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MST se despede de uma das principais referências da luta pela terra em São Paulo

Companheiro Bil, presente!

Foto: MST

Da Página do MST

Na noite de ontem, dia 20 de abril, aos 69 anos, o nosso companheiro Valmir Rodrigues Chaves nos deixou fisicamente, mas seu legado permanecerá presente em cada militante que segue na luta por um pedaço de chão. Assentado na Gleba XV de Novembro, na região do Pontal do Paranapanema, compôs a primeira Comissão dos Assentados do Estado de São Paulo, uma das primeiras ações organizativas das famílias assentadas paulistas. Bil, como era conhecido, é uma referência histórica do MST.

Mineiro de nascença, aos sete anos se mudou com a família para o Paraná para trabalhar nas lavouras de café. Em novembro de 1983, ao lado de sua companheira Dona Cida, levando a família e o sonho da terra, saiu de Nova Londrina (PR) e rumou para a região do Pontal do Paranapanema para se somar às trincheiras de luta no estado. Em 1985, conheceu o MST através do companheiro Renê Parren e Dona Lúcia (referências da luta em Andradina) e começou a participar das reuniões de base. Em 1986, junto a outras famílias Sem Terra conquistaram a Gleba XV de Novembro, um dos primeiros assentamentos de Reforma Agrária do Estado de São Paulo.

Foto: MST

Sua história se funde com a própria luta pela terra no estado. Bil não apenas ocupou o latifúndio, mas também ajudou a construir a dignidade de centenas de famílias que hoje vivem e produzem nos assentamentos. Levou a sério os versos do poeta Ademar Bogo que dizem: “Quando chegar na terra, lembre de quem quer chegar. Quando chegar na terra, lembre que tem outros passos pra dar”. Junto a outros companheiros e companheiras, em 14 de julho de 1990, fincou a bandeira do MST na ocupação da fazenda Nova Pontal, localizada no município de Rosana, e foi considerada um marco no avanço das lutas na região.

Com a efervescência das lutas no Pontal na década de 1990 vieram também as perseguições, repressão e prisões daqueles que ousavam enfrentar o latifúndio. Bil sempre enfrentou esses momentos com a altivez de quem sabe que está do lado certo da história, mesmo que isso exigisse, por alguns momentos, se distanciar da família, dos amigos e companheiros de caminhada.

Bil também foi um companheiro fundamental na construção do Setor de Produção do MST, contribuindo no fortalecimento de associações e cooperativas em diversas regiões do estado de São Paulo. Recentemente estava à frente da Coopercampo, cooperativa dedicada à produção leiteira, agrícola e de assistência técnica rural que atende mais de 300 famílias assentadas na região.

Nosso companheiro sempre esteve presente nas lutas pela terra com muita garra, mas também com muita ternura e alegria, como pudemos vivenciar junto a ele nas festividades culturais, cavalgadas e outras ações que reforçavam sua ligação com a terra. Hábil no uso das analogias, arrancava risos dos companheiros e, sarcástico, constrangia os que não acreditavam na potência de um trabalhador que luta por seus direitos. É por isso que hoje nos despedimos tomados por uma tristeza profunda, mas com os corações agradecidos por toda sua trajetória. Nos solidarizamos com sua companheira Dona Cida, com os filhos João Paulo, Saulo, Ana Paula, Wagner e João Pedro, netos e netas, e todos os familiares e amigos.

Sua vida foi dedicada a transformar o latifúndio em chão para quem vive e trabalha. O exemplo de Bil continuará vivo em cada pedaço de terra ocupado, em cada bandeira fincada, em cada hectare conquistado e em cada trabalhador e trabalhadora que se levanta para lutar.

Foto: MST

Militância do MST em São Paulo

21 de abril de 2026