Uso da força
O precedente venezuelano na Groenlândia
Boletim Venezuela em Foco #12. Com novas declaração de Trump cresce riscos de imposição da força sobre o direito internacional e avanço sobre territórios estratégicos do Atlântico Norte

Da Página do MST
Um novo-velho padrão para os Estados Unidos. O governo brasileiro passou a enxergar na Groenlândia sinais claros de repetição do “roteiro Venezuela”: pressão política, retórica expansionista e desprezo por normas de soberania. A avaliação, tornada pública por autoridades em Brasília, aponta para riscos concretos de que a lógica da força se imponha sobre o direito internacional, agora extrapolando o Sul Global e avançando sobre territórios estratégicos do Atlântico Norte.
A percepção ganhou força após novas manifestações públicas de Donald Trump. O presidente norte-americano divulgou montagens produzidas por inteligência artificial em que aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos na Groenlândia e exibindo mapas do Canadá, da Venezuela e da própria Groenlândia pintados com as cores americanas. A simbologia não passou despercebida por diplomatas e analistas, que a leem como parte de uma narrativa de domínio territorial e naturalização da intervenção, já testada de forma brutal na Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro.
Em artigo publicado na The Economist, o assessor especial do governo brasileiro Celso Amorim afirmou que o mundo caminha para uma ordem “sem regras”, na qual princípios básicos do multilateralismo são corroídos pela primazia da força. Para Amorim, a ação dos Estados Unidos na Venezuela marca uma inflexão perigosa, ao legitimar intervenções unilaterais e enfraquecer os mecanismos coletivos de resolução de conflitos.
Na América do Sul, o clima de tensão também se reflete no campo político. O governo venezuelano reagiu duramente a declarações do presidente argentino Javier Milei, classificadas como “delirantes” e contrárias ao direito internacional. Caracas acusou Milei de atacar a soberania venezuelana e de contribuir para a instabilidade regional, num momento em que a escalada retórica se soma a pressões militares e econômicas externas.
Internamente, o governo encarregado liderado por Delcy Rodríguez avança em uma reorganização do Estado em meio à crise. Após o sequestro de Maduro, Delcy promoveu uma reforma administrativa que inclui fusões de ministérios, mudanças de comando e redistribuição de funções, para garantir governabilidade e resposta rápida em um cenário de cerco. Em paralelo, a presidenta impulsionou a recuperação do complexo siderúrgico nacional, com o anúncio da reativação da aciaria de Barquisimeto, reforçando o discurso de que os recursos estratégicos do país devem servir ao povo, e não a interesses oligárquicos ou estrangeiros.
As ruas seguem como um termômetro político central. O Partido Socialista Unido da Venezuela convocou uma grande mobilização em Caracas para o dia 23 de janeiro, com o lema de que a Revolução Bolivariana segue viva. A manifestação exige a libertação de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, reafirmando que a resposta ao sequestro passa também pela pressão popular organizada.
Enquanto isso, Washington aprofunda uma estratégia híbrida para tornar a Venezuela “investível” sob sua ótica. Autoridades norte-americanas avaliam o envio de empresas privadas de segurança para proteger ativos de gigantes do petróleo, como a ExxonMobil, substituindo tropas regulares por forças terceirizadas. A iniciativa evidencia a combinação entre militarização indireta e interesses corporativos no redesenho do setor energético venezuelano.
A mudança de postura do próprio Trump é reconhecida até por aliados históricos. Elliot Abrams, ex-assessor republicano com passagens por dossiês sensíveis como Irã e Venezuela, afirmou que o presidente abandonou a cautela militar em favor do uso direto da força, apostando em uma estratégia que, até agora, não encontrou freios internos significativos.
As repercussões internacionais continuam a se acumular. Moscou cobrou oficialmente a libertação da tripulação russa de um petroleiro ligado à Venezuela, apreendido pelos Estados Unidos no Atlântico. A demanda russa adiciona um novo elemento à já complexa teia diplomática em torno da crise, reforçando que o conflito extrapola a relação bilateral entre Washington e Caracas.
Ao olhar para a Groenlândia e para a Venezuela, o Brasil e outros atores internacionais passam a identificar o mesmo fio condutor: a normalização da imposição pela força. Em um mundo onde precedentes se acumulam rapidamente, o caso venezuelano deixa de ser exceção e passa a funcionar como aviso.
Para saber mais:
Artigo – Do “quintal” ao laboratório: a Venezuela na estratégia de poder dos EUA (Portal Terra).
Vídeo – Ativista presa por protestar contra as ações dos EUA na Venezuela (AlJazeera).



