Governo venezuelano

Negociar sob fogo

Boletim Venezuela em Foco #9

Foto: Elineudo Meira

Da Página do MST

 A conversa entre Donald Trump e Delcy Rodríguez, confirmada oficialmente pelo governo venezuelano, marca o que pode ser o início formal de um processo de negociação entre os dois países. O diálogo, porém, nasce envolto em contradição: como negociar com um governo responsável por uma operação militar que deixou mortos, desaparecidos e um presidente sequestrado em território estrangeiro? A resposta não passa por afinidades políticas ou concessões morais, mas por uma escolha tática imposta pela correlação de forças e pelas lições da história.

Não há saída possível para a crise que a Casa Branca tenta impor à Venezuela sem algum grau de interlocução. Negociar, neste contexto, não significa legitimar a violência, mas abrir uma janela política capaz de conter a escalada, reorganizar forças e ganhar tempo. Como já observou o jornalista Breno Altman, um paralelo histórico esclarecedor é o Tratado de Brest-Litovsk, firmado em 1918 entre o governo soviético recém-instalado e potências da Europa Central. Cercada por ameaças externas e conflitos internos, a Rússia revolucionária recuou taticamente, tendo que aceitar condições terrivelmente onerosas, que incluíam a perda de parte do território com enormes riquezas.

Enquanto se abrem canais diplomáticos, o governo venezuelano reforça sua articulação interna. Delcy Rodríguez reuniu-se com o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, para revisar planos de defesa nacional e convocar a unidade da classe trabalhadora, com o objetivo de garantir a paz, a continuidade da produção e a resistência frente à agressão externa. A movimentação ocorre em paralelo ao avanço de uma proposta de “Constituinte Laboral”, apresentada como um esforço para construir um novo marco de direitos e proteção social em um país submetido a um bloqueio injusto e prolongado.

As ruas seguem como um espaço importante de resposta política. Em Caracas, trabalhadores e trabalhadoras mais uma vez se mobilizaram nesta quarta (14), para denunciar a ofensiva militar dos Estados Unidos e exigir a libertação do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. As manifestações reforçam a narrativa de resistência popular e conectam a defesa da soberania nacional às reivindicações sociais e laborais.

No campo das investigações, novas informações adicionam camadas de complexidade ao cenário. Um memorando confidencial vindo dos Estados Unidos aponta a participação de setores da extrema direita venezuelana, liderados por María Corina Machado, no ataque de 3 de janeiro, reforçando a leitura de que a operação combinou ação externa e articulação interna. Ao mesmo tempo, no Senado norte-americano, foi barrado um projeto que buscava limitar a ação militar dos EUA na Venezuela, resultado visto como uma vitória para Trump, um sinal de que o presidente mantém espaço de manobra no fronte institucional doméstico.

No âmbito das articulações, Trump declarou apoiar a permanência da Venezuela na Opep, ainda que tenha relativizado se isso seria benéfico para os próprios Estados Unidos. No mercado, grandes empresas de serviços petrolíferos já se movimentam: uma gigante global do setor, a SLB, aposta na reabertura do país sob o novo cenário, com valorização expressiva de suas ações desde o sequestro de Maduro, beneficiada por já possuir equipamentos, contratos e presença no território venezuelano.

Os efeitos regionais da ofensiva também se fazem sentir. Pesquisa Quaest indica que 58% dos brasileiros temem que ações semelhantes às realizadas na Venezuela possam, em algum momento, atingir o Brasil, revelando um impacto direto da crise na percepção de segurança regional. No plano diplomático, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com Vladimir Putin sobre a situação venezuelana e o cenário global, na primeira interlocução entre os dois líderes desde o ataque dos Estados Unidos, com ênfase na defesa da soberania e na estabilidade internacional.

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