XIV Encontro Nacional
Da terra à cura: os caminhos do Movimento Sem Terra na Saúde Popular
Assentados e assentadas que contribuem com o Espaço de Saúde Maria Aragão, no 14º Encontro Nacional do MST, compartilham experiências de resistência e cuidado nos territórios.

Por Mariane de Barros
Da Página do MST
Diferente da lógica “hospitalocêntrica”, a saúde popular no campo segue viva e resistente, constituindo-se como uma importante referência de saber territorial e cuidado coletivo. Indissociável da terra, essa prática resgata saberes ancestrais que compreendem a cura por meio das plantas medicinais e do uso cuidadoso dos bens comuns da natureza. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), saúde e cuidado não são entendidos apenas como ausência de doença, mas como práticas políticas de soberania, autonomia e resistência.
Nos acampamentos e assentamentos, a saúde popular também se torna objeto de estudo e formação. Em diversos estados do Brasil, o MST realiza processos permanentes de formação de Agentes Populares de Saúde do Campo, com ênfase na agroecologia. Essa ação direta fortalece a autonomia das famílias camponesas, reduzindo a dependência exclusiva da indústria farmacêutica e contribuindo para a auto-organização e a sustentação da vida nos territórios.

As práticas da saúde popular não se limitam aos espaços da Reforma Agrária. Elas também acompanham militantes e integrantes do setor de Saúde do MST em atividades nacionais, como o 14º Encontro Nacional do Movimento, que acontece em Salvador (BA). No evento, o Espaço de Saúde Maria Aragão oferece cuidado por meio de práticas terapêuticas baseadas em fitoterápicos e plantas medicinais, reafirmando a saúde como parte da luta coletiva.
Já Dona Telma Maria, acampada no pré-assentamento Estrela Viva em Feira de Santana, militante do MST há 16 anos e integrante do setor de Saúde há seis, compartilha sua trajetória. Com formação em enfermagem, ela conta que, ao chegar ao antigo acampamento, tentou introduzir medicamentos que não faziam parte da realidade das famílias. Com o tempo, passou a se apropriar dos saberes populares e do uso das ervas medicinais, prática da qual hoje não abre mão: “[…] fui criada por minha vó que era benzedeira, fazia chá, usava todo tipo de erva, mas fui esquecendo disso com o tempo. Revivi mesmo dentro do movimento usando e aprendendo novamente sobre as ervas medicinais.”
Essas falas nos remontam a importância das sabedorias ancestrais que existem e resistem tentando se perpetuar no que compreendemos enquanto saúde popular: aquela que baseia-se na valorização do saber popular e traz uma abordagem social e política no que concerne à saúde para empoderar sobretudo o nosso povo Sem Terra para que possam gerir sua própria saúde e reivindicar por seus direitos básicos de qualidade de vida.
Essas experiências não são individuais, mas construídas de forma coletiva e aplicadas cotidianamente na vida do povo Sem Terra. Ademir Mota, do acampamento Terra Vista, na Bahia, que contribui com o Espaço de Saúde durante o Encontro Nacional, relata: “a gente tem ervas medicinais nos nossos quintais, lá a gente já separa um espaço para elas. O que nos movimenta é essa medicina, essa que não usa produto químico, sem se utilizar sempre de tanto remédio da farmácia”. Nesse contexto, esse é o modelo de saúde que vem direto do quintal, direto da terra que provém a cura e o cuidado.

Portanto, os caminhos que o MST percorre dentro da saúde popular se coloca dentro de eixos importantes: a construção da autonomia frente ao modelo farmacêutico, por meio da formação de agentes populares; a prática cotidiana e compartilhada dos saberes de cuidado, integrada à vida nos acampamentos e assentamentos; a compreensão do território não apenas como espaço de produção, mas também como fonte de cura; e a defesa da saúde como direito e como ato de soberania. Essa trincheira de luta fortalece a organização coletiva e aponta para um projeto de sociedade em que terra e saúde são direitos indissociáveis.
Editado por Iris Pacheco



