Comunicação

MST lança TV Sem Terra durante Encontro Nacional

A iniciativa da TV Sem Terra é resultado de anos de acúmulo histórico na comunicação do movimento.

Arquivo MST

Por Camilla Sousa e Maria Leal
Da Página do MST 

Durante o Encontro Nacional do MST, realizado em Salvador (BA), entre os dias 19 e 23 de janeiro, a TV Sem Terra cumpre um papel estratégico: conectar as quase 100 mil famílias acampadas em todo o país aos debates presenciais realizados por cerca de três mil delegados, além de dialogar com organizações populares, militantes e a classe trabalhadora em geral.

A programação reflete as frentes centrais do movimento, com conteúdos sobre internacionalismo, enfrentamento ao imperialismo, Reforma Agrária Popular, memória histórica do audiovisual do MST e a dimensão cultural da luta. Reafirma, assim, que a terra, além de produzir alimentos, também produz cultura, identidade e consciência.

Mesmo reconhecendo as contradições de transmitir seus conteúdos por meio das Big Techs, como o YouTube, o MST segue apostando na comunicação como espaço de disputa política, sem perder de vista o horizonte da construção de ferramentas próprias. “Transmitimos nossa mensagem por meios contraditórios, mas com clareza política. Nosso horizonte é construir nossas próprias plataformas, alinhadas ao projeto da classe trabalhadora”, frisa o coordenador de comunicação do MST, Janelson Ferreira.

Comunicação Sem Terra

Desde a sua origem, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) compreendeu que disputar a terra também significa disputar ideias. Diante do cerco midiático, do isolamento e do silenciamento histórico imposto aos camponeses sem terra, a comunicação consolidou-se como uma ferramenta central de organização, formação política e diálogo com a sociedade. A criação da TV Sem Terra é fruto desse processo histórico e reafirma a comunicação como parte inseparável da luta da classe trabalhadora.

A comunicação nunca foi um elemento acessório na trajetória do MST. Desde o início da organização, ainda nos anos 1980, trabalhadores e trabalhadoras do campo sentiram na pele a negação de voz imposta pela mídia hegemônica. Nesse contexto, comunicar passou a ser entendido como uma necessidade vital, tanto para dialogar com a sociedade quanto para fortalecer a organização interna do movimento.

Arquivo MST

Segundo Janelson Ferreira, a comunicação surge como resposta direta a esse cenário de exclusão. “A comunicação é uma frente de luta. Ela não é neutra, porque é fruto das relações sociais de produção e, ao assumir um lado, busca elevar o nível de consciência para a organização”, explica.

Ao longo dos anos, o MST construiu diferentes instrumentos de comunicação — do Jornal Sem Terra às rádios comunitárias, das redes sociais à produção audiovisual. Cada ferramenta cumpre funções específicas, dialoga com públicos distintos e responde às condições históricas de cada momento.

No centro desse processo, sempre esteve a compreensão de que informar não é apenas transmitir fatos, mas também formar politicamente. “Não é a notícia pela notícia. A informação contribui para elevar ideologicamente a consciência da nossa base social e fortalecer a luta pela terra”, reflete Janelson.

Esse entendimento se aprofunda a partir de 2014, quando o MST formulou a proposta da Reforma Agrária Popular. “A reforma agrária só se realiza no Brasil com a luta conjunta da classe trabalhadora do campo e da cidade. E isso exige uma comunicação capaz de dialogar com todo o conjunto da sociedade”, afirma o coordenador.

É nesse acúmulo histórico que nasce a TV Sem Terra. Mais do que um novo canal, ela representa a síntese da experiência comunicacional do MST, articulando a linguagem audiovisual com o compromisso político de não reproduzir a lógica da sociedade do espetáculo.

“A TV é um instrumento político que busca amplificar a síntese que o movimento constrói, dialogar com a base que não está presente fisicamente e projetar essa mensagem para além dos nossos espaços”, destaca Ferreira.

Com o objetivo de levar aos territórios os debates realizados no Encontro, a programação ao vivo da TV Sem Terra foi transmitida de durante a atividade e contou com os quadros: Bom Dia Sem Terra; Internacionalizemos a Luta; Reforma Agrária na TV e Cultura em Movimento. A cobertura pode ser acompanhada durante e após o evento pelo canal Movimento Sem Terra no YouTube.

*Editado por Iris Pacheco