Reforma Agrária

Vitória histórica: MST conquista assentamento para 2 mil famílias na região Centro do Paraná

Governo Lula firmou acordo nesta quinta-feira (15) e vai destinar 33 mil hectares de terra para a formalização de quatro assentamentos. As mais de 2 mil famílias camponesas estão acampadas há cerca de 10 anos. 

Acampamento Herdeiros da Terra de 1º de Maio, no início da organização da comunidade, há mais de 10 anos. Foto: Joka Madruga

Da Página do MST

Em conquista histórica da luta pela terra no Paraná, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva firmou acordo, na tarde desta quinta-feira (15), para a formalização de quatro novos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região centro do estado. 

As cerca de 2 mil famílias camponesas beneficiadas estão acampadas há mais de 10 anos, nas comunidades Dom Tomás Balduíno e Araucária, em Quedas do Iguaçu, Nova Vitória, em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu, e Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu e Nova Laranjeiras. Mais de 33 mil hectares de terra da madeireira Araupel se tornarão oficialmente áreas de reforma agrária. 

As negociações envolveram o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), os Ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), das Relações Institucionais, da Fazenda, a Procuradoria-Geral da UNIÃO, a Advocacia-Geral da União (AGU), Ministério Público Federal (MPF), Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4), e Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSC) do Tribunal de Justiça do Paraná, além do grupo proprietário da empresa Araupel, proprietária das áreas. O valor a ser pago pela área será de cerca de R$ 580 milhões, por meio de precatório – requisição judicial de pagamento emitida pela Justiça para indenização do proprietário, desapropriando a terra pela União para fins de reforma agrária.

1) Recorte da audiência virtual realizada nesta quinta-feira (15), com destaque para a participação da procuradora geral do Incra, Maria Rita Reis, e do TJ-PR, desembargador Fernando Antonio Prazeres. 2) Registro do dia de mobilização em que o Incra protocolou o pedido de acordo global para regularização das comunidades. Fotos: Arquivo MST

O pedido de acordo global para estas quatro comunidades foi publicado pelo Incra em 27 de julho de 2025, como resultado de uma jornada de luta em que MST ocupou o órgão. Ainda no ano passado, outras duas audiências foram realizadas em Brasília entre dirigentes do Movimento no Paraná e representantes dos órgãos, para avançar na construção da solução para o conflito.   

Jonas Fures, morador do acampamento Dom Tomás Balduíno e integrante da direção do MST na região Centro, resume o dia como sendo de muita alegria e emoção: “É um dia muito especial, talvez seja o dia mais esperado nesses últimos dez anos. É onde as famílias almejam chegar, com a solução mesmo do conflito, e já sonhar com outras coisas, com coisas melhores, com um futuro melhor, e também já começaram a planejar a vida de assentado e não mais de acampado”. 

O dirigente relembra os períodos difíceis enfrentados pelas comunidades, que também se somaram às mobilizações ocorridas no Brasil ao longo da última década, luta direta pela democracia, contra a prisão injusta do presidente Lula, e depois também pela sua reeleição. 

“Defendemos muito a volta do Lula ao poder, e a partir disso pautar a resolução dos conflitos. E hoje ela se torna possível resolver. Depois disso, vai abrir novas frentes de luta, que é a busca da realização da reforma agrária plena, onde as famílias têm todos os seus direitos garantidos por lei”, enfatiza, se referindo ao direito à crédito e estruturas para produção, energia elétrica, casas, estradas, ampliação do acesso à educação, por exemplo. 

Entre as milhares de famílias camponesas que ocuparam a área e formaram a comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, há 11 anos, estava a de Sandra Padilha Alves. “Estou desde o início do acampamento, onde conquistamos um pedaço de terra. Eu trabalho na produção no lote junto com a minha família, com hortaliças. Estou começando um horto medicinal intercalado com a horta de saladas, verduras diversas”, conta Sandra, que integra a direção do acampamento.  “Não tem como descrever a emoção deste dia. Nós temos muito o que comemorar”, completa. 

Durante a audiência entre as partes realizada nesta quinta, a procuradora-chefe do Incra, doutora Maria Rita Rei, classificou a realidade agrária na região centro do Paraná como o “maior e mais antigo conflito fundiário coletivo” da região sul do Brasil, com impacto no desenvolvimento socioeconômico da região. “Para além da pacificação social gerada pela regularização fundiária, a medida contribuirá para o desenvolvimento socioeconômico de toda região”, segundo trecho da ata da audiência, referente ao pronunciamento da procuradora-chefe.

No final da tarde desta quinta-feira, a ministra de Relações Institucionais do Governo Federal, Gleisi Hoffmann, enviou um vídeo às famílias do MST da região: “Há muito tempo eu acompanho a luta para que a gente regularize a área, para que efetivamente todas as famílias possam ter o seu lugar, o seu pedaço de chão. Sei o quanto vocês lutaram, sei o quanto vocês sofreram, companheiros que morreram, perderam a vida lutando em favor da terra. E agora, com o governo do presidente Lula, com a determinação dele para a gente avançar na reforma agrária, graças a Deus, nós estamos avançando”. 

30 anos de luta pela terra na região Centro do Paraná

A conquista dos quatro novos assentamentos é parte da construção do maior território da reforma agrária em áreas contínuas na América Latina, iniciado há 30 anos e com mais de 5 mil famílias acampadas ou assentadas nas terras da Araupel. 

Dia 17 de abril de 1996 marcou o início da ocupação da primeira parte de uma vastidão de terras griladas pela madeireira. Na madrugada fria, no município de Rio Bonito do Iguaçu, mais de 12 mil homens, mulheres e crianças ocuparam uma parte da área da então madeireira Giacomet Marodin, atual Araupel. 

Era o início da transformação de 83 mil hectares de áreas públicas, adquirida de forma grilada pela empresa em 1972. Além de Rio Bonito do Iguaçu, onde a primeira bandeira do MST foi hasteada, a imensidão de terra abrange os municípios de Nova Laranjeiras, Espigão Alto do Iguaçu e Quedas do Iguaçu.

A quebra do cadeado da porteira de um dos maiores latifúndios do Sul do Brasil ficou imortalizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, com uma imagem que nomeou como “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”. Das mesmas lentes saíram os registros dolorosos dos caixões e dos enterros dos 21 militante do MST assassinados em Eldorado dos Carajás, no Pará, na tarde daquele mesmo dia. 

Ocupação da Fazenda Araupel, no Paraná, em 17 de abril de 1996. Foto: Sebastião Salgado

Em agosto de 1997, o Incra formalizou a criação do assentamento Ireno Alves dos Santos, com 900 famílias, nas terras do acampamento Buraco. Era o maior assentamento do Brasil até 2003, até que foi criado em Quedas do Iguaçu o assentamento Celso Furtado, com 1100 famílias. Nos anos seguintes, novos acampamentos e assentamentos foram criados na região.

Com a consolidação do assentamento, as melhorias socioeconômicas surgiram não apenas para as famílias Sem Terras do Ireno Alves, mas para toda a região, que a partir daquele momento ganhavam uma área com grande produção de alimentos. 

O que era um  latifúndio de pinus e eucalipto, tornou-se uma terra de fartura para milhares de famílias, com moradia, renda, produção diversa de alimentos, além de escolas, cooperativas e associações. 

Em agosto de 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da madeireira Araupel das áreas ocupadas pelo MST, confirmando a prática de grilagem. A determinação resultou de uma ação judicial movida pelo Incra, em 2014. Há dez anos, o Instituto contestava a validade dos títulos do imóvel localizado entre os municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu.

Conheça as comunidades que se tornarão assentamentos

Os quatro acampamentos que serão transformados em assentamentos da reforma agrária já são comunidades estruturadas, com ampla produção de alimentos, estradas, escolas e espaços coletivos. Apesar dos muitos desafios e ausência de políticas públicas de apoio às famílias camponesas, as famílias conquistaram melhores condições de vida ao longo de mais de 10 anos de organização e luta. 

O maior e mais antigo é o acampamento Herdeiros da Terra de 1º de Maio, localizado em Rio Bonito do Iguaçu e Nova Laranjeiras, formado no dia 17 de julho de 2014, com a ocupação da Fazenda Pinhal Ralo. A comunidade é formada por 1.123 famílias, com mais de 3 mil pessoas. Desde os primeiros meses de ocupação da área, a comunidade se organizou para garantir o acesso à educação para crianças e adolescentes. Hoje a Escola Itinerante Herdeiros do Saber I, localizada na comunidade central, e a Escola Itinerante Herdeiros do Saber II, na comunidade do Guajuvira, atendem cerca de 590 estudantes das séries iniciais do ensino fundamental até o ensino médio,  além do curso profissionalizante de formação de docentes.

A produção de alimentos é diversa, passando por grãos como soja, milho, feijão, trigo, arroz, além de cana-de-açúcar, aveia, amendoim, pipoca, algodão, hortaliças e raízes em geral. Toda produção é garantida pelas próprias estruturas associativas ou privadas, sem apoio do poder público. Em 2025, a comunidade iniciou o plantio massivo de árvores para reflorestar áreas degradadas. Cerca de 5 mil mudas de árvores frutíferas e nativas da Mata Atlântica foram plantadas em outubro, como parte do projeto de plantio de 1 milhão de árvores. 

A notícia do assentamento chega em um momento de maior necessidade de apoio às famílias acampadas, severamente atingidas por um dos tornados que atingiram o Paraná em novembro de 2025. Centenas de famílias tiveram danos em suas casas, lavouras, barracões e espaços coletivos como a escola central da comunidade. 

A comunidade Dom Tomás Balduíno, localizada em Quedas do Iguaçu, foi formada em 6 de julho de 2015, hoje com 551 famílias cadastradas pelo Incra. O acesso à educação é garantido pela Escola Itinerante Vagner Lopes, que atende cerca de 300 estudantes, em duas unidades. As famílias acampadas também conquistaram a construção de um barracão comunitário, a criação de uma associação, igrejas e outras estruturas coletivas. 

A diversidade de produção vai de grãos até a extração e beneficiamento dos frutos da palmeira juçara, que também colocam a comunidade em destaque na defesa do meio ambiente. Desde 2023, a comunidade realiza a Festa da Semeadura da Palmeira Juçara, nacionalmente conhecida por utilizar helicópteros para a dispersão de sementes. A ação deu origem às Jornadas da Natureza, organizadas pelo MST anualmente na semana do Meio Ambiente, em junho, em comunidades da reforma agrária do Paraná. 

Espaço coletivo da comunidade Nova Vitória. Foto: Arquivo MST

O acampamento Nova Vitória está localizado entre Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu, e existe desde 2 de outubro de 2015. Atualmente a comunidade é formada por 47 famílias, somando um total de 270 pessoas. A produção é baseada na agricultura e pecuária para subsistência e comercialização do excedente, sendo parte com certificação orgânica. 

A comunidade Araucária, de Quedas do Iguaçu, foi formada em 14 de outubro de 2016, formada por 123 famílias cadastradas pelo Incra, 50 delas já distribuídas no território. O acampamento tem barracão comunitário e igreja, e tem a produção focada em agricultura e pecuária para subsistência, comercializando o excedente. 

A luta pela reforma agrária segue na região com a demanda de assentamento de mais 600 famílias. Em todo o Paraná, cerca de 80 comunidades ainda reivindicam a efetivação da reforma agrária – algumas delas em situação de acampamento há mais de 30 anos.