XIV Encontro Nacional
Em encontro com Lula, MST reafirma a Reforma Agrária Popular como base da democracia e da soberania alimentar
Em sua fala, o presidente Lula destacou a importância da participação política do Movimento, dos avanços na reforma agrária e de uma postura firme do Brasil no cenário internacional.

Por Kátia Marko
Da Página do MST
O 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi encerrado nesta sexta-feira (23), em Salvador (BA), com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Também participaram do ato o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, ministros de Estado e parlamentares.
Recebido por crianças Sem Terrinha, Lula entrou na plenária sob aplausos dos mais de 3 mil militantes presentes. Após cinco dias de debates e a leitura da carta final do encontro, a dirigente nacional Débora Nunes falou em nome do movimento, reafirmando a Reforma Agrária Popular (RAP) como estratégia central para o fortalecimento da democracia, da soberania alimentar e da justiça social no país.
Em discurso enfático, Débora destacou que o projeto de agricultura defendido pelo MST tem a “bela tarefa” de produzir alimentos saudáveis e, ao mesmo tempo, preservar os bens comuns da natureza por meio da agroecologia.
A dirigente também alertou para os impactos do avanço do capital no campo e criticou o modelo do agronegócio, que, segundo ela, impõe uma destruição irreversível à natureza. A crise climática, ressaltou, já afeta tanto o campo quanto as cidades, com a irregularidade das chuvas comprometendo o plantio e as altas temperaturas agravando a vida urbana.
Débora também denunciou o adoecimento da população provocado pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, que contaminam o solo, o lençol freático e os alimentos.

Tecnologia, agroindústria e educação no campo
Para enfrentar esses desafios, a dirigente defendeu políticas públicas articuladas a um projeto social e ambiental. Entre as prioridades, destacou a mecanização, o acesso ao crédito, a agroindustrialização e a educação no campo.
“Precisamos superar a realidade em que apenas 3% dos agricultores do Nordeste têm acesso à mecanização, oferecendo alternativas à juventude para além da enxada. É fundamental construir agroindústrias que agreguem valor à produção, garantam renda e impeçam que o país fique refém de grupos que priorizam a exportação e encarecem os alimentos”, afirmou.
Débora também defendeu o fortalecimento do Pronera, como forma de enfrentar o analfabetismo histórico e o analfabetismo digital, este último, segundo ela, frequentemente instrumentalizado por ‘ações fascistas’ e pela disseminação de ‘fake news’.
Compromisso político e combate às violências
Débora não poupou críticas à “extrema direita fascista” que ocupa o Congresso Nacional, acusando-a de sequestrar o orçamento público e violentar a sociedade. Reafirmou ainda o compromisso dos mais de 3 mil delegados e delegadas presentes — mais de 60% mulheres — em defender o governo Lula e trabalhar pela sua reeleição em 2026, além da construção de um Legislativo comprometido com os interesses populares.
Ao final, a dirigente reforçou a urgência de combater todas as formas de violência, como o racismo, a LGBTfobia, o machismo e o feminicídio, destacando que o avanço dessas pautas é o “oxigênio” das lutas futuras. “Presidente Lula, estamos juntos. Pode ousar, porque estaremos juntos nas batalhas necessárias”, afirmou, reiterando a solidariedade internacional do MST aos povos da África, da Palestina, de Cuba e da Venezuela.
Lula convoca MST à ação política e defende soberania e paz

Em sua fala, o presidente Lula destacou a importância da participação política do Movimento, dos avanços na reforma agrária e de uma postura firme do Brasil no cenário internacional. “O MST deve se orgulhar do que produz e ocupar espaços de decisão para garantir a continuidade dos direitos da classe trabalhadora”, afirmou.
Lula celebrou a decisão do Movimento de lançar candidaturas nas próximas eleições e alertou que a omissão política abre espaço para setores que não defendem os interesses do povo. “A desgraça de quem não gosta de política é que é governado por quem gosta”, disse, criticando a hegemonia da ‘bancada ruralista’ no Congresso. O presidente também elogiou a renovação da direção do MST e a expressiva participação feminina no encontro, que compõe mais de 60% da delegação presente.
O presidente também anunciou medidas para reestruturar o Incra e acelerar a destinação de terras para assentamentos, lembrando que a falta de estrutura encontrada em 2023 começou a ser superada com novos concursos e investimentos.
Ainda na pasta da Reforma Agrária, anteriormente à fala do Presidente, o Ministro Paulo Teixeira já havia apresentado um balanço das ações da pasta e anunciou que, até abril, todas as áreas prometidas para a reforma agrária serão entregues. Entre desapropriações, acordos judiciais e criação de novos assentamentos, foram anunciadas áreas em diversos estados, somando milhares de hectares e beneficiando milhares de famílias Sem Terra.
Além disso, entre as ações concretas, Lula citou a distribuição de 300 mil embriões para qualificar o gado leiteiro de pequenos produtores, o financiamento de agroindústrias — como fábricas de leite em pó — e o papel dos bancos públicos. “O Banco do Brasil e a Caixa voltaram a estar a serviço do povo trabalhador”, destacou.
Lula também apresentou indicadores positivos da economia, como o crescimento do PIB acima de 3%, a queda da inflação e o menor índice de desemprego da história recente.

Soberania nacional, paz e combate às violências
No campo internacional, o presidente defendeu o multilateralismo e criticou a “lei do mais forte” em detrimento da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU). Reafirmou que o Brasil busca relações equilibradas com diferentes potências, sem aceitar qualquer forma de subordinação. “A gente não tem arma, mas tem caráter e dignidade”, declarou, reiterando o compromisso do país com a paz e o combate à fome e à pobreza.
Um dos momentos mais contundentes do discurso foi o apelo ao enfrentamento do feminicídio e da violência doméstica. “Homem que bate em mulher não é homem”, afirmou Lula, dizendo não querer o apoio político de agressores.
Projetando o futuro, Lula classificou 2026 como o “ano da verdade” e prometeu intensificar o combate às fake news. “Se depender de mim, podem ter certeza de que vamos fazer muito mais”, concluiu, agradecendo a resistência histórica do MST.
*Editado por Iris Pacheco



