Soberania nacional x interesses externos

Entre discursos de soberania, movimentos diplomáticos contraditórios e a corrida pelo petróleo, a Venezuela segue no centro de uma disputa que combina pressão externa, rearranjos internos e a permanente tensão entre autodeterminação e intervenção.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Da Página do MST

Em artigo publicado neste domingo no New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma crítica direta aos bombardeios dos Estados Unidos contra a Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, ocorrida em 3 de janeiro. Ao afirmar que “esse hemisfério nos pertence”, Lula sinalizou desconforto com a reedição de uma política intervencionista na América Latina e defendeu a soberania regional como princípio inegociável.

Enquanto isso, em Washington, Donald Trump atua em múltiplas frentes. Após se reunir com o presidente norte-americano, a líder oposicionista de extrema-direita María Corina Machado declarou que será presidente da Venezuela “quando o momento chegar” e afirmou ter entregue a Trump uma medalha do Prêmio Nobel da Paz. O Instituto Nobel, no entanto, reafirmou que a honraria é intransferível. 

Analistas ouvidos pela imprensa venezuelana interpretam o encontro como parte de uma estratégia paralela do governo dos EUA, que busca manter canais simultâneos com a oposição e com setores do atual governo venezuelano para garantir interesses estratégicos, especialmente no campo energético.

Reportagem da Reuters alegou que negociações entre autoridades dos Estados Unidos e o ministro venezuelano Diosdado Cabello teriam começado meses antes da operação que resultou no sequestro de Maduro, incluindo conversas sobre sanções e advertências para que não houvesse ataques à oposição. O governo venezuelano, no entanto, reagiu duramente e desmentiu qualquer diálogo secreto de caráter conspirativo, classificando as informações como tentativas de gerar divisão no alto comando político do país.

No plano interno, a presidenta encarregada Delcy Rodríguez tem buscado projetar estabilidade e horizonte econômico. Em reuniões recentes com o empresariado, ela apresentou diretrizes de crescimento com inclusão, defesa da produção nacional e fortalecimento da indústria de hidrocarbonetos, combinadas com uma administração mais rigorosa das divisas. Em paralelo, o governo encaminhou à Assembleia Nacional uma proposta de reforma do setor petroleiro, que prevê o uso de mecanismos da lei antibloqueio para facilitar investimentos. Delcy também afirmou não temer relações com os Estados Unidos, desde que qualquer acordo esteja “a serviço do povo venezuelano”.

O pano de fundo dessa reconfiguração é um país profundamente marcado pelas sanções. Entre 2013 e 2022, a recessão econômica consumiu cerca de 75% do PIB venezuelano, segundo dados oficiais, em um colapso diretamente associado às medidas coercitivas impostas por Washington. Ainda assim, o novo cenário desperta o apetite de grandes grupos econômicos: empresários brasileiros ligados aos irmãos Batista miram projetos bilionários no setor petrolífero venezuelano, que podem se beneficiar do plano energético defendido por Trump.

A repercussão da crise ultrapassa fronteiras. No Brasil, o MST realiza nesta semana seu Encontro Nacional, em Salvador, com um ato público de solidariedade à Venezuela previsto para sexta-feira (23), com a presença de representantes da embaixada venezuelana. A data, porém mudou para esta quinta-feira (22) e ocorrerá no Pelourinho, na capital baiana. O gesto reforça que, além das negociações de alto nível e dos interesses econômicos em jogo, a disputa em torno da Venezuela também mobiliza atores sociais e políticos na região.

Entre discursos de soberania, movimentos diplomáticos contraditórios e a corrida pelo petróleo, a Venezuela segue no centro de uma disputa que combina pressão externa, rearranjos internos e a permanente tensão entre autodeterminação e intervenção.

Para saber mais: 

Artigo – O império exposto: o terror dos EUA na Venezuela

Vídeo La batalla por la conciencia en la Venezuela post-invasión

Análise – Pepe Escobar denuncia saque de petróleo na Venezuela e uso de IA como arma contra analistas geopolíticos