Experiências concretas
Cooperativismo do Sul Global: Modelos Comunais e Cooperativos na Venezuela, na Índia e na China
Neste 5 de julho, dia do Cooperativismo Internacional, o convite é para olharmos para experiências exitosas no Sul Global, que tem gerado importantes transformações nessa área

O debate sobre as alternativas econômicas e políticas ao modelo de acumulação capitalista exige um olhar rigoroso sobre as experiências concretas que se gestam a partir do Sul Global. Sob essa premissa geopolítica, desenvolveu-se a quinta sessão do Seminário Internacional organizado pela Associação Internacional para a Cooperação Popular (IAPC), que, junto ao Fórum Acadêmico do Sul Global da China, à Faculdade Josué de Castro do Brasil e à Secretaria 24H+ de Gana, que permitiu conectar, de forma simultânea, os saberes, as reflexões teóricas e as práticas militantes de comunidades que, em distintas latitudes do planeta, compartilham um mesmo horizonte de transformação social.
A sessão foi marcada por uma coincidência sugestiva: a letra “S” na inicial dos nomes dos palestrantes e da palestrante. Da América Latina e do Caribe, Saúl Osio Pedret expôs a profundidade do tecido comunal venezuelano; do sul da Ásia, Subin Dennis detalhou a trajetória histórica do movimento popular no estado indiano de Kerala; e do extremo oriental, a voz de Sun Xiaowei compartilhou a experiência da Superliga das Aldeias no condado autônomo de Rongjiang, na província chinesa de Guizhou. Essa confluência permitiu estruturar um diálogo intercultural baseado em soluções reais para problemas comuns gerados pelo grande capital.
A tese central que atravessou o encontro, e que vertebra a presente análise, postula que as cooperativas e as comunas não podem ser concebidas sob a lógica instrumental do sistema dominante. Ou seja, não são meras unidades de intercâmbio econômico subordinadas ao mercado, nem tampouco dispositivos assistenciais ou paliativos de desenvolvimento desenhados para amortecer a pobreza. Pelo contrário, essas experiências constituem os alicerces sociais para uma democratização profunda da vida, construção material da soberania local e resistência ativa frente às dinâmicas de espoliação do capitalismo transnacional. A potência dos modelos expostos reside, precisamente, na sua capacidade de mobilizar de forma genuína as massas populares, conseguindo que o povo se envolva ativamente a partir da defesa de suas paixões mais profundas, de suas necessidades materiais cotidianas e de seus interesses históricos de classe.
Venezuela: A Comuna e a economia comunal
Saúl Osio Pedret é vice-ministro de Economia Comunal no Ministério do Poder Popular para as Comunas e Movimentos Sociais da Venezuela. Durante o seminário, ele situa as origens políticas da comuna no processo constituinte e revolucionário iniciado em 1999, o qual refundou o Estado, transitando de uma democracia representativa tutelada pelo Ocidente para um modelo soberano de Democracia Participativa e Protagônica. Segundo as abordagens do vice-ministro, essa transformação apontou para a descolonização de um Estado historicamente extrativista, preso primeiro na lógica colonial agrícola e, depois, na dependência do extrativismo petrolífero que subordinava o país como o quintal de potências estrangeiras. Frente à herança representativa, cujo atraso burocrático distanciava as prioridades do governo das necessidades reais da população, Osio assinalou que o modelo comunal recupera o conceito pré-marxista da toparquia proposto por Simón Rodríguez: o governo direto do território a partir dos elementos culturais e materiais comuns identificados pela própria comunidade.
Dentro desse arcabouço de governança, o Ministério do Poder Popular para as Comunas, Movimentos Sociais e Agricultura Urbana atua como a autoridade central do gabinete responsável por coordenar o desenvolvimento das comunas em nível nacional. O país estabeleceu um sistema de autonomia comunal de massas de cinco níveis, estruturado de baixo para cima (Conselhos Comunais → Comunas → Cidades Comunais → Federações Comunais → Confederações Comunais), o qual opera de forma independente do sistema administrativo municipal tradicional. O Conselho Comunal é a unidade básica da organização, concebido como um conjunto de Comitês de Trabalho onde os cidadãos se unem com base em sua área de atuação para resolver problemas específicos. A comuna, longe de ser transposição ou cópia de outras latitudes, nasce por iniciativa própria quando diversos conselhos comunais identificam, em Assembleia de Cidadãos e Cidadãs, continuidades territoriais, eixos viários, bacias hidrográficas ou potencialidades produtivas comuns. Essa agregação popular delimita seu âmbito mediante uma poligonal construída no calor da discussão coletiva e expressa seus princípios em uma Carta Fundacional. Osio enfatizou que o exercício do autogoverno na comuna é exercido de maneira assemblear e horizontal, sem estruturas presidencialistas, articulando um processo sustentado de renovação constante de lideranças mediante eleições periódicas de porta-vozes a cada três anos.
Para o palestrante, a comuna funciona como um ente de governança integral e soberania que materializa os planos de segurança e defesa da nação em articulação direta com o alto comando político da revolução, garantindo a estabilidade política no território. Do seu ponto de vista, essa estrutura funciona como um espelho desconcentrado dos cinco poderes públicos do Estado venezuelano, exercidos de forma coletiva e por agregação através de seis instâncias fundamentais detalhadas em sua exposição:
O Parlamento Comunal: Instância que legisla a convivência e a interação do território mediante a formulação de “cartas comunais” e planos de desenvolvimento econômico local.
O Conselho Executivo: Instância que executa as políticas locais, administra os recursos e coordena comitês essenciais de serviços públicos, habitação e educação.
A Controladoria Social: Órgão que exerce a fiscalização, o controle e a vigilância permanente e transparente da execução das políticas públicas.
A Comissão de Justiça e Paz: Instância de controle e apelação do poder judiciário local, onde atuam os juízes de paz eleitos nas bases para dirimir os conflitos comunitários.
A Comissão Eleitoral: Ente encarregado de ordenar e organizar os diversos processos de consulta e eleições internas do território.
O Banco da Comuna: Instância organizativa que zela pela administração e execução dos recursos financeiros e não financeiros transferidos. Seu funcionamento quebra as lógicas financeiras do Ocidente, garantindo a autonomia local e eliminando a tutela das estruturas estatais.
Ao abordar a escala material desse projeto, o vice-ministro ofereceu números que demonstram seu avanço real: a Venezuela conta com um universo total de aproximadamente 49.000 conselhos comunais, dos quais 40.000 já avançaram em sua maturação organizativa e encontram-se plenamente agrupados dentro das 4.092 comunas legalmente estabelecidas com todas as suas instâncias operativas. Embora o rentismo petrolífero tenha gerado um êxodo histórico que concentra 60% das comunas em áreas urbanas, Osio argumentou que o impulso da economia comunal nas zonas rurais está disputando a soberania a partir do território. Através da transferência estatal de terras, insumos e competências em serviços públicos, as comunidades organizadas constroem um músculo financeiro que busca consolidar uma economia comunal produtiva, capaz de romper com a lógica rentista e suas distorções burocráticas.
De acordo com Osio, essa potência financeira se materializa em Empresas de Propriedade Social Direta Comunal (EPSDC) que administram os meios de produção sob um regime de propriedade comunal coletiva. Neste ponto, o palestrante enfatizou uma distinção teórica e política crucial entre esse modelo e o cooperativismo tradicional: diferentemente da propriedade cooperativa, que é coletiva mas beneficia de maneira direta os seus associados, a propriedade comunal pertence à Assembleia de Cidadãos e Cidadãs, o que obriga a que os excedentes do processo produtivo sejam distribuídos e investidos coletivamente em benefício de todo o âmbito territorial da comuna.
O Plano Comunal do Café ilustra de forma nítida a disputa que a economia comunal coloca frente às cadeias capitalistas de valor. Ao abordar esse setor de longa tradição agrícola, Osio explicou que, enquanto as famílias camponesas mantêm a propriedade familiar de seus cafezais, a propriedade comunal controla estrategicamente os elos-chave de valorização. O processamento e a torrefação são executados em plantas industriais administradas coletivamente pelas comunas rurais. Para o período 2024-2025, o palestrante destacou que esse esforço alcançou um marco inédito com a primeira exportação direta de café gerida por uma comuna, permitindo que os excedentes em divisas retornem ao território para potencializar as capacidades produtivas e resolver os problemas priorizados em assembleia.
Sob o lema de que “o povo salva o povo”, Osio descreveu como o circuito do Arroz e do Milho também avançou entre 2025 e 2026 no controle da agroindústria, historicamente monopolizada por elites econômicas. Detalhou que as comunas rurais assumiram a administração direta do armazenamento em silos e do processamento industrial do arroz, conectando-se diretamente com as comunas urbanas encarregadas da distribuição planejada. Com essa engrenagem, transforma-se de maneira profunda a intermediação nos canais de comercialização, diminuindo o preço final para o consumidor popular.
Finalmente, o vice-ministro assinalou que o Plano Agroalimentar Comunal expande atualmente esse desenho para o milho amarelo e para a produção de sementes de soja para substituir o componente importado na ração balanceada para animais. Para Osio, a transferência da infraestrutura produtiva do Estado para as comunidades por agregação permite que o Poder Popular sustente hoje um nível de abastecimento nacional de 98%, com mais de 70% dos alimentos produzidos internamente em solo venezuelano.

Podemos dizer que, embora os conselhos comunais e as comunas desempenhem hoje um papel fundamental na governança e na estabilização do território, abrigam em seu seio uma contradição dialética. Ao colocar como horizonte estratégico a edificação de um Estado Comunal para uma sociedade socialista, essas experiências formulam um questionamento direto ao poder das estruturas do Estado atual. Portanto, as comunas não atuam como meros instrumentos da gestão pública, mas configuram-se, fundamentalmente, como um germe vivo de transformação.
Índia: O enfoque da esquerda sobre as cooperativas em Kerala
A segunda intervenção do seminário esteve a cargo do economista e ativista Subin Dennis, que centrou sua análise na experiência do estado de Kerala, localizado na região sul da Índia. Com uma população de aproximadamente 35 milhões de habitantes, este território unificou-se em 1956 agrupando as regiões de língua malaiala — Travancore, Cochim e Malabar — que, durante a era colonial britânica, mantinham alianças subsidiárias. Dennis contextualizou que o movimento de esquerda em Kerala cresceu com força entre as décadas de 1930 e 1940 através de lutas anti feudais, movimentos de reforma social e da luta anti-imperialista pela independência nacional. No plano eleitoral, após a criação do estado, o Partido Comunista da Índia obteve a maioria legislativa em 1957, o que impulsionou reformas agrárias e fundou múltiplas instituições educativas públicas.

A partir da década de 1980, consolidou-se a alternância de duas grandes coalizões na assembleia legislativa estadual. O palestrante destacou o papel da Frente Democrática de Esquerda — liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista) —, a qual encabeçou o governo nos períodos de 1957-1959, 1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e de 2016 até abril de 2026. De acordo com Dennis, esse processo sustentado de democratização profunda e implementação de políticas agrárias, de saúde e educação pública situou Kerala com os indicadores sociais mais elevados de toda a nação, registrando o nível mais alto de alfabetização, os salários mais altos, a expectativa de vida mais elevada e as taxas de mortalidade infantil e materna mais baixas da Índia.
Para abordar metodologicamente esse entrelaçamento, Dennis propôs uma análise fundamentada no Volume III de O Capital de Karl Marx (1894/2017). Partindo de tais postulados, o palestrante assinalou que as fábricas cooperativas geridas pelas e pelos próprios trabalhadores representam, dentro da velha forma, os primeiros brotos do novo, superando a antítese entre o capital e o trabalho ao permitir-lhes usar os meios de produção para empregar a sua própria força de trabalho. No entanto, o palestrante advertiu sobre as contradições e os limites objetivos desse modelo ao operar dentro dos limites do capitalismo. Ao não suprimir a produção de mercadorias nem a concorrência de mercado, as cooperativas podem provocar a fragmentação e minar a unidade da classe operária. Da mesma forma, ao não se integrarem em uma economia socialista planejada, não eliminam o desemprego de forma estrutural e correm o risco latente de que algumas empresas prosperem enquanto outras entrem em falência ou passem a depender cronicamente de subsídios estatais.
Apesar desses desafios históricos, o cooperativismo em Kerala surgiu como uma resposta organizada da classe trabalhadora e do movimento camponês frente a situações de crise material e exclusão social. Dennis ofereceu uma radiografia dos modelos de vanguarda do estado, que conta com um universo total de 23.167 cooperativas:
ULCCS (Uralungal Labour Contract Cooperative Society): Fundada em 1925 como resposta à discriminação do sistema de castas, constitui hoje a maior cooperativa de trabalhadores da construção civil da Ásia e ocupa o terceiro lugar no ranking cooperativo mundial. Sua junta diretiva é eleita democraticamente pelas e pelos operários e seus dirigentes recebem o mesmo salário que um trabalhador de base.
Kerala Dinesh Beedi: Formada em 1969 como trincheira de resistência frente ao locaute das fábricas privadas de cigarros tradicionais, cujos donos preferiram fechar as instalações antes de conceder salários dignos e seguridade social.
Rubco: Cooperativa constituída em 1997 para amortecer o impacto da queda drástica dos preços internacionais da borracha natural na economia agrícola.
Milma: Federação de Cooperativas de Leite de Kerala, encarregada da coleta e distribuição de laticínios sob o lema comunitário: “O povo de Kerala acorda com o que há de bom na Milma”.
Um pilar de importância estratégica dentro dessa estrutura é o setor bancário cooperativo, o qual libertou as famílias pobres rurais da usura financeira. Tradicionalmente organizado em um sistema de três níveis — sociedades agrícolas primárias de crédito, bancos distritais e o banco estatal —, o setor se reestruturou em 2019 mediante a fusão das instituições distritais para fundar o Banco de Kerala. Esse instrumento financeiro conta atualmente com 3.481 agências em todos os vilarejos do estado. Dennis ilustrou o peso material dessa rede assinalando que as 1.607 sociedades de crédito agrícola primárias de Kerala representam apenas 1,5% do total das sociedades da Índia, mas concentram 17% do número nacional de poupadores e 24% do total dos membros tomadores de empréstimo no país até o ano de 2022.
Frente à interrogação se as cooperativas surgem unicamente em regiões onde o movimento comunista tem uma presença forte, Dennis respondeu de forma negativa. O palestrante contrastou a experiência de Kerala com a de Bengala Ocidental, um estado onde a esquerda governou por décadas, mas não conseguiu desenvolver um movimento cooperativo de força comparável. Para Dennis, a construção e a consolidação do tecido cooperativo não são um resultado automático, mas uma questão de vontade política, prioridades institucionais e enfoque metodológico.
No entanto, o caminho dessas experiências enfrenta sérios desafios diante do avanço da globalização neoliberal. Dennis explicou que cooperativas como a Kerala Dinesh Beedi garantem aos seus integrantes salários e direitos avançados — seguro médico, férias pagas e compensações médicas e dominicais —, o que situa seu salário médio em 530 rupias por cada mil cigarros produzidos. Em contraste, os fabricantes privados dentro de Kerala pagam menos de 200 rupias e, nos estados vizinhos, a remuneração cai para valores entre 100 e 180 rupias. Essa assimetria eleva os custos operacionais da cooperativa e dificulta sua capacidade de competir no mercado aberto, o que explica por que quase 24% das cooperativas sob o Registrador estatal encontram-se inativas, não operativas ou em processos de liquidação.
A esse cenário mercantil soma-se uma ofensiva geopolítica e institucional por parte da direita. O palestrante alertou que organizações de extrema-direita controlam setores cooperativos em estados como Maharashtra e Gujarat, e que atualmente o governo central da Índia criou um Ministério da Cooperação em nível estatal com o propósito explícito de intervir e disputar o controle do dinâmico setor de Kerala. Diante dessas ameaças, Dennis destacou o papel do Kudumbashree, um movimento comunitário baseado em princípios cooperativos que agrupa mais de 4 milhões de mulheres. Para março de 2025, essa rede sustentava cerca de 157.900 microempresas coletivas (empregando mais de 318.000 pessoas) que abrangem a confecção de roupas, restaurantes, academias, creches e unidades de agricultura coletiva (Sangha krishi), onde as mulheres arrendam e cultivam terras em comum com o apoio governamental.
Thomas Isaac conceitualiza três papéis fundamentais para o cooperativismo em Kerala: o bem-estar social básico para a reorganização agrícola e industrial, a reestruturação bancária para mobilizar recursos rumo ao desenvolvimento e o investimento em macroestrutura mediante agências éticas e democráticas como a ULCCS. No entanto, a experiência concreta no território revela uma tensão permanente entre esses horizontes planejados e a realidade material do mercado. Embora o segundo e o terceiro papel tenham alcançado um sucesso notável mediante a consolidação do Banco de Kerala e a execução transparente de obras públicas em tempo recorde, a modernização cooperativa da agricultura e das indústrias tradicionais segue enfrentando barreiras severas devido à escassez crônica de recursos e às pressões competitivas da globalização. Esse contraste demonstra que, enquanto o Estado indiano permanecer ancorado em estruturas capitalistas, as cooperativas locais operarão como trincheiras de resistência e bem-estar para a classe trabalhadora, mas verão limitado o seu potencial de transformação integral se não forem assumidas de maneira sustentada como um projeto político de longo fôlego.
A partir da densa caracterização exposta pelo palestrante, é possível deduzir que o cooperativismo em Kerala opera sob uma dupla condição histórica. Por um lado, configura-se como uma das conquistas materiais mais avançadas da classe operária organizada, capaz de blindar o tecido social e redistribuir a renda rural mediante o controle do crédito e da obra pública. Por outro, ao carecer de um arcabouço macroeconômico de planejamento socialista centralizado em nível de toda a Índia, o modelo vê-se obrigado a travar uma extenuante guerra de posições defensiva contra o mercado desregulamentado e o assédio institucional do governo central de direita. Sua persistência, portanto, não depende da inércia institucional, mas sim da mobilização ideológica de suas bases.
China (Guizhou): A Superliga das Aldeias, a paixão pelo futebol e a prosperidade coletiva
A terceira apresentação do seminário, proferida por Sun Xiaowei, ofereceu um panorama sobre a profunda integração local da cultura, do esporte e do turismo na República Popular da China. Sun contextualizou sua própria trajetória como o reflexo vivo de uma política institucional de quadros (o “Sistema de Assistência de Emparelhamento de Unidades Centrais”): originalmente quadro da Administração Nacional de Ferrovias na capital, Pequim, ela foi temporariamente designada como vice-diretora do Departamento de Cultura, Esportes, Rádio, Televisão e Turismo no condado de Rongjiang, pertencente à província de Guizhou, no sudoeste do país. Segundo ela, essa prática estatal busca submergir de maneira direta os quadros técnicos nas realidades das bases para fechar as lacunas de desigualdade entre as zonas ricas e pobres, assegurando que as políticas públicas sejam formuladas e ganhem raízes a partir das experiências vividas pelas comunidades locais.
Rongjiang, detalhou Sun, era historicamente um dos condados mais pobres da China e constituiu um dos últimos territórios a erradicar formalmente a pobreza extrema no final de 2020. A partir de 2021, o governo local e as comunidades começaram a debater e pesquisar diversas alternativas estratégicas baseadas no potencial da população para dinamizar a economia local. O objetivo era encontrar uma atividade de participação massiva e sustentável que pudesse ser desenvolvida durante todo o ano. A resposta das bases foi o futebol, uma paixão comunitária amadora que, após o isolamento e o confinamento da pandemia de COVID-19, canalizou o entusiasmo e a necessidade de encontro de todo o povo. Foi assim que em 2023 se popularizou e viralizou de forma massiva nas redes sociais a Superliga das Aldeias (“Cunchao”), um torneio autogestionado que transformou o tráfego e a visibilidade digital em crescimento econômico real.
A palestrante relatou uma experiência de ação coletiva popular ocorrida em junho de 2025, quando o condado sofreu uma severa inundação que cobriu as moradias até o terceiro andar e deixou o estádio central inutilizável sob camadas de barro e lama. Devido ao reconhecimento e à solidariedade que a Superliga das Aldeias já inspirava, milhares de voluntários locais e de diversas regiões do mundo mobilizaram-se de forma imediata. Em apenas um mês, a ação coletiva conseguiu limpar a cidade, cozinhar coletivamente, restaurar o estádio e reativar as partidas de futebol em tempo recorde, demonstrando a capacidade do povo para se sobrepor às dificuldades e aos desastres naturais mediante a organização a partir de baixo.
A estratégia de prosperidade compartilhada de Guizhou combina de forma virtuosa a difusão nas novas mídias, o turismo, o esporte e a cultura étnica. Sun explicou que foram impulsionadas capacitações massivas para que as e os camponeses utilizassem seus telefones celulares e câmeras como ferramentas e novos meios de produção. Essa democratização da comunicação permitiu que as avós e os jovens se tornassem embaixadores de seu próprio território, comercializando diretamente seus alimentos e os têxteis tradicionais das cooperativas de vestuário, superando as cadeias tradicionais de intermediação comercial.
O futebol atua assim como o eixo vertebrador de um ecossistema socioeconômico e cultural onde o povo é o protagonista irrenunciável. Durante os intervalos das partidas, o campo de futebol se transforma em um palco público onde se apresentam as danças tradicionais e desfiles de roupas autóctones, unindo comunidades que antes viviam isoladas. A chegada massiva de turistas alavancou o consumo local em gastronomia e hospedagem; o condado passou de contar com apenas um hotel para possuir mais de oito complexos hoteleiros de quatro estrelas, duplicando o número de leitos disponíveis de 5.900 para 12.800. Para proteger esse fluxo, a própria comunidade se organizou para evitar a especulação financeira, mantendo preços estáveis e razoáveis no buffet e no transporte. Essa reputação de hospitalidade garantiu uma alta taxa de retorno dos visitantes e atraiu empresas de alta tecnologia (drones e veículos avançados) interessadas em publicitar suas inovações no estádio.
Um recurso primordial dessa experiência tem sido a gestão e o retorno do talento. Por ser Rongjiang uma região remota, a juventude com habilidades extraordinárias costumava migrar para as grandes cidades, deixando um vazio demográfico de crianças e idosos. A Superliga das Aldeias reverteu essa tendência ao certificar e valorizar os saberes locais, tornando-se uma plataforma atrativa que convocou e trouxe de volta o talento jovem para liderar os projetos de suas aldeias. Na atualidade, o torneio se projeta em uma estratégia de três passos: consolidar as partidas locais, realizar encontros amistosos nacionais e, de olho no futuro, inspirar comunidades de todo o mundo a trazer suas culturas ao estádio.
Este ecossistema econômico se sustenta sobre um modelo cooperativo estrito de repartição de lucros gerados pela marca comercial da Village Super League. Os ganhos obtidos em operações com empresas externas entram em uma corporação de propriedade estatal e são distribuídos sob uma fórmula de propriedade coletiva:
O 51% dos lucros: Destina-se de maneira direta a fortalecer a economia coletiva da aldeia e expandir o capital operacional das cooperativas rurais.
O 49% dos lucros: São reinvestidos no financiamento das atividades esportivas, treinamentos técnicos, compra de uniformes e logística das equipes juvenis e das animadoras de torcida (líderes de torcida).
A Cooperativa Feminina Sunshine representa um exemplo vivo dessa diversificação de renda: as mulheres atuam como agricultoras durante o dia, gerindo suas vendas agroecológicas por canais digitais, e à noite se transformam em unidades de gastronomia coletiva dentro do estádio, enriquecendo cultural e economicamente a vida comunitária. Essa engrenagem implicou uma reconversão do governo local, quetransitou de uma função tradicional de controle burocrático para um papel de guia ativo e provedor de serviços públicos essenciais. O Estado assegurou o marco material da infraestrutura (estádio, estacionamentos, banheiros, plataformas de comércio eletrônico) e coordenou redes de transporte mediante ônibus (shuttle buses) vindos das montanhas distantes, garantindo que os benefícios retornem diretamente à base social. É um modelo que, nas palavras de Sun, funciona sob quatro pilares integrados: “O Governo é eficaz, o Mercado funciona, o Povo demonstra afeto e a Tecnologia empodera”.

A experiência chinesa traz uma lição metodológica fundamental sobre o desenvolvimento rural na transição socialista. O sucesso do modelo não reside na simples injeção de capital ou de assistência técnica vertical, mas na capacidade de identificar e ativar o potencial afetivo e cultural das massas — neste caso, a paixão popular pelo futebol — como o motor dinamizador das forças produtivas locais. Ao subordinar o mercado às necessidades da comunidade e democratizar os meios de comunicação digitais para eliminar a intermediação, a cooperativização em Rongjiang demonstra que o lazer, a identidade étnica e a produção econômica coletiva podem se fundir organicamente para edificar uma territorialidade soberana que prefigura novas formas de vida comunitária.
Conclusões
Durante a sessão de encerramento do seminário, Nitheesh Narayan, um dos moderadores do evento, apresentou um resumo analítico orientado a identificar os pontos de encontro políticos e metodológicos entre as palestras. Em seu balanço geral, ele destacou de forma contundente que, apesar de os projetos apresentados provirem de geografias distantes, trajetórias históricas distintas e arcabouços institucionais sumamente diversos, as três experiências compartilham uma mesma essência transformadora. A prática cooperativa, quando assumida a partir de uma perspectiva integral e não meramente mercantil, contribui de maneira direta para a democratização profunda da sociedade, devolvendo às maiorias populares o controle sobre as decisões que definem sua existência material e espiritual.
Ao detalhar o caso da Venezuela, a moderação ressaltou que o modelo comunal traz uma confirmação prática de como a participação local e o autogoverno territorial transformam a tomada de decisões em uma prática soberana cotidiana, o que se evidencia tangivelmente na industrialização e exportação direta do café nas mãos das e dos produtores camponeses. Quanto à Superliga das Aldeias na China, o balanço sublinhou que a organização cooperativa em Rongjiang demonstra como um catalisador cultural e esportivo de profundo enraizamento afetivo como o futebol pode articular as forças produtivas locais e o turismo, garantindo que o povo se aproprie coletivamente de todas as dimensões da vida digna. Finalmente, a respeito da experiência de Kerala na Índia, as conclusões enfatizaram como o seu robusto setor cooperativo e de crédito rural — que hoje sustenta os indicadores sociais mais elevados do país — é o resultado histórico direto de décadas de acumulação política e lutas operárias contra o feudalismo, o colonialismo e o sistema de castas.
Finalmente, o seminário encerrou sua quinta sessão englobando essas três visões não como receitas estáticas ou modelos fechados para serem imitados acriticamente, mas como um mapa de alternativas soberanas e um farol conceitual para as lutas dos povos do Sul Global. A articulação dessas experiências de resistência e criatividade popular estende, desde já, uma sólida ponte internacionalista rumo à sexta sessão do seminário, a qual manterá viva a chama do debate e da construção coletiva ao centrar seu olhar nas ricas e complexas experiências das lutas populares em Gana.



