Produção Agroecológica

Massificação da agroecologia é a resposta do MST ao agronegócio e ao imperialismo no campo

O tema esteve no centro dos debates do 14º Encontro Nacional do MST, realizado em janeiro, em Salvador (BA). Confira as linhas estratégicas de atuação do Movimento para ampliação da escala de produção agroecológica em todo o Brasil

O MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, e avança em projetos para ampliação da escala em outras cadeias produtivas. Foto: Priscila Ramos

Por Ednubia Ghisi, do Setor de Comunicação e Cultura do MST no Paraná
Da Página do MST

A agroecologia é capaz de alimentar o mundo? Esse é o questionamento comum quando o assunto é a urgência da superação do modelo do agronegócio. O fato é que, apesar dos lucros exponenciais do agro, 673 milhões de pessoas em todo o mundo (8,2% dos habitantes da Terra) enfrentam a fome todos os dias, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), além de um modelo viável para a produção de alimentos saudáveis e superação da fome, a agroecologia é o caminho para frear a crise ambiental e humanitária pela qual o mundo atravessa. Também é o modo de produção e de vida capaz de enfrentar o capitalismo e o imperialismo, responsáveis por este cenário.

Tuíra Tule, integrante da direção nacional do MST, enfatiza o papel do agronegócio como projeto político subordinado ao capital internacional, concentrando renda, destruindo a natureza e transformando a terra em ativo financeiro voltado à produção de commodities, e não de alimentos saudáveis para o povo.

“O agronegócio não é neutro. Ele serve ao capital, às grandes corporações transnacionais e à lógica das exportações. Transforma o agricultor em operador de pacotes tecnológicos controlados por empresas estrangeiras e converte a terra, que deveria ser um bem comum, em mercadoria subordinada ao mercado internacional”, afirma a dirigente, assentada no Quilombo Campo Grande, em Minas Gerais.

A massificação da agroecologia esteve no centro dos debates do 14º Encontro Nacional do MST, realizado entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Salvador (BA), que reuniu cerca de 3.600 delegados e delegadas de todo o país. Ao longo de cinco dias de atividades, o movimento reafirmou a agroecologia como eixo estruturante da Reforma Agrária Popular e como resposta concreta à crise ambiental e alimentar imposta pelo modelo do agronegócio.

Tuíra Tule, dirigente nacional do MST, apresentou a experiência brasileira de luta pela Reforma Agrária Popular ao Fórum do Sul Global, na China, em 2025. Foto: Jiang Chenxing

A agroecologia integra o Programa Agrário do MST desde o ano 2000, aprovado no 4º Congresso Nacional do Movimento. Desde então, vem crescendo em escala e adesão entre as mais de 450 mil famílias assentadas e também entre os mais de 60 mil que seguem em luta pelo acesso à terra.

A diversidade e a qualidade da produção de alimentos nos territórios da Reforma Agrária já são um resultado desta decisão coletiva. Uma amostra desta riqueza alimentar estava presente na feira do 14º Encontro, em Salvador, com mais de 500 variedades de produtos de todas as regiões do país. Em todo o Brasil, os alimentos agroecológicos chegam a mercados locais como Armazém do Campo e programas institucionais como o da Alimentação Escolar, o PNAE, e o de Aquisição de alimentos, o PAA.

Imagem da feira organizada durante o 14º Encontro Nacional do MST, em janeiro de 2026. Foto: Dowglas Silva
Entrega dos alimentos agroecológicos em um colégio de Curitiba, via PNAE. Foto: Leonardo Henrique / MST no PR

Para o Movimento, a massificação da agroecologia é condição material para sustentar um projeto popular para o campo. “Sem território, sem povo organizado e sem base produtiva, a crítica ao capitalismo vira discurso vazio. A agroecologia incomoda o capital porque demonstra, na prática, que é possível produzir sem explorar, sem destruir e sem se submeter. Enquanto o povo descobre que pode viver e produzir fora das cidades. Essa lógica do império. O império começa a perder o controle”, conclui.

Para avançar em escala econômica e territorial, Tuíra ressalta a necessidade de fortalecer cadeias produtivas, ampliar a agroindustrialização popular e garantir autonomia tecnológica, rompendo com a dependência de sementes patenteadas, fertilizantes químicos e agrotóxicos controlados por transnacionais. “Essa dependência dos pacotes tecnológicos é a forma moderna do colonialismo. Sem enfrentá-la, o imperialismo segue presente nos territórios da reforma agrária, controlando o que se planta, como se planta e para quem se produz”, afirma Tuíra.

Cooperação no coração da agroecologia

A cooperação está no centro das ações para ampliação da escala de produção agroecológica nas áreas do MST. É por meio dela que o movimento possibilita a participação ampla das famílias camponesas no processo coletivo de produção e também tem superado dificuldades da batalha travada com os gigantes do agronegócio nacional e transnacional.

Atualmente, são cerca de 190 cooperativas, mil associações e 120 agroindústrias espalhadas por territórios da reforma agrária de todas as regiões do Brasil. A produção envolve ampla diversidade de alimentos, com destaque para 11 cadeias produtivas prioritárias, entre elas arroz, café, feijão, mandioca, frutas, leite, mel e sementes.

Colheita do Arroz Agroecológico no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão-RS, em 2025. Foto: Priscila Ramos/MST

A cadeia do arroz orgânico agroecológico do Rio Grande do Sul é um dos principais exemplos de escala baseada na cooperação e dá ao MST o título de maior produtor deste produto em toda a América Latina. Na safra 2024/2025, a colheita foi de aproximadamente 14 mil toneladas, resultado de mais de duas décadas de produção, envolvendo 290 famílias do estado. A experiência gaúcha agora fortalece outros estados, em especial o projeto de produção de arroz no Maranhão, num exemplo da intercooperação nacional.

A articulação entre os estados se dá por meio da União Nacional das Cooperativas da Reforma Agrária Popular do Brasil. A cooperação também é base para projetos com outros países, instituições de ensino e empresas privadas aliadas da agroecologia.

Acesso à mecanização e à tecnologia para o povo camponês

Garantir escala na produção agroecológica em larga escala passa, necessariamente, pela correção da injustiça histórica da falta de acesso à mecanização no campo para camponeses mais empobrecidos no Brasil. O índice de mecanização na agricultura familiar brasileira é extremamente baixo. A média nacional é de que apenas 14,5% dos estabelecimentos de agricultura familiar no Brasil possuem um trator próprio. O percentual por região mostra uma situação ainda mais grave: enquanto no sul aproximadamente 39,5% das propriedades familiares são mecanizadas, no nordeste 2,3% e no norte 3%, segundo o Censo Agropecuário (IBGE) e as atualizações do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para 2025/2026.

Teste de máquinas agrícolas chinesas no Maranhão, em 2024. Foto: Eduardo Moura/MST no MA

Para buscar tecnologias apropriadas à realidade das áreas da reforma agrária, o MST buscou alianças em diferentes países e instituições de ensino. A China foi o país com as soluções mais adequadas, com máquinas de pequeno porte e mais baratas, acessíveis às cooperativas e famílias camponesas. O país tem mais de 8 mil fábricas de máquinas agrícolas, que atendem a uma agricultura.

Um passo importante neste caminho foi a criação da Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab), em 2019, para fomentar a cooperação internacional em ciência e tecnologia entre organizações do Sul Global. Foi por meio dela que se iniciou, em 2022, um termo de cooperação entre o Consórcio Nordeste e instituições chinesas.

Em fevereiro de 2024, 31 máquinas começaram a ser testadas em assentamentos do MST no Nordeste. Em 2025, uma nova parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário ampliou os testes para mais 50 máquinas e resultou na criação do Centro Brasil-China de Pesquisa em Mecanização para Agricultura Familiar, na Universidade de Brasília (UnB). Este centro tem como objetivo também se dedicar ao estudo de bioinsumos e tecnologias de digitalização. Experiências semelhantes já estão em curso em Maricá (RJ), com a perspectiva de instalação de fábricas de máquinas agrícolas voltadas à agricultura familiar.

Também a partir de compartilhamento de tecnologias chinesas, o MST avança na implementação de projetos para a autossuficiência na produção de bioinsumos. Com base na diversidade microbiana e na biologia do solo, esta tecnologia representa uma alternativa concreta ao uso de agrotóxicos, e expressa a articulação entre ciência e saberes populares camponeses.

Para massificar essa prática, o MST vem priorizando projetos de compostagem acelerada, nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Distrito Federal, além de experiências com microrganismos isolados em larga escala no RS e em São Paulo.

Trabalho dos/as camponeses/as Sem Terra com o método do “solo vivo” na produção de bioinsumos. Foto: Paula/BAOBAB

No campo da energia renovável, o Movimento debate estratégias cooperadas de geração de energia para atender agroindústrias, fortalecendo um ciclo real de sustentabilidade e autonomia produtiva.

Como parte da incorporação crítica de novas tecnologias, o MST está desenvolvendo a IARAA – Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia, criada em aliança com a Baobab e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM). A ferramenta foi concebida para atender diferentes públicos do campo e apoiar práticas produtivas agroecológicas, apresentar reflexões políticas sobre consciência de classe e transformação social, articulando tecnologia, pesquisa científica e o saber popular camponês.

A base de dados é formada por livros, cartilhas e documentos técnicos produzidos pelos movimentos populares, além de materiais de universidades, organizações não governamentais e instituições de pesquisa. A intenção é ampliar as fontes com integração de dados de órgãos públicos de pesquisa. A ferramenta será gratuita e está em fase de testes, com previsão de lançamento durante a Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo, em maio deste ano.

Controle e acesso a sementes agroecológicas

O controle das sementes é um eixo estratégico para a garantia da soberania alimentar e a ampliação da escola da produção agroecológica. O acesso e o controle das sementes têm uma ferramenta própria no MST desde 1997, ano de fundação da Rede de Sementes Agroecológicas BioNatur, no Rio Grande do Sul.

Em 2005, começa o esforço de nacionalização da proposta, e avançar para a articulação em vários estados, com cursos, bancos de sementes, criação de estruturas e enraizamento do tema em diversos estados. “Entendendo a complexidade que é o cerco que a gente tem no ramo sementeiro. As sementes hoje são propriedade de grandes empresas, e é nesse meio que a Bionatur disputa”, explica Daniel Silva, integrante da coordenação da Rede.

Banca da BioNatur, durante a Feira Nacional da Reforma Agrária. Foto Rica Retamal

Atualmente há uma articulação da Rede Bionatur de Sementes Agroecológicas no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul e São Paulo, com esforços de espalhar para mais estados.

A base da produção são grupos de sementes nos territórios da Reforma Agrária, de forma cooperada ou associada. Com esse trabalho, é feita a manutenção e multiplicação de aproximadamente 400 variedades de sementes crioulas registradas, entre sementes florestais, medicinais, hortaliças, coberturas verdes, forrageiras e para a produção de grãos.

Com mais de 30 e 40 variedades comercializadas, o MST é o único produtor de sementes de hortaliças agroecológicas do Brasil. A Unidade de Beneficiamento de Sementes de Hortaliças está localizada no Rio Grande do Sul, e a segunda sede está sendo construída na Bahia.

A diversidade de sementes também chega a países em que o MST desenvolve ações internacionalistas, como Cuba, Venezuela, Zâmbia, Palestina, China e alguns países da Europa.

Formação também em grande escala

A agroecologia é baseada na ciência e se massifica por meio do acesso à tecnologia, e por isso, o acesso à educação está entre os pilares para a ampliação dessa forma de produção de alimentos e de vida. Entre as dezenas de processos de formação realizados em todo o Brasil em áreas da Reforma Agrária, o Curso de Educação e Agroecologia ganha corpo a cada ano como uma iniciativa nacional, realizada de forma regionalizada. “Esse curso nasce da necessidade de formar sujeitos políticos que não apenas dominem técnicas de produção, mas que compreendam a agroecologia como um projeto político de transformação da sociedade”, explica Valter Leite, dirigente nacional do Setor de Educação, que organiza os cursos.

As primeiras formações foram articuladas no nordeste em 2016, com a primeira edição na Bahia, seguindo anualmente em outros estados da região. A nacionalização ocorreu em 2023, espalhando para outras regiões do Brasil.

1º Curso Básico de Educação em Agroecologia da Região Nordeste, em 2016. Foto: Sheila Rodrigues

“Boa parte das pessoas participantes vêm de escolas construídas em áreas de Reforma Agrária, que são frutos concretos da luta do povo Sem Terra. Nessas escolas, a educação não se limita às salas de aula, é uma experiência que se constrói em diálogo com a comunidade, com a terra e com os saberes populares. O curso é também um reencontro com a própria prática cotidiana desses educadores e educadoras, que carregam a potência de educar em territórios conquistados pela luta”, conta Valter Leite, que também teve acesso ao ensino superior a partir do MST.

No campo do acesso à educação, são aproximadamente 1850 escolas públicas construídas em acampamentos e assentamentos da Reforma Agrária, o que garante educação para 200 mil crianças, adolescentes, jovens e adultos. A multiplicação do saber também se materializa em mais de 30 Escolas e Centros de Formação em Agroecologia.

Formatura da primeira graduação em Agroecologia pelo Pronera, pela UFAL, em Alagoas. Foto: Mykesio Max

Atualmente são mais de 2 mil estudantes Sem Terra em cursos técnicos e superiores a nível de graduação e pós-graduação. O Movimento já organizou mais de 100 cursos de nível superior em parceria com aproximadamente 100 universidades públicas por todo o país, por meio do Programa Nacional de Educação nas Áreas de Reforma Agrária (Pronera).

Plantar árvores também é produção alimentos

Ao contrário do que mostra a monocultura e da produção de commodities, não existe contradição entre floresta em pé e produção de comida. A agroecologia prova que sistemas agroflorestais são mais eficientes para todas as formas de vida, como explica Camilo Santana, do MST de Rondônia: “Só há floresta preservada, só há ambiente preservado onde há pessoas, onde há povo. Onde não há povo, não há floresta cuidada, é território que é dominado pelo agronegócio”. Por isso, conjugar o plantio de árvores, com produção de alimentos e preservação de água de qualidade é também dar continuidade aos saberes dos povos indígenas e tradicionais.

Camilo é integrante da coordenação nacional do “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, lançado pelo MST em 2000 com a meta de plantar 100 milhões de árvores em dez anos. Ele explica a reconfiguração do Plano como uma tarefa permanente. “É uma tarefa contínua, eterna na construção de uma cultura diferente de produção e de vida no campo, que é justamente a cultura de enfrentamento ao agronegócio e à crise ambiental”. Em cinco anos de ação unitária nacional, o MST chegou à marca de 45 milhões de árvores plantadas e cerca de 300 viveiros construídos, além da realização de dois cursos nacionais e diversos em âmbito regional e local.

Produção do assentamento Dois de Julho, localizado no vale do rio Paraopeba em Brumadinho (MG), após crime da Vale. Foto: Agatha Azevedo

Tornar a agroecologia o modelo de produção das áreas da reforma agrária caminha de lado a lado com a recuperação ambiental. Um dos exemplos que tem recebido reconhecimento nacional é a recuperação ambiental realizada nas bacias do rio Paraopeba e do rio Doce, ambas atingidas por crimes ambientais cometidos por grandes empresas mineradoras.

No caso do Paraopeba, o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, em 2019, resultou na morte de 272 pessoas e em danos ambientais irreparáveis. Desde então, o MST atua na região com assistência técnica, implantação de sistemas agroflorestais, recuperação da atividade econômica das famílias atingidas, construção de viveiros de mudas nativas e organização de coletivos de coleta de sementes, articulando restauração ambiental e geração de renda.

Mais de 150 mil mudas são produzidas no assentamento Liberdade, no município de Periquito (MG), para somar no projeto de reflorestamento da Bacia do Rio Doce. Foto: Mídia Ninja

Na Bacia do Rio Doce, atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, o movimento desenvolve ações nas áreas de educação, produção e meio ambiente. São processos formativos envolvendo mais de 430 famílias, projetos ambientais em seis assentamentos, proteção de mais de mil hectares e implantação de quintais e pomares agroflorestais em mais de 500 hectares. Entre as iniciativas está também a implantação de uma agroindústria de polpas de frutas e alimentos minimamente processados, fortalecendo a comercialização via cooperativas e atendendo políticas públicas como o PNAE.

Outra ação de reflorestamento massivo é a semeadura aérea da palmeira juçara, com uso de helicópteros, organizada pelo MST no Paraná em parceria com a Polícia Rodoviária Federal do estado. Desde 2023, mais de 30 toneladas de sementes já foram semeadas em diferentes regiões do estado. A iniciativa começou com a Festa da Semeadura da Juçara da comunidade Dom Tomás Balduíno, em Quedas do Iguaçu.

Articulação entre MST e PRF garante helicóptero para a semeadura da palmeira juçara, no Paraná. Foto: Juliana Barbosa/MST

No ano seguinte, se tornou a Jornada da Natureza, com ações espalhadas por todo o estado e se tornou uma das maiores iniciativas para recuperação dessa espécie ameaçada de extinção na Mata Atlântica. Além da recuperação da biodiversidade, o plantio tem foco na geração de renda a partir da colheita do fruto da palmeira, conhecido como açaí da Juçara.

*Editado por Fernanda Alcântara