solange Engelmann
Da Página do MST

Após ataque dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, contra a Venezuela, no último dia 3 de janeiro, que resultou no sequestro e prisão nos EUA do Presidente Nicolás Maduro Morose e sua esposa e deputada Cilia Flores, e a morte de cerca de 100 pessoas, entre militares e civis, a Revolução Bolivariana segue resistindo a ofensiva dos Estados Unidos de se apropriar das reservadas de petróleo do país e do ataque a sua soberania.

Com o bombardeio à Venezuela Trump também ataca o direito internacional, ao usar a força contra a integridade territorial e a independência política de um Estado, desrespeitando a soberania e a determinação dos povos venezuelanos, o que é condenado por Carta da Nações Unidas (ONU). Segundo Carlos Ron, ex-vice-ministro das Relações Exteriores do governo de Nicolás Maduro para a América do Norte e pesquisador do Instituto Tricontinental, o povo venezuelano que apoia a revolução segue diariamente nas ruas mobilizados e exigindo a liberdade de Maduro e Cilia Flores.

“Não tem um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não tenha saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada Cilia Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e prestado homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria”, conta Carlos.

Ele também faz um chamado aos países e a esquerda mundial para a mobilização permanente, além de manifestações de condenação sobre as violações do direito internacional e na exigência do retorno do Presidente Maduro e Cilia Flores para a Venezuela, demostrando ao “mundo que a Revolução Bolivariana não está sozinha.”

Em solidariedade ao povo venezuelanos e denúncia contra ofensiva imperialista, no Brasil, movimentos populares, organizações políticas e sociais convocam uma mobilização unitária para o dia 28 de janeiro. Entre as principais pautas estão a “liberdade para Maduro e Cília” e o “Fora Trump da América Latina — somos Zona de Paz”.

Confira entrevista completa abaixo:

Carlos Ron foi vice-chanceler da Venezuela para a América do Norte e pesquisador do Instituto Tricontinental. Foto: Chancelaria venezuelana

Como está a situação da Venezuela hoje, com a condução da vice-presidente Delcy Rodríguez,  juramentada como atual presidenta, diante da ofensiva de Donald Trump?

Após o violento ato de guerra dos Estados Unidos contra o povo venezuelano e o sequestro do seu Presidente e da primeira-dama, estamos numa ‘paz ativa’, ou seja, o pais está calmo, as pessoas estão retornando a rotina, no dia 12 [de janeiro] os estudantes voltam às aulas, mas o povo está mobilizado.

Não tem um dia desde o ataque, que o setor que apoia a Revolução Bolivariana não tenha saído às ruas para exigir o retorno do Presidente Maduro e da deputada Cilia Flores, protestado contra o ato de guerra dos Estados Unidos e que não tenha prestado homenagem ao heróis que sacrificaram suas vidas na defesa da Pátria.

Foi uma semana de muita tristeza e indignação para o povo venezuelano, incluso para aqueles que não eram simpatizantes do governo, mas que também não apoiam um ataque externo contra o país. Mesmo assim, o povo confia na liderança coletiva da Revolução Bolivariana e apoia o governo que está tomando decisões importantes para manter a paz e a estabilidade do país.

Quais as principais ações da Revolução Bolivariana e do povo venezuelano para resistir as intimidações dos Estados Unidos e libertar o presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, sequestrados e presos nos EUA?

A vice-presidenta da Republica, Delcy Rodriguez, foi juramentada como Presidenta Encarregada, garantindo assim a continuidade administrativa e o fio constitucional no país. Foi criada uma Comissão pela Libertação do Presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores, prisioneiros de guerra nos Estados Unidos.

Também foi anunciado sete dias de luto nacional pelos mortos durante a agressão dos EUA. O mundo deve saber que pelo menos 100 pessoas, entre militares e civis, incluindo 32 internacionalistas cubanos, perderam a vida durante os ataques dos Estados Unidos em heroica resistência diante de um confronto desigual, com 150 aeronaves e tecnologia de ponta do maior exercito do mundo.

Outra ação importante foi aprovar o decreto de Estado de Comoção Exterior permitindo a militarização imediata da indústria petroleira e das industrias básicas, assim como os serviços públicos do país para garantir o funcionamento; e outras medidas básicas para manter o ordem e segurança preventiva contra um outro ataque. A Assembleia Nacional também iniciou seu ano legislativo e apresentou propostas para novos códigos de leis focados na “soberania cientifica e tecnológica” e na cibersegurança para proteger o Estado diante das ameaças estrangeiras.

E como a Venezuela pretende agir para resistir ao ataque contra sua soberania, recolonização e apropriação das reservas de petróleo por companhias norte-americanas?

Consequente, com o que tem sido a filosofia do Governo Bolivariano, a diplomacia foi colocada de novo como prioridade. A Venezuela abriu canais de comunicação com os EUA para conseguir vias de garantir a paz, para que o país não volte a ser atacado, e que possa se construir relações comerciais, energéticas e diplomáticas com respeito a soberania da Venezuela, ao mesmo tempo, também está sendo exigido o retorno do Presidente Maduro e da deputada Flores para o país.

Na sua opinião, o que está em jogo na América Latina com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, no dia 3 de janeiro?

Vimos no dia 3 [de janeiro], que os Estados Unidos já não sente que precisa esconder sua intenção de controle sobre os recursos da América Latina e que está prestes a agir mesmo contra o direito internacional, o que considera que é legítimo para o beneficio dos seus interesses. Isto é preocupante porque os Estados Unidos estariam reconhecendo que não se importam com o direito internacional, nem com o estabelecimento de regras de comportamento entre as nações.

Os EUA privilegiam a força nas relações internacionais e isso é um precedente perigoso para o continente. Particularmente países como Cuba, Colômbia e México já vem sendo ameaçados e agora sabemos do que os EUA é capaz de fazer neste momento.

Qual a avaliação da Revolução Bolivariana sobre o posicionamento do Brasil, da Colômbia, China e Rússia sobre a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela?

A Presidenta Encarregada [Delcy Rodriguez] falou com os presidentes da Colômbia e do Brasil e explicou o caráter da agressão contra o país. É importante que ambos os países tem se pronunciado contra esse ataque dos Estados Unidos e expressado solidariedade com a Venezuela.

As potencias como China e Rússia também cumpriram um papel importante no Conselho de Segurança das Nações Unidas denunciando as ações militares dos EUA e o sequestro do mandatário venezuelano. A todo momento, a China e Rússia tem mostrado o seu apoio político ao governo e ao povo da Venezuela.

No Brasil e outros países estão ocorrendo manifestações de apoio e solidariedade ao povo venezuelano. O que governos, movimentos populares e a esquerda da América Latina e do mundo podem fazer para fortalecer a resistência à ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela e outros países da América Latina e Caribe?

Os povos tem que se mobilizar diante desse crime de guerra e exigir o retorno do Presidente Maduro e da Cilia Flores para a Venezuela. É importante condenar e protestar sobre a violação do direito internacional e mostrar para o mundo que a Revolução Bolivariana não está sozinha.

O povo venezuelano vem construindo um processo importante que tem garantido a unidade revolucionaria no momento mais perigoso da historia republicana do pais. Toda a liderança revolucionária está apoiando o governo em unidade de Delcy Rodriguez. 

*Editado por Erica Vanzin