Ligas Camponesas
Uma vida internacionalista: os cem anos de Alexina Crespo e a luta pela terra
Este ano, a célebre militante das Ligas Camponesas comemoraria 100 anos. Ela dedicou sua vida à Reforma Agrária, em uma luta que foi do Nordeste do Brasil até a China de Mao Zedong, passando por Cuba de Fidel Castro

Por Tings Chak*
Da Revista Jacobin
Em algum momento do início dos anos 1960, em Havana, Alexina Lins Crêspo desenrolou um mapa do Brasil desenhado à mão no chão diante de Fidel Castro e do comandante Manuel Piñeiro — o Comandante Barba Roja, encarregado das operações cubanas na América Latina.
“É, eu me lembro que estavam Fidel, o comandante Barba Roja”, contaria ela décadas depois ao jornalista pernambucano Vandeck Santiago, em uma entrevista ao Diário de Pernambuco que marcava os quarenta anos do golpe de 1964. “Aí eu botei o mapa assim, no chão, e comecei a explicar.”
Havia duas correntes dentro das Ligas Camponesas sobre a geografia estratégica da luta armada. Uma queria dividir o Brasil verticalmente; a corrente dela queria dividi-lo horizontalmente, de modo que o Nordeste pudesse se conectar, pelas suas fronteiras, ao apoio cubano via Guianas e ao apoio argelino do outro lado do Atlântico. “Pero qué pasa con tu español?”, perguntou Fidel, ouvindo-a falar. “O mesmo que se passa com o seu português”, ela respondeu. “Eu entendo espanhol, mas não falo. E você entende português, mas não fala (…). Essa aqui tem mais lógica”, disse Fidel, olhando para o mapa dela.
Em abril de 1962, depois que anos de ameaças de morte cada vez mais graves a obrigaram a mudar seus quatro filhos para Havana, Alexina Crespo — que servia às Ligas Camponesas como sua diretora de relações internacionais — aceitou um convite da embaixada chinesa em Havana para uma visita de cortesia a Pequim, viajando com suas duas filhas, Anatailde e Anatilde, que estavam a caminho de se matricular numa universidade soviética por meio de um arranjo que Fidel Castro havia ajudado pessoalmente a organizar.
O convite tinha uma história própria. Em maio do ano anterior, Chu Tunan (楚图南), conforme seu diário de viagens ao exterior, o poeta e diplomata chinês que ocupava a presidência da Associação de Amizade China–América Latina em Pequim, havia hospedado pessoalmente Alexina e Julião num banquete em Havana, enquanto liderava uma delegação chinesa de amizade enviada pelo primeiro-ministro Zhou Enlai nas semanas seguintes à Invasão da Baía dos Porcos, para felicitar Cuba pela vitória sobre a tentativa de invasão patrocinada pelos EUA.
A escala em Pequim se transformou, numa audiência reservada em Zhongnanhai, num pedido operacional: ela foi recebida pelo presidente Mao Zedong e pediu a ele diretamente armas. “Eu pedi apoio”, ela diria depois a Santiago, na mesma entrevista. “Ele perguntou quantas armas nós tínhamos. Eu disse que tínhamos muito pouca coisa. Ele não deu uma resposta logo, o chinês é muito cauteloso. Mais tarde, ele mandou uma delegação de três companheiros para verificar como estava a situação.” A Peking Review de 27 de abril de 1962 publicou uma fotografia do encontro e uma breve legenda que a identificava como “esposa de Francisco Julião, presidente das Ligas Camponesas do Nordeste brasileiro, e suas duas filhas”.
Seu centenário cai em 30 de junho deste ano.
Pernambuco, 1926–1959
Ela nasceu em 1926, no Pernambuco do canavial e dos engenhos, numa família católica, modesta admiradora de Luís Carlos Prestes. Aos dezessete anos casou-se com um jovem advogado onze anos mais velho, Francisco Julião Arruda de Paula. Seis anos depois do casamento, o Partido Comunista Brasileiro — então na ilegalidade — precisava de uma “parte legal” para sediar um congresso de mulheres no Recife. Três mulheres cujos maridos deputados lhes conferiam respeitabilidade pública foram nomeadas dirigentes de uma nova organização, a União Feminina de Pernambuco. Alexina, com vinte e três anos, tornou-se sua primeira presidenta. Em pesquisa pernambucana sobre a UFP, a historiadora Thayana Santos registraria que Alexina “entrou neste momento de bucha de canhão”.
A cobertura era real, mas o trabalho também. Em meados da década de 1950, ela havia ajudado a desenvolver a Campanha dos Pratos Vazios — mulheres se reunindo em logradouros públicos do Recife e depois marchando pelas ruas com suas panelas vazias, indo de porta em porta — e tinha ajudado a fundar a Federação das Mulheres de Pernambuco como sua sucessora e casa política.
Com a eclosão da Guerra da Coreia em 1950, sua organização se abriu para fora: ela liderou marchas de mães recifenses em solidariedade às mães dos soldados estadunidenses mobilizados para a invasão, exigindo o retorno imediato de seus filhos, o fim da guerra e o fim do armamento nuclear. O internacionalismo — nessa etapa, o internacionalismo do início da Guerra Fria das campanhas pela paz — já fazia parte do seu trabalho antes mesmo de os camponeses do Engenho Galiléia entrarem no escritório de advocacia do marido. Em sua formação como sujeito político, o trabalho de organização das mulheres veio primeiro.
Em 1955, os foreiros do Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, entraram na casa da família no Recife. Eles haviam organizado uma cooperativa com um pequeno fundo mútuo para o pagamento de caixões funerários; o filho do coronel dissera ao pai que a cooperativa era um aparato comunista; o foro tinha sido aumentado; eles tinham sido ameaçados de expulsão. Em poucos meses, o nome “Liga Camponesa” — que tinha origem em xingamento da Guerra Fria, com algumas versões variantes sobre sua gênese — seria adotado pelos próprios camponeses.
Os camponeses começaram a subir a estrada até a casa de Caxangá, na rua Cruz Macedo, 99, no Recife. Chegavam com as marcas do chicote do jagunço nas costas. Alexina limpava e costurava os ferimentos. Ela também ficava armada atrás da porta quando estranhos chegavam: Julião, figura pública que recebia visitas a todas as horas, atendia à campainha, e Alexina — escondida atrás dele com uma Beretta na mão — cobria o umbral, caso o visitante fosse o assassino que os latifundiários do Nordeste vinham prometendo enviar. Seu filho Anacleto descreveria mais tarde a casa como “uma espécie de quartel-general da esquerda brasileira” — por onde passaram Prestes e Brizola e Miguel Arraes e Paulo Freire e muitos camponeses em busca de orientação. Em 1959, o estado de Pernambuco desapropriou o Engenho Galiléia sob a nova legislação estadual de reforma agrária — uma das primeiras desapropriações de terras para Reforma Agrária na história brasileira.
O internacionalismo como prática, 1959–1972
A Lei de Reforma Agrária Cubana de 17 de maio de 1959 deu às Ligas brasileiras um par continental. Entre o final de 1961 e o início de 1962, depois de um ano de ameaças de morte crescentes vindas dos latifundiários do Nordeste, Alexina mudou seus quatro filhos — Anatailde, Anatilde, Anatólio e Anacleto — para Havana, onde se matricularam na Escola Russa Marte, uma escola construída nos primeiros anos da Revolução Cubana para abrigar os filhos de combatentes mortos. Seus colegas eram filhos de combatentes da FLN argelina, da resistência vietnamita, de outros combatentes latino-americanos cujos pais ainda estavam escondidos no agreste, na selva ou nas montanhas.
Meio século depois, filmada em Havana aos oitenta e cinco anos para o documentário Alexina — Memórias de um Exílio, ela descreveria a escola como “uma dimensão também internacionalista, você tinha o filho de combatentes africanos, argelinos, brasileiro, depois chegamos vietnamita”. O internacionalismo, no seu relato, não era uma doutrina. Era a escola para onde você levava os seus filhos. Sua companheira Delzuíte da Costa Silva, uma das lideranças femininas das Ligas e co-fundadora com Alexina do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) — organização anunciada publicamente que se projetava como ala armada das Ligas, embora não tenha chegado a realizar ações, colocaria depois o trabalho de forma mais direta: “Alexina foi levar os filhos para o mundo socialista e trazer de volta a experiência do socialismo para nós.”
Em Cuba ela treinou como guerrilheira e ajudou a transmitir esse treinamento a outros quadros latino-americanos exilados — aulas de trajetórias de morteiro, montagem e desmontagem de armas leves. “Foi num campo de tiro ao alvo. Com armas, metralhadora… Tivemos aula também sobre curva de nível, que é para você aprender a atirar de morteiro.” O debate em torno do mapa em Havana com Fidel e a audiência em Pequim com Mao pertenceram a esse mesmo período. Para além de Fidel e Raúl Castro e Che Guevara, ela passou a conhecer o comandante revolucionário afro-cubano Juan Almeida Bosque, Celia Sánchez — assessora pessoal mais próxima de Fidel ao longo de toda a Revolução e uma das mulheres da Sierra Maestra — e Vilma Espín, fundadora da Federación de Mujeres Cubanas e uma das mulheres que haviam liderado o Movimento 26 de Julho na clandestinidade. A Havana à qual ela viajava não era a Havana da diplomacia de Estado. Era a Havana dos companheiros com quem ela ensinava e treinava.
A relação era também pessoal. Segundo seu filho Anacleto, as duas filhas mais velhas chegaram a Moscou vindas de Pequim — mas o inverno soviético acabou derrotando-as e elas retornaram a Cuba, com medo de decepcionar Fidel, que havia ajudado a arranjar os estudos. Fidel, quando soube, não demonstrou decepção: ele entendia, disse-lhes, que o frio de Moscou era duro. Alguns meses depois, quando os quatro filhos ficaram com saudades do Brasil no calor da ameaça crescente da ditadura, Fidel discretamente ajudou a organizar uma breve viagem de volta para casa para eles — apesar dos riscos que a viagem carregava nos meses anteriores ao golpe de 1964. O internacionalismo para a família Crêspo-Julião, naqueles anos, não era um programa. Era um amigo que deixava seus filhos voltarem para casa.
Em janeiro de 1966, a Primeira Conferência Tricontinental dos Povos da Ásia, África e América Latina reuniu-se em Havana — a conferência fundadora da Organización de Solidaridad de los Pueblos de África, Asia y América Latina (OSPAAAL) e um dos momentos políticos centrais do internacionalismo revolucionário do século XX, tendo Salvador Allende, Amílcar Cabral, a FNL vietnamita e o anfitrião Fidel Castro entre as vozes principais. Segundo o memorial biográfico organizado pela família, Alexina foi convidada a discursar na conferência e suas duas filhas mais velhas, Anatailde e Anatilde, encenaram a abertura trajadas com as bandeiras de Cuba e do Brasil. O detalhe não tem corroboração independente na literatura secundária sobre a Tricontinental, mas uma fotografia preservada no arquivo da família mostra as duas filhas na abertura, com Salvador Allende e a líder revolucionária cubana Vilma Espín visíveis no enquadramento.
Segundo o testemunho de Clodomir Santos de Morais — seu companheiro na ala armada das Ligas — ela foi também a delegada oficial das Ligas Camponesas à Primeira Conferência da Organización Latinoamericana de Solidaridad (OLAS) em Havana, de 31 de julho a 10 de agosto de 1967, a organização continental de luta armada cujo lema “el deber de todo revolucionario es hacer la revolución” formalizou o horizonte estratégico que a Tricontinental havia aberto. Dois meses depois do encerramento da OLAS, Che Guevara foi morto na Bolívia.
Antes do golpe de 1964, ela e seus companheiros haviam enterrado um pequeno arsenal na granja de um amigo nos arredores do Rio de Janeiro. “Em papel impermeável, no caixão. Tinha Fal, metralhadora, revólver… Acho que elas ainda estão lá”, contou a Santiago em 2004. Ela se recusou a dar o endereço.
Dois golpes contra a Reforma Agrária, 1964 e 1973
Ela estava em Havana com os quatro filhos no dia 1º de abril de 1964 quando chegou a notícia do golpe. Julião havia feito seu último discurso no Congresso Nacional no dia anterior, dizendo ao Brasil que a questão agrária era “o fator que está por trás de toda esta agitação”. Ele seria preso dois meses depois sob nome falso e passaria catorze anos no exílio mexicano. As Ligas Camponesas seriam destruídas. As armas enterradas nunca seriam desenterradas. Com o retorno ao Brasil bloqueado e Julião preso, Alexina e os quatro filhos permaneceram em Cuba e se integraram à vida revolucionária da ilha: cortaram cana na zafra ao lado de trabalhadores cubanos e de outros exilados latino-americanos, fizeram plantão nas rondas noturnas do bairro e passaram a integrar as Milicias Nacionales Revolucionarias, o corpo paramilitar das Forças Armadas Revolucionárias cubanas. O internacionalismo, neste período, não era um programa; era o trabalho de atravessar o dia seguinte.
Ela continuou o trabalho. Nos anos posteriores ao golpe, ela carregou missões das Ligas por Cuba, Vietnã, União Soviética, República Popular Democrática da Coreia e outros países do bloco socialista, prolongando o trabalho de relações internacionais que a tinha levado a Pequim em 1962. A família, com a renovação dos passaportes brasileiros negada pelo regime militar, foi tornada oficialmente apátrida; seus documentos de identidade foram emitidos, nessa condição, pela autoridade suíça em nome das Nações Unidas. Em 1970, com a eleição de Salvador Allende no Chile, a família mudou-se para Santiago com a intenção de que Alexina pudesse eventualmente retornar ao Brasil de forma clandestina. Naquele momento, a reforma agrária chilena, entre 1965 e 1973, havia desapropriado quase dez milhões de hectares como aponta Brian Loveman no seu Struggle in the Countryside: Politics and Rural Labor in Chile, 1919–1973. O projeto continental ao qual Alexina havia dedicado uma década estava, em outro país, quase se realizando.
Em 11 de setembro de 1973, os militares chilenos depuseram Allende com o apoio dos EUA. Sua filha mais velha, Anatailde, foi presa na porta de sua residência em Santiago e levada ao Estádio Nacional, onde prisioneiros políticos de toda a América Latina estavam sendo detidos e muitos torturados e mortos. Alexina, refugiada com seu filho Anacleto sob proteção diplomática sueca, conseguiu localizar Anatailde com vida no Estádio e obter sua libertação; a família foi colocada num avião para Estocolmo. Entre setembro e dezembro de 1973, no Chile, 285 camponeses e 31 funcionários de instituições agrícolas foram executados ou desaparecidos — 85 por cento de todas as mortes documentadas do golpe naquele trimestre. A destruição da reforma agrária não foi um efeito colateral do golpe. Foi o golpe.
Ela viveu na Suécia desde o final de 1973 até janeiro de 1980, integrando-se à comunidade de exilados brasileiros no país e mantendo contato com a diáspora mais ampla — Herbert de Souza (“Betinho”) no seu exílio canadense, Gregório Bezerra (o veterano do PCB, longos anos preso, libertado em 1969 numa troca organizada pela guerrilha pelo embaixador alemão sequestrado) no seu exílio na Europa Oriental. Ela trabalhava para sobreviver e, no tempo que conseguia, estudava teatro.
O retorno, 1980–2013
Ela voltou a um país no qual as Ligas Camponesas não haviam sido reconstituídas. A organização camponesa que ela tinha ajudado a construir tinha sido destruída pela ditadura; o que surgiria em seu lugar, fundado em Cascavel, no Paraná, em janeiro de 1984 por 1.500 representantes de dezesseis estados, foi o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que viria a citar as Ligas Camponesas entre suas principais referências. Ela ingressou na executiva do Partido Comunista Brasileiro em Pernambuco e, por trinta e três anos, até sua morte em 2013, continuou o trabalho de organização do movimento de mulheres e do movimento camponês que ela tinha começado em 1949.
Em abril de 2010, com oitenta e três anos, ela proferiu o que seria a sua última manifestação política pública, numa reunião da Liga dos Camponeses Pobres. Seu filho Anacleto falou primeiro. “Pode ser pouca coisa o que eu vou dizer”, ela disse quando chegou sua vez, “mas é de coração. Nós temos que seguir a luta. ‘Luta ou morte, venceremos!’ ‘Patria o muerte, venceremos!’ São palavras dos guerrilheiros de Cuba. A gente conviveu lá muitos anos. […] Eu desejo que vocês multipliquem, centupliquem essa organização de vocês para todo o Brasil e, enquanto eu puder ajudar, enquanto eu tiver um alentosinho, vou seguir lutando. Não sei como: falando, falando, falando, e até quem sabe uns murros, também posso dar.”
Ela morreu no Recife em 14 de novembro de 2013, de insuficiência pulmonar, aos oitenta e sete anos.
Recuperando o seu nome hoje
Em 2019, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA Brasil) realizou a Caravana Alexina Crespo em Pernambuco — uma caravana de formação política de meses pelo agreste e pelo sertão que tomou o seu nome. Em 25 de novembro de 2024, no Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres, o Movimento de Mulheres Olga Benário inaugurou a Ocupação da Mulher Trabalhadora Alexina Crespo em Suzano, na região do Alto Tietê em São Paulo — sua primeira casa de referência na região. Em abril de 2025, os setenta anos das Ligas Camponesas foram comemorados no Engenho Galiléia.
Em outubro de 2025, a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou o Projeto de Resolução nº 3020/2025, de autoria da deputada estadual Rosa Amorim — primeiro quadro do MST a conquistar um assento na Assembleia Legislativa de Pernambuco, eleita em 2022 — incluindo Alexina no Livro do Panteão dos Heróis e das Heroínas de Pernambuco — ao lado de Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Fernando Santa Cruz, Zumbi dos Palmares e Frei Caneca. “Alexina foi referência na luta das Ligas Camponesas em Pernambuco e uma das primeiras mulheres a ocupar este lugar”, escreveu Amorim no dia da inclusão, “reforçando a importância do protagonismo feminino na luta pela terra.”
Um Memorial da Reforma Agrária e das Ligas Camponesas do Brasil, ancorado na Universidade Federal Rural de Pernambuco sob a coordenação da professora Marcília Gama, levará seu arquivo familiar — fotografias, cartas, poemas, objetos do seu longo século — a assentamentos e espaços públicos por todo o Pernambuco no marco do centenário.
Reunir este artigo foi, para mim, uma tarefa pessoal dos últimos dois anos. No percurso de pesquisar a longa história das relações entre China e Brasil — e a luta global pela terra que correu entre as duas — me deparei com esta figura: uma brasileira, militante de um movimento camponês no Nordeste, que havia sentado diante do presidente Mao em 1962 e lhe pedido armas. Fiquei impactada tanto por aquilo que ela fizera quanto pelo pouco que se escreveu sobre ela. Entre as mulheres, companheiras e historiadoras brasileiras a quem perguntei, poucas conheciam o seu nome. O centenário é uma ocasião para começar a colocar em circulação mais ampla aquilo que dela se pode recuperar.
Ela não fez o trabalho para ser reconhecida; fez porque o trabalho era o que a conjuntura e as lutas do momento tornavam urgentes. “Eu só fiz o que tinha que fazer”, disse aos pesquisadores pernambucanos que a entrevistaram em 2010.
Cem anos depois do seu nascimento, as condições e contradições que ela viveu seguem em curso. Fidel e Mao eram considerados inimigos do imperialismo estadunidense em seu tempo. Para os camponeses no mundo — incluindo no Brasil — eles eram também, como Alexina os conheceu, figuras que lideravam revoluções vitoriosas, como Tad Szulc, do New York Times, escreveu de Recife em sua matéria de capa em 1960, alertando Washington sobre a “ameaça comunista” no nordeste brasileiro, onde os camponeses estariam “imitando” figuras como Fidel e Mao.
Os espectros anticomunistas daquela Guerra Fria foram conjurados de volta na nossa, num período de decadência imperial estadunidense em que a força militar vai tomando o lugar da persuasão econômica com que a ordem liderada pelos Estados Unidos já não pode contar. Cuba — onde ela treinou e viveu boa parte dos anos 1960 no exílio — segue sob um dos mais longos bloqueios econômicos da história moderna, agravado em um dos momentos mais difíceis da história da ilha. A China à qual ela viajou em 1962, e à qual ela insistia que a luta camponesa brasileira tinha que encontrar uma contraparte, é hoje o principal alvo da renovada Guerra Fria liderada pelos EUA e do crescimento das forças de direita pela América Latina e pelo mundo.
E, no entanto, contra esse pano de fundo geopolítico, a relação entre o movimento camponês brasileiro e a República Popular da China segue em curso. Desde 2023, o MST, através da Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab), vem construindo uma cooperação direta, tecnológica e institucional, com o sistema chinês de pesquisa agrícola, ancorada no Centro Brasil-China de Pesquisa, Desenvolvimento e Promoção de Tecnologia e Mecanização para Agricultura Familiar, inaugurado na Universidade de Brasília em novembro de 2024. Desde então a cooperação envolve transferência de tecnologia em mecanização para agricultura familiar, bioinsumos e — desde maio de 2026 — uma plataforma de inteligência artificial para a Reforma Agrária e a Agroecologia (IARAA), todas construídas sob a lógica de fortalecer a agricultura camponesa, não o agronegócio exportador.
Os movimentos camponeses como MST que surgiram das Ligas Camponesas continuam a lutar pela há tanto adiada Reforma Agrária e por um horizonte socialista. O que movia Alexina, ao longo do longo século de sua vida, era ser revolucionária e o internacionalismo que ser revolucionária nas lutas do século XX exigia. Hoje, esse espírito e essa ação revolucionários e internacionalistas são mais necessários do que nunca.
“Falando, falando, falando”, ela disse em 2010 — “e até quem sabe uns murros, também posso dar.”
* Brigada internacionalista Liang Jun (China).



