Cultura e Arte

MST realiza Escola de Teatro Político com Coletivo Fuzuê e Quilombo Buieié

Evento une arte, luta social e saberes tradicionais em formação intensiva na Universidade Federal de São João del-Rei

Foto: Leidi Assis

Por Matheus Teixeira e Luiza Cassiano
Da Página do MST

De 28 de janeiro a 1º de fevereiro, a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) sedia a 1ª edição da Escola de Teatro Político e Popular de Minas Gerais (EPTT-MG), uma iniciativa que nasce da união entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), comunidades quilombolas da Zona da Mata Mineira e o Coletivo Fuzuê, projeto de pesquisa e extensão da universidade.

A escola propõe uma formação intensiva que entende o teatro para além da sua função artística. “O teatro é compreendido não apenas como linguagem artística, mas também no sentido da formação humana, reflexão crítica e do fortalecimento das lutas sociais – especialmente em torno da terra, da memória, da justiça social e das identidades negras e quilombolas”, explica a professora Dra. Carina Maria Guimarães, do Departamento de Artes da Cena (DEACE) e coordenadora do Coletivo Fuzuê.

A proposta é fruto de um sonho coletivo gestado na “Troca de Saberes” em 2024, quando integrantes do MST e do Movimento Negro da região idealizaram uma escola de arte que unisse o povo Sem Terra e o povo quilombola. O projeto foi estruturado em duas etapas: oficinas preparatórias nos territórios e um curso concentrado de quatro dias na UFSJ.

Raízes na terra e nos saberes tradicionais

Foto: Leidi Assis

Antes do evento na universidade, o projeto já estava em movimento nos territórios. Foram realizadas oficinas de preparação no Assentamento Denis Gonçalves, do MST, e no Quilombo Buieié, em Viçosa, valorizando práticas culturais locais como folia de reis, calango, congado, capoeira e as culturas de terreiro.

“Fizemos duas oficinas de preparação, uma novidade para nós”, relata Carol Rodrigues, do Coletivo de Cultura do MST na Zona da Mata. “Uma no assentamento, onde recebemos a Folia de Reis Estrela Guia, e outra no quilombo. A partir daí, construímos essa escola, que tem a cara do MST, a cara do quilombo, a cara do povo que luta. Nossa raiz é a mesma: a da luta, da resistência e da construção do mundo a partir da arte.

Para Carina Veridiano, liderança do Quilombo Buieié, a troca com os mais velhos foi fundamental. “É muito importante construir a partir da vivência dos nossos mestres, porque eles têm muito conhecimento. Essa escola agrega esse saber para repassar às nossas futuras gerações”, afirma. “Fazemos a luta com arte, com resistência. A luta nos cansa, mas é importante fazê-la com arte e alegria, honrando nossos ancestrais”.

Metodologia participativa e programação

Foto: Agatha Azevedo

Durante os quatro dias na UFSJ, participantes de diferentes assentamentos do MST e do quilombo Buieié se reúnem para vivências teatrais, debates e sínteses coletivas. A programação conta ainda com a presença de artistas-militantes como Sérgio Pererê, Mestre Boi, Mestre Prego, Mestre Farinhada e Ofélia Ortega.

As atividades se organizam em quatro eixos: Composição, Artes Visuais, Teatro e Comunicação, complementados por oficinas de práticas sonoras e corporais. A metodologia é participativa e dialógica, inspirando-se na Escola de Artes João das Neves – referência do MST desde 2017 – e combinando conhecimentos acadêmicos do teatro político com saberes tradicionais e experiências comunitárias.

“A escola de arte é um pilar que sustenta a reforma agrária, que sustenta a identidade Sem Terra”, reforça Carol Rodrigues. “Ela constrói sujeitos mais livres e lutadores dentro do projeto da reforma agrária popular”.

Realização e apoio

Foto: Leidi Assis

A Escola de Teatro Político e Popular de Minas Gerais é uma realização do Coletivo Fuzuê (UFSJ), em parceria com o Coletivo de Cultura da Zona da Mata do MST em Minas Gerais e as comunidades quilombolas da Zona da Mata Mineira. O projeto foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), com apoio da Secretaria de Cultura e Turismo do Governo de Minas Gerais e do Ministério da Cultura.

*Editado por Fernanda Alcântara