Agronegócio

Agronegócio brasileiro financia ocupação ilegal de terras palestinas

O Movimento BDS, realizou um chamado para “pressionar a Amaggi e impedir a aquisição de fertilizantes provenientes de territórios de alto risco ambiental em zonas ocupadas por Israel na Palestina”.

Amaggi adquire 440 caminhões para transporte de produtos agrícolas. Reprodução/Foto: VOLVO.

Por Filgueira

A Amaggi, grande produtora de soja no Brasil, recebeu insumos e fertilizantes da empresa israelense ICL. O grupo, que financia ações em defesa do capitalismo verde e propagandas sobre produções em grande escala como forma de “vencer a fome no mundo”, vem sendo alvo de denúncias por extrair recursos minerais em terras palestinas ocupadas ilegalmente.

Através de rastreamento de navios, a Repórter Brasil apurou que uma embarcação que saiu do Porto de Ashdod, na costa do Mar Mediterrâneo, ao sul de Israel, atracou no Porto de Itacoatiara, no Amazonas, no dia 15 de janeiro. Os carregamentos incluem 34 mil toneladas de cloreto de potássio e 11,3 mil toneladas de superfosfato simples, matérias-primas da fabricação de fertilizantes. A mesma matéria apontou que este não teria sido o primeiro carregamento entre a ICL e a Amaggi; segundo os dados alfandegários acessados pela Repórter Brasil, há um histórico envolvendo ambas as empresas.

A Repórter Brasil procurou o Grupo ICL, que respondeu realizar suas extrações “inteiramente dentro das fronteiras israelenses, em total conformidade com todos os regulamentos aplicáveis”. As ocupações de Israel na Palestina a partir de 1967 – onde concentra as operações do Grupo ICL – são consideradas ilegais à luz do direito internacional, pois violam as definições acordadas pela Organização das Nações Unidas na criação de Israel em 1947. Apesar disso, escancarando o fracasso do direito internacional e de agências como a ONU, controlada por potências imperialistas, Israel segue ocupando a Palestina e, desta vez, como parte do acordo de cessar-fogo, o Conselho de Paz de Trump planeja controlar parte da região e ‘reconstruí-la’ com um complexo imobiliário luxuoso que levará à expulsão de palestinos desabrigados, famintos e doentes de Gaza.

Além disso, através da subsidiária ICL Rotem, o grupo atua em áreas do deserto Naqab, o que força o deslocamento dos beduínos, uma comunidade tradicional pastoral formada por populações muçulmanas nômades e seminômades. Para o ICL abrir uma nova mina de fosfato próximo a cidade de Arad, cerca de 100 mil moradores da região seriam afetados, sendo 15 mil deles beduínos. Em 2017, um vazamento da ICL Rotem despejou cerca de 100 mil metros cúbicos de resíduos tóxicos no rio Ashalim, causando severos impactos na fauna e na flora. Outra subsidiária, Dead Sea Works, juntamente com outra empresa jordaniana contribuíram para cerca de 35% do desaparecimento do Mar Morto através de suas lagoas de evaporação industrial.

O grupo ICL não é responsável “apenas” pela ocupação de terras palestinas, despejos forçados e poluição ambiental, o grupo é também denunciado pelo fornecimento de fósforo branco para projéteis militares dos EUA que, por sua vez, são fornecidos a Israel para uso contra civis palestinos. O uso de fósforo branco é apenas um dos inúmeros crimes de guerra cometidos pela máquina genocida sionista e o imperialismo estadunidense. Mas para o grupo Amaggi, em contato com a Repórter Brasil, não foram encontradas diligências relativas à ICL que demonstrasse “qualquer limitação que impedisse a transação comercial” e que prejudicasse sua “reputação, credibilidade e princípios de legalidade, ética, transparência e integridade”.

O Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), realizou um chamado para “pressionar a Amaggi e impedir a aquisição de matéria-prima para fertilizantes provenientes de territórios de alto risco ambiental em zonas ocupadas por Israel na Palestina”.

Apesar da estreita relação institucional Brasil-Israel na importação bélica e no treinamento militar sionista para as polícias estaduais e o exército brasileiro, além da exportação de petróleo da Petrobrás para abastecer os tanques de guerra genocidas, é o setor privado, especialmente o agro, que vem financiando o Estado colonizador de Israel e lucrando com ele.

Os dados de 2024 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apontam que as relações entre os dois países somam mais de US$1,2 bilhão (aproximadamente R$6,48 bilhões), uma baixa de 14,9% em relação a 2023/2024. Entre os principais produtos que o Brasil importa de Israel, destacam-se os insumos dos grupos dos fertilizantes (37,6%) e dos inseticidas (6,6%), além de aeronaves, equipamento bélico e diversos outros produtos da indústria têxtil, tecnológica e da construção civil.

Fonte: MDIC/GOV.

Os treinamentos das polícias estaduais e do exército brasileiro pela máquina genocida israelense não constam no gráfico por se caracterizarem como “relações militares” entre os países, e não produtos/serviços exportados.

As exportações, por outro lado, tiveram um aumento de 9,6% em relação ao período anterior, chegando a US$725,1 milhões (quase R$4 bilhões). Os principais setores beneficiários das exportações para Israel encontram-se o agronegócio – com a Agricultura “bruta” (como soja, milho, café não torrado, etc.) e produtos da Indústria de Transformação (como carnes, sucos, cafés torrados, etc.) – e o setor da Indústria Extrativa, com destaque para óleos brutos de petróleo e minerais betuminosos.

Fonte: MDIC/GOV.

A luta pela libertação da Palestina e pelo fim do genocídio, do apartheid e do colonialismo sionista é também uma luta por justiça climática e responsabilização da burguesia pelo financiamento e cumplicidade com o horror imposto por Israel. A Amaggi está no top 10 das maiores empresas do agronegócio brasileiro, segundo a Forbes e esteve na COP 30 para falar de “práticas regenerativas” na agricultura, enquanto financia ativamente a degradação do meio ambiente e o extermínio do povo palestino em nome do capital financeiro. Não há ilusões com grandes empresas, agronegócio e demais conglomerados capitalistas; a COP 30, celebrada por diversos setores liberais e reformistas, foi um balcão de negócios entre grandes potências para rifar o mundo.

Criança sofrendo de desnutrição acompanhada no Hospital da Sociedade de Pacientes na Cidade de Gaza. Reprodução/Foto: Mohammed Nateel/Unicef.

Enquanto mais de 600 mil pessoas estão passando fome em Gaza e cerca de 100 crianças morreram de desnutrição (sem considerar subnotificações), segundo dados da ONU, o agro brasileiro deslancha com recordes de arrecadação e financiando o exército israelense que, além de cometer o maior genocídio televisionado de todos os tempos, impede a entrada de ajuda humanitária em Gaza, incluindo medicamento e comida.

Conforme apontado em matéria do jornal O Futuro, enquanto realiza arcabouço fiscal, cortando investimentos em áreas primárias como saúde e educação, o Governo Lula-Alckmin e o Congresso entregaram mais de R$700 bilhões em crédito para o agronegócio entre 2023 e 2025 através do Plano Safra pelo BNDES; afrouxam as legislações ambientais com o PL da Devastação; suscitam projetos de parcerias público-privada para gestão de rios, entre outros. O agronegócio é a expressão concreta do avanço e consolidação do capitalismo no campo, e o latifúndio é um dos pilares do poder político no Brasil. O acordo aprovado entre o Mercosul e a União Europeia tende a fortalecer ainda mais este setor que conta com cada vez mais dinheiro público e isenções tributárias para seu fomento.

A luta pela libertação da Palestina, mostra cada vez mais ser o elo condutor das lutas do proletariado mundial contra as burguesias nacionais e internacionais. No Brasil e no mundo, lutar pela Palestina é também lutar pela nacionalização das terras, expropriação da burguesia e pela derrubada do capitalismo; são lutas indissociáveis.

*Editado por Priscila Ramos