Mulheres em Luta

Em Rio Bonito do Iguaçu (PR), mulheres do MST marcham em defesa da natureza e da Reforma Agrária

Mobilização reuniu cerca de mil mulheres e integra a Jornada Nacional de Lutas do Dia Internacional das Mulheres, com debates sobre crise ambiental, agroecologia e apoio às famílias atingidas por tornados no Paraná

Foto: Diangela Menegazzi

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST no Paraná
Da Página do MST

Faixas, estandartes, batucada e muita animação deram o ritmo da marcha que abriu o Encontro Estadual das Mulheres Sem Terra do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Paraná, em Rio Bonito do Iguaçu. Cerca de 1.000 (mil) mulheres de todo o estado participaram da caminhada de aproximadamente dois quilômetros nesta segunda-feira (9).

O trajeto começou em um posto de gasolina que ainda tem parte do telhado destruído pelos tornados que atingiram a região em 7 de novembro, deixando vítimas fatais e centenas de feridos. O ponto de chegada foi um grande terreno vazio no centro da cidade, onde antes do tornado funcionava a Escola Municipal Rio Bonito do Iguaçu (CERBI).

Bruna Zimpel, da coordenação nacional do MST, acampada em Clevelândia, destacou que a ajuda humanitária prestada pelo Movimento após a passagem do tornado busca refletir e fortalecer um modo de vida baseado no trabalho e na convivência coletiva. Durante o encontro, a prática da solidariedade foi reafirmada como o valor central que guia a organização das famílias desde a ocupação da terra.

“A solidariedade é um exercício, é uma prática, é um valor humano que nós vivenciamos todos os dias da nossa vida. Ela não nasce a partir da Brigada [de Solidariedade], ela é o resultado daquilo que já existe nos nossos territórios”. A Brigada atuou durante cerca de 50 dias, desde o dia seguinte ao tornado. Foram organizadas ações como produção de marmitas, reconstrução de casas e mutirões de limpeza das ruas. Cerca de mil militantes do MST contribuíram com os trabalhos entre novembro e dezembro passados.

Foto: Vinicius Carvalho

A mesa de abertura foi composta somente por mulheres: Bruna Zimpel, da coordenação nacional do MST; Lenir de Assis, deputada federal (PT); Luciana Rafagnin, deputada estadual (PT); Zuleide Macari, da Itaipu Binacional; Solange Fiuza, do Ministério das Mulheres; e Olide Bovino, primeira-dama de Rio Bonito do Iguaçu.

No período da tarde, a plenária do encontro recebeu também Marley Fernandes, da APP Sindicato; Manuela Carvalho, professora da UFFS; Fábio Luiz Zeneratti, diretor do campus de Laranjeiras do Sul; Professor Lemos, deputado estadual (PT); e Daniela Pivoto, do Ibama.

O encontro, marcado pelo caráter de denúncia das violências contra as mulheres e da crise ambiental causada pelo avanço do agronegócio, combina mobilização, formação política e ações de solidariedade. As trabalhadoras rurais vêm de assentamentos e acampamentos da Reforma Agrária de todo o estado e buscam envolver também mulheres da cidade.

No primeiro dia, a programação incluiu apresentações culturais, como as intervenções de batuqueiras do grupo Maracatu Baque Mulher Curitiba e a apresentação da orquestra municipal de Rio Bonito, formada por crianças, adolescentes e jovens. As mulheres Sem Terra também fizeram intervenções musicais, com tambores, baquetas e enxadas, inspiradas na Bateria Lona Preta, do MST no Paraná, e no Bloco Pisa Ligeiro, do MST em Minas Gerais.

As atividades do Encontro Estadual das Mulheres Sem Terra seguem até esta terça-feira, com atividades também em Laranjeiras do Sul e Guarapuava. A programação integra a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra, realizada em todo o país em referência ao Dia Internacional das Mulheres.

Natureza é questão de sobrevivência

Foto: Diangela Menegazzi

Na tarde desta segunda-feira, poucos dias após a marca de quatro meses do tornado que atingiu Rio Bonito, o pároco local, padre Cristian dos Santos Jardim, da Paróquia Santo Antônio, presente na atividade, trouxe um alerta sobre a necessidade de unir a reconstrução física ao cuidado psicológico e ambiental.

Segundo ele, o evento climático deve servir como um divisor de águas para a conscientização da comunidade. O sacerdote enfatizou que a preservação da natureza não é apenas uma questão ideológica, mas de sobrevivência para o município. Ele destacou a relação direta entre as ações humanas e a recorrência de desastres naturais:

“Nós temos que tomar consciência do cuidado ecológico que nós temos que ter. Se nós continuarmos com o desmatamento, com a poluição, nós vamos nos matar e Rio Bonito vai ser apenas uma daquelas outras cidades que virão, porque vai vir mais e mais se não tomarmos consciência”.

Partilha de 3 mil cestas de alimentos

Foto: Diangela Menegazzi

Como encerramento das atividades deste primeiro dia, as participantes distribuíram 3 mil cestas de alimentos a pessoas atingidas pelo tornado na área urbana de Rio Bonito e em acampamentos do MST nos municípios vizinhos, além da distribuição de mudas medicinais e frutíferas.

Todos os produtos da cesta — feijão, arroz, achocolatado, fubá de milho, macarrão, melado, erva-mate, farinha de mandioca e café — foram produzidos por cooperativas da Reforma Agrária e comprados pelo Governo Federal por meio de uma parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (ACAP).

Agroecologia para enfrentar a crise ambiental

Marisela Hernandez, professora de ciências econômicas da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Laranjeiras do Sul, ministrou uma palestra durante o seminário “Os impactos da crise ambiental, mulheres e agroecologia”. A estudiosa trouxe reflexões sobre os efeitos da crise climática na vida das mulheres do campo.

“Quando a gente pensa em crise ambiental, a gente tem que pensar quais são as causas da crise ambiental. E aqui, no caso do Brasil, o primeiro condicionante mais importante é o agronegócio”, garantiu. Ela apresentou dados indicando que o agronegócio é responsável por mais de 70% da emissão de dióxido de carbono, um dos gases causadores do efeito estufa, que aumenta a temperatura da terra, do ar e das águas dos oceanos.

A professora chamou a atenção para a característica da mudança climática, que chega de forma violenta, imprevisível, e causa destruição de casas, de vidas e da cultura. “Tudo isso porque vivemos nesse sistema econômico em que o lucro está acima da vida”.

A agroecologia é apresentada por ela como caminho para superar esse modelo de destruição. “Sabemos que não tem vida sem natureza, porque a natureza não é um recurso material, é o avesso da vida. Então essa é nossa missão, denunciar à sociedade que esse sistema está acabando com a vida […]. Por isso nós precisamos produzir diferente, produzir o necessário, distribuir a renda. Mas para isso precisamos mudar o sistema econômico por um sistema que coloque a vida acima do lucro”, enfatizou.

Mulheres farão plantio de 5 mil árvores

Foto: Leandro Taques

Nesta terça-feira (10), as atividades seguem com ações de solidariedade em áreas de Reforma Agrária atingidas pelos tornados registrados no Paraná em novembro de 2025. As mulheres participarão de plantios de árvores, caminhadas e visitas às comunidades afetadas.

Em Rio Bonito do Iguaçu, a ação ocorrerá na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, com o plantio de cerca de 5 mil mudas em áreas degradadas, como parte das iniciativas da Jornada da Natureza. Também haverá atividades no acampamento Antônio Conrado, onde será realizado plantio de árvores em áreas impactadas pelos ventos fortes. Já em Guarapuava, está prevista uma visita ao assentamento Nova Geração, com plantio de árvores e ações de solidariedade às famílias atingidas.

Realização

O evento é organizado com apoio do projeto Semeando Gestão, fruto do convênio entre a Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA-PR) e a Itaipu Binacional, por meio do Programa Mais que Energia, alinhado ao Governo do Brasil, e o Comitê de Cultura do Paraná. Militantes do coletivo Marmitas da Terra, de Curitiba, também participam da atividade.

*Editado por Fernanda Alcântara