Legado
‘Para mudar o mundo tem que ter coragem’: confira despedida de Frei Sérgio
Dirigente do MPA e um dos fundadores do MST, religioso teve a vida marcada pelo trabalho em favor dos povos do campo

Por Carolina Bataier E Katia Marko
Do Brasil de Fato
Nesta quarta-feira (4), amigos, admiradores e companheiros de militância se despediram de Frei Sérgio Görgen, em cerimônia realizada no Convento Franciscano São Boaventura, em Imigrante (RS). Dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e militante histórico da luta camponesa, Frei Sérgio morreu na terça-feira (3) em decorrência de um infarto.
Na cerimônia de despedida, João Pedro Stédile, dirigente nacional histórico do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), lembrou da atuação do frei franciscano na defesa do meio ambiente e dos trabalhadores do campo.
Em sua gestão como secretário da Reforma Agrária de Olívio Dutra (PT), governador do Rio Grande do Sul entre 1999 e 2003, Frei Sérgio se destacou ao criticar publicamente a proposta de liberação de plantio de soja transgênica no Brasil.
“Ele foi o primeiro que denunciou que a soja transgênica iria ser a porta para inundar a nossa agricultura de agrotóxicos, de venenos, de implantar a monocultura em troca dos alimentos saudáveis”, lembra Stédile.
A crítica do frei era direcionada às decisões tomadas no primeiro mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quando, a partir de 2003, a soja geneticamente modificada passou a ser gradualmente liberada, por pressão dos setores econômicos interessados.

“E ele denunciava: ‘Pelas minhas leituras e estudos, a semente transgênica é um perigo, porque vai unificar o plantio de soja e vai aumentar o consumo de veneno, vai destruir a nossa natureza’”, ressaltou Stédile, em discurso emocionado que destacou a história de Görgen como militante dos movimentos do campo no Brasil.
Além de atuar na direção do MPA, Frei Sérgio foi um dos fundadores do MST e deputado estadual pelo PT entre 2002 e 2006. Em todas as fases, a luta pela terra esteve nos discursos e na prática do religioso.
“São raras as pessoas na humanidade que vivem de acordo com o seu pensamento, porque o mundo virou uma mediocridade. E o Sérgio, não posso dizer um exemplo de que a sua vida tenha sido diferente das ideias que ele defendeu. Isso é um valor inestimável pra qualquer ser humano”, declarou Stédile, que define Görgen como “um intelectual orgânico do campesinato”.
Ao longo da sua trajetória, o frei franciscano recorreu a formas de protesto como greves de fome em diferentes momentos, incluindo mobilizações por crédito agrícola nos anos 1990, contra a Reforma da Previdência em 2017 e atos em defesa da libertação do presidente Lula, em 2018, em Brasília.
A crítica política fez parte da luta de Frei Sérgio. “Quando eu tomei posse como ministro, ele foi representar os movimentos sociais e fez uma fala muito importante que eu nunca esqueci”, lembra Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. “Ele disse: ‘Nós seremos aquele amigo incômodo com você. Ele, então, sempre trazia uma avaliação dos nossos feitos e trazia também uma recomendação, mostrava a insuficiência dos nossos feitos’”, ressalta Teixeira.
Na linha de frente da luta pela terra, Frei Sérgio foi sobrevivente do massacre da Fazenda Santa Elmira, em 1989, episódio que passou a registrar e relatar em livros e textos. Na ocasião, no dia 11 de março daquele ano, uma reintegração de posse comandada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Pedro Simon (MDB), no município de Salto do Jacuí (RS), foi marcada por repressão e violência.
“A Brigada Militar Gaúcha era controlada e comandada pela União Democrática Ruralista, braço armado do latifúndio. Eram um estado dentro do Estado e o fraco governo de Pedro Simon do PMDB, que à época, representava esperança, omitiu-se e foi conivente com o massacre. Tempos também de ódio aos que lutavam por justiça”, relatou Frei Sérgio, em artigo publicado no Brasil de Fato, em maio de 2019.

Entre palmas, discursos e músicas, os amigos e admiradores que realizavam a cerimônia de despedida celebraram o legado do religioso.
“O personagem que ele cultivou, que participou de todos os espaços da luta política, ele também cultivou um valor que eu admirava muito: a coragem. Para mudar o mundo tem que ter coragem”, declarou Stédile.
Edegar Pretto, diretor-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), falou da sua convivência com Frei Sérgio desde a infância. “Tenho um laço familiar dele com a minha família, especialmente com o meu saudoso pai, o Adão Pretto [um dos fundadores do MST]”, declarou, em vídeo gravado momentos antes da sua chegada na cerimônia de despedida. “Foram construtores tanto do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, dos Pequenos Agricultores e de muitas outras lutas. E esta construção que o Frei Sérgio sempre esteve à frente está dando muitos frutos na vida do povo trabalhador, dos mais pobres, dos mais pobres do campo”, diz.
“Vai fazer muita falta”, lamenta Gilberto Carvalho, secretário nacional da economia solidária. “A vida dele foi de puro amor. Ele vai continuar nos dando força para a gente guardar esse legado, da nossa entrega, a causa e a luta do povo, da justiça e da fraternidade”.
Frei Sérgio Antônio Görgen morreu aos 70 anos, na casa onde vivia, no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra, na região da Campanha do Rio Grande do Sul.
Editado por: Maria Teresa Cruz



