Morre Jean Ziegler, sociólogo e relator da ONU que denunciou a geopolítica da fome
Para Jean Ziegler o trabalho intelectual não poderia limitar-se à descrição da realidade social, mas deveria contribuir para sua transformação

Por Paulo Sérgio Pinheiro*
Do A Terra é Redonda
Jean Ziegler se foi no dia 10 de junho, em Genebra, aos 92 anos. Nos conhecemos nos idos de 1990 e, desde então, construímos uma profunda amizade que atravessou décadas. Jean Ziegler foi uma das figuras intelectuais e políticas mais marcantes de sua geração. Militante de esquerda durante toda a vida, representou o cantão de Genebra no Parlamento Federal Suíço como Conselheiro Nacional entre 1967 e 1983 e, posteriormente, entre 1987 e 1999.
Sociólogo, escritor e ativista incansável, tornou-se conhecido internacionalmente por sua crítica contundente ao sistema financeiro suíço. Em 1976 publicou Une Suisse au dessus de tout soupçon que, no Brasil, recebeu o título A Suíça lava mais branco, lançada pela Paz e Terra. A partir daí, consolidou-se como uma das vozes mais firmes na denúncia do poder das elites financeiras e das grandes corporações multinacionais.
Admirado por aqueles que combatiam a pobreza e as desigualdades em todo o mundo, também enfrentou inúmeros processos judiciais e pesadas sanções financeiras, sem jamais abandonar suas posições ou interromper sua luta.
Entre 2000 e 2008, Jean Ziegler foi Relator Especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação. Nessa função, denunciou incansavelmente a fome como um escândalo moral e político de dimensões globais. Tinha ligação especial com o Brasil consolidada em muitos laços pessoais e como relator especial veio em missão, visitando vários estados em companhia de uma larga comitiva de imprensa que sorvia todas suas falas.
Em Brasília, foi recebido por diversos ministros e pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Havia então uma grave crise política no Maranhão e o ambiente no Palácio do Planalto era particularmente tenso. O ajudante de ordens abriu várias vezes a porta para encerrar a reunião do presidente com Jean Ziegler, mas a conversa só terminou mais de hora e meia depois, tantos eram os contatos entre os dois.
Posteriormente com apoio do Brasil, Jean Ziegler foi eleito membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU, onde atuou de 2008 a 2012. Ali continuou a documentar os impactos das políticas econômicas globais sobre os povos mais vulneráveis e aprofundou sua defesa dos direitos humanos, especialmente em favor do que hoje chamamos de Sul Global.
Vinte anos depois de sua missão ao Brasil como relator especial da ONU, Jean Ziegler participou em maio de 2022 de um júri composto por sete membros (juízes) internacionais e especialistas em direitos humanos, no Tribunal Permanente dos Povos (TPP), sucessor do Tribunal Russell, que realizou sua 50ª. sessão na Faculdade de Direito da USP em São Paulo.
O painel foi responsável por julgar e condenar o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro por crimes contra a humanidade e violações de direitos humanos durante a gestão da pandemia de Covid-19, sentença juntada à denúncia contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional, em Haia.
Sua obra em sociologia e direitos humanos é marcada por alguns grandes eixos temáticos recorrentes: a crítica ao capitalismo financeiro globalizado, a denúncia da fome como construção política e econômica, a análise das relações desiguais entre Norte e Sul, a crítica das instituições internacionais e a defesa intransigente dos direitos humanos como fundamento ético da ordem internacional.
Um dos conceitos centrais de seu pensamento era a “geopolítica da fome”. Em diversas obras, especialmente L’Empire de la honte (2005) e Destruction massive:géopolitique de la faim (2011), Jean Ziegler sustentava que a fome não resulta da escassez de recursos naturais ou da incapacidade produtiva da humanidade. Ao contrário, argumentava que ela é produzida por mecanismos econômicos e políticos que concentram riqueza e poder, enquanto privam milhões de pessoas do acesso aos meios elementares de sobrevivência. Sua célebre afirmação de que “uma criança que morre de fome é uma criança assassinada” sintetiza essa visão da fome como consequência de decisões humanas e não de fatalidades naturais.
Outro pilar de sua reflexão foi a crítica às estruturas do capitalismo contemporâneo e ao poder das corporações transnacionais. Em Les Nouveaux Maîtres du monde et ceux qui leur résistent (2002), analisou a crescente influência dos mercados financeiros, das instituições econômicas internacionais e das grandes empresas privadas sobre os Estados nacionais. Nessa obra, argumenta que a globalização neoliberal produziu uma erosão da soberania democrática e ampliou as desigualdades em escala planetária. A mesma preocupação atravessa L’Empire de la honte, na qual denuncia o que chama de “ordem canibal do mundo”, caracterizada pela coexistência de abundância material e exclusão social em níveis sem precedentes.
A denúncia das desigualdades entre o Norte e o Sul globais constitui outro eixo fundamental de sua produção intelectual. Em La Haine de l’Occident (2008), traduzido no Brasil como Ódio ao Ocidente, Jean Ziegler procurou compreender as raízes históricas do ressentimento dirigido às potências ocidentais. Para ele, esse sentimento não decorre de choques culturais ou religiosos, mas de séculos de colonização, exploração econômica e dominação política. A obra insere-se em uma reflexão mais ampla sobre os legados do colonialismo e as formas contemporâneas de dependência econômica.
Também ocupam lugar de destaque em sua trajetória os estudos sobre a Suíça e o sistema financeiro internacional. Em Une Suisse au-dessus de tout soupçon (1976), desmontou a imagem de neutralidade moral associada ao país e examinou criticamente o papel de suas instituições financeiras na circulação de capitais internacionais.
Duas décadas depois, em La Suisse, l’or et les morts (1997), aprofundou essa investigação ao analisar as relações dos bancos suíços com os bens saqueados pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial, obra que provocou intenso debate público na Suíça e no exterior.
Ao longo de toda a sua produção, Jean Ziegler reivindicou uma sociologia engajada, inspirada na tradição crítica europeia e fortemente influenciada pelo pensamento de Karl Marx, Frantz Fanon e Jean-Paul Sartre. Para ele, o trabalho intelectual não poderia limitar-se à descrição da realidade social, mas deveria contribuir para sua transformação. Essa concepção atravessa livros como Les Vivants et la mort (1975), La Victoire des vaincus (1988), L’Empire de la honte (2005), Destruction massive (2011) e Chemins d’espérance (2016), nos quais a análise sociológica aparece inseparável do compromisso ético com os oprimidos e excluídos.
A coerência entre pensamento e ação conferiu à sua obra uma singular autoridade moral. Seja como parlamentar, relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação ou membro do Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos, Jean Ziegler procurou transformar em prática política as convicções que desenvolvera ao longo de décadas de reflexão sociológica. Sua trajetória intelectual constitui, assim, um dos exemplos mais expressivos de articulação entre produção acadêmica, militância política e defesa universal da dignidade humana.
Mas, para além do intelectual e do militante, Jean era um amigo de extraordinária generosidade e gentileza. Faz trinta anos, desde meu primeiro mandato em direitos humanos na ONU, em 1995, que me levava regularmente a Genebra, invariavelmente nos encontrávamos, numa amizade muito especial, envolvendo também minha mulher Ana Luiza e nosso filho André.
Em sua casa em Genebra, repleta de lembranças de viagens mundo afora e em especial pela América do Sul, Cuba e o Caribe, hospitalidade enorme e conversas inesgotáveis ao redor da mesa. A seu lado estava sempre sua mulher Erica Deuber Ziegler, Lulu, historiadora da arte, figura destacada da vida cultural de Genebra e também militante política de esquerda. Deputada do Grande Conselho do cantão de Genebra entre 1985 e 2003, compartilhou com Jean Ziegler não apenas uma vida em comum, mas também os ideais e compromissos que marcaram ambas suas trajetórias.
Com a partida de Jean Ziegler, desaparece uma das maiores consciências críticas do nosso tempo. Fica sua extensa e influente obra, coragem indômita intelectual, indignação implacável diante das injustiças e, para aqueles que tiveram o privilégio de sua amizade, uma lembrança viva que nos marcará a todas e todos para sempre. Todas as condolências a Erica e a sua família.
*Paulo Sérgio Pinheiro é professor aposentado de ciência política na USP; ex-ministro dos Direitos Humanos e membro da Comissão Arns. Autor, entre outros livros, de Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935 (Companhia das Letras).



