Artigo
Memória e resiliência: celebramos o orgulho LGBTQIA+ com coragem
Entre celebração e luto, trajetórias LGBTQIA+ seguem confrontando violações de direitos e reforçando a busca por respeito e cidadania

Por Matheus Pereira, Luana Oliveira e Wesley Lima*
Da Página do MST
No Brasil, onde a violência ainda atravessa e condiciona a forma como vivemos e ocupamos o mundo, celebrar nossas existências é, também, um ato de coragem coletiva. No mês de junho, quando comemoramos o orgulho LGBTQIA+, reafirmamos a força de nossas trajetórias e resgatamos a memória daqueles e daquelas que tiveram suas vidas interrompidas pela violência. Entre a celebração e o luto, seguimos cultivando resistência, preservando legados e defendendo o direito de existir com dignidade, liberdade e orgulho.
Essas premissas nascem do desejo coletivo de mudança. E o Movimento LGBTQIA+, em sua trajetória, também tem muito a nos ensinar.
A revolta de Stonewall, por exemplo, que ocorreu em 28 de junho de 1969, foi um marco na luta pelo reconhecimento das liberdades sexuais e contra o preconceito. No Brasil no mesmo ano, pessoas LGBTQIA+ foram alvo da perseguição e repressão do regime ditatorial. Nesse contexto de graves violações dos direitos humanos e violenta repressão, pessoas homossexuais, transexuais e prostitutas representavam uma ameaça aos defensores da “moral e dos bons costumes” e eram vistos como “desviantes”.
Em nosso país, operações como Rondão e Operação Tarântula, foram episódios de violência sistemática contra travestis e pessoas transexuais no Brasil. O Rondão ocorreu durante a ditadura militar (1980–1985), aprisionando cerca de 1.500 pessoas trans/travestis durante “varreduras” policiais em São Paulo, enquanto a Tarântula foi realizada após o fim da ditadura, entre 27 de fevereiro e 10 de março de 1987, quando mais de 300 travestis foram presas e torturadas em 10 dias sob a justificativa oficial de “combater a AIDS”. O objetivo real dessas violências foi eliminar a população LGBTQIA+ da cidade de São Paulo, liderada pelo delegado José Wilson Richetti.
Ambas as operações representam a continuidade das práticas repressivas do regime ditatorial, mesmo após 1985, e hoje são reconhecidas como perseguição política, sendo alvo de pedidos de anistia coletiva e reparação por entidades como ANTRA e ABGLT.
A violência contra pessoas LGBTQIA+ também ocorreu no âmbito do serviço público federal, como revela o relatório dos pesquisadores James Green e Renan Quinalha à Comissão Nacional da Verdade. Uma Comissão de Investigação Sumária chegou a ser constituída pelo então Ministro das Relações Exteriores Magalhães Pinto. A Comissão tinha como atribuição a investigação da vida privada e da intimidade dos funcionários do ministério e a punição de condutas consideradas escandalosas como a “embriaguez”, “instabilidade emocional”, “uso de entorpecentes” e outras práticas consideradas perigosas para a segurança nacional.
As carreiras foram interrompidas por aposentadorias sumárias e o relatório da comissão, mantido em segredo por 40 anos, demonstra claramente que a homofobia figurava como fator determinante na escolha dos cassados. Dos 15 pedidos de demissão de diplomatas, sete foram justificados pelas palavras: “Pela prática de homossexualismo, incontinência pública escandalosa”.
Segundo o mais recente Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil registrou 80 assassinatos de pessoas trans em 2025. Embora o número represente uma redução de 34% em relação a 2024 — a maior queda observada na série histórica do levantamento — a Antra alerta que essa diminuição não significa uma melhora efetiva das condições de vida da população trans. A entidade destaca que a subnotificação, a ausência de dados oficiais e a persistência da transfobia estrutural seguem ocultando parte significativa da violência enfrentada por essa população.
O perfil das vítimas permanece marcado por desigualdades históricas: das 80 pessoas assassinadas, 77 eram travestis e mulheres trans, majoritariamente negras e jovens, com idade entre 18 e 29 anos. Mesmo com a redução dos homicídios, o Brasil continua ocupando, pelo 18º ano consecutivo, a posição de país que mais mata pessoas trans no mundo. Além disso, o dossiê aponta o aumento das notificações de agressões e outras formas de violência motivadas por transfobia, evidenciando que a vulnerabilidade dessa população permanece elevada e demanda respostas mais efetivas do Estado e da sociedade.
Violência no campo
A violência não está atrelada apenas aos grandes centros urbanos. O Grupo Gay da Bahia (GGB), mais antiga organização LGBT+ da América Latina, divulgou o número de mortes violentas de LGBT+ no Brasil referente ao ano de 2025. Mesmo com a redução nos números em relação ao ano anterior (291), o país continua sendo liderança mundial em assassinatos de pessoas LGBT+, com 257 mortes violentas, seguido do México com 40 homicídios e os Estados Unidos, 10. Os dados refletem a omissão e subnotificação crônica do Estado brasileiro, que ainda não implementa sistematicamente o registro de crimes de ódio motivados por LGBTfobia*
Dentre as mortes, mesmo não sendo ligadas diretamente à disputa por terra e território, 21 ocorreram em ambiente rural, incluindo lavouras, matas, lagoas, beiras de estrada e outros locais do campo. Pessoas trans são a maioria das vítimas, sendo 10 mulheres trans, uma travesti e um homem trans, além de 9 homens gays. A faixa média de idade é de 31 anos.
Os estados de Pernambuco e de Mato Grosso lideram os números, com 3 assassinatos cada, seguidos de Bahia, Ceará, Espírito Santo e São Paulo, com 2 vítimas em cada unidade da federação. Em relação às regiões, o Nordeste lidera com 9 mortes, seguido do Sudeste (5), do Centro-Oeste (4) e do Norte, com três vítimas. A pesquisa, realizada há mais de 45 anos de forma independente e voluntária, baseia-se em notícias veiculadas na mídia, redes sociais, blogs e correspondências enviadas ao GGB.
As violências contra pessoas LGBT+ incluem algumas características, como a relação intrafamiliar – casos envolvendo familiares próximos ou conviventes do lar (vizinho, namorado etc.), reforçando que o perigo não se limita ao espaço público, motivação LGBTfóbica explícita – quando as vítimas foram alvo de homicídios motivados por rejeição à sua orientação sexual ou identidade de gênero, e a baixa elucidação – a taxa de esclarecimento desses casos é ainda menor do que a média geral, reforçando a seletividade institucional e a negligência do sistema de justiça.
No MST, temos casos históricos e emblemáticos. Entre eles, destaca-se o assassinato de Lindolfo Kosmaski, jovem agricultor, professor e militante do Coletivo LGBT Sem Terra no Paraná, morto em maio de 2021 em um crime denunciado como LGBTfóbico; Gabriel Araújo, jovem Sem Terra do Espírito Santo, cuja morte também foi denunciada pelo MST como possivelmente relacionada a crime de ódio e LGBTfobia; e a morte de Aline da Silva, militante do MST em Pernambuco, assassinada em 19 de agosto de 2019, no município de Arcoverde, no Sertão pernambucano.
Luta permanente
O Coletivo LGBTI+ Sem Terra vem desenvolvendo a Campanha Permanente Contra a LGBTIfobia no Campo, lançada nacionalmente em 2023, com o objetivo de enfrentar as diversas formas de violência sofridas por pessoas LGBTQIA+ nos assentamentos, acampamentos, escolas do campo, cooperativas e demais espaços de organização popular vinculados ao MST. A campanha busca combinar formação política, acolhimento, monitoramento de violências, produção de materiais pedagógicos e mobilização nos assentamentos e acampamentos para construir territórios mais seguros e livres de discriminação.
Nos últimos anos, a campanha passou a ocupar um papel estratégico dentro do movimento. Durante o processo de celebração dos 10 anos do Coletivo LGBTI+ Sem Terra, o MST reafirmou que o combate à LGBTIfobia como parte fundamental da construção da Reforma Agrária Popular. O coletivo destaca que a violência contra pessoas LGBTQIA+ no campo não se limita às agressões físicas, mas inclui exclusão social, discriminação, silenciamento e negação de direitos.
Um dos elementos mais interessantes da campanha é que ela não se apresenta apenas como uma ação de denúncia. O MST a define como um processo permanente de transformação cultural, articulando comunicação, educação popular, cultura e organização de base. Em diferentes materiais do coletivo aparece a defesa de que não basta combater a violência depois que ela acontece; é preciso construir relações sociais capazes de impedir que ela se reproduza nos territórios.
Entende-se que a construção de uma sociedade livre de todas as opressões é uma responsabilidade coletiva que envolve todas as pessoas para avançarmos na construção de novas relações em nossos territórios, reiterando que não há territórios livres, sem corpos livres*
O coletivo LGBTI do MST
O Coletivo LGBTI do MST é um espaço de auto-organização das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e demais identidades políticas que integram o MST. O coletivo atua na formação política, no combate à LGBTfobia nos assentamentos e acampamentos, na promoção da diversidade e na construção da pauta LGBTQIA+ dentro do projeto de Reforma Agrária Popular.
O coletivo começou a se estruturar a partir de 2015, com a realização do primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual no MST, realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Em 2018, o coletivo passou a integrar formalmente a estrutura organizativa do Movimento. Desde então, tem promovido encontros, campanhas de enfrentamento à LGBTfobia, processos de formação e articulações nacionais e internacionais.
Em 2025, o Coletivo celebrou 10 anos de organização nacional, destacando a presença histórica de pessoas LGBTI+ na luta pela terra e reafirmando o compromisso do MST com a diversidade sexual e de gênero. Entre as iniciativas recentes estão a Campanha Contra a LGBTIfobia no Campo e encontros nacionais voltados ao fortalecimento da participação de pessoas trans, travestis e demais sujeitos LGBTQIA+ nos territórios da reforma agrária.
*Matheus, Luana e Wesley integram o Coletivo LGBTI+ do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
**Editado por Fernanda Alcântara



